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Porque andam as séries a suavizar as suas temáticas?

Após deparar-me com a notícia de que a Netflix irá editar a cena de suicídio na primeira temporada de 13 Reasons Why, não posso deixar de sentir uma certa revolta interior relativamente a isto. Estamos a falar de uma série que conquistou o mundo pela abordagem de temáticas delicadas na comunidade adolescente. Quer se ame ou se odeie, o certo é que ela pôs o mundo a falar sobre questões importantes que, até então, não tinham chegado à superfície da sociedade. O bullying, a discriminação, a violação, a carência de um acompanhamento psicológico nas escolas, são, inquestionavelmente, problemáticas que comprometem a saúde mental de qualquer pessoa, seja ela adulta ou adolescente.

Termos um registo visual forte sobre estes aspetos é imprescindível para criar o impacto necessário no âmago de uma sociedade que prefere viver na superficialidade e ocultar os aspetos mais débeis do estado de saúde mental da sua própria espécie. A sociedade está cada vez mais sensível e impressionável com a violência retratada em cinema e na televisão. Algo que, por esta altura, deveria ser visto como algo intrinsecamente ligado à produção artística. Como poderão o cinema e a televisão impressionar se uma larga percentagem da população prefere ver (e viver) um retrato suavizado destas temáticas de difícil digestão?

Não é por nada que existe um sistema de classificação de idades para a visualização de cinema e televisão. Para além disso, novos mecanismos de alerta foram criados para avisar o espectador de que o que estão prestes a ver pode ferir suscetibilidades devido a imagens e conteúdo gráficos. Privar a arte de ser genuína e de expor de forma dura e cruel certas realidades, não ajuda a sociedade a crescer, muito pelo contrário. É como disfarçar uma casa de horrores no formato de um palácio.

The Handmaid’s Tale — “Unfit” – Episode 308 — June and the rest of the Handmaids shun Ofmatthew, and both are pushed to their limit at the hands of Aunt Lydia. Aunt Lydia reflects on her life and relationships before the rise of Gilead. Janine (Madeline Brewer), Brianna (Bahia Watson), Ofmatthew (Ashleigh LaThrop), Alma (Nina Kiri), and June (Elisabeth Moss), shown. (Photo by: Sophie Giraud/Hulu)

A primeira temporada de 13 Reasons Why não procura incentivar ninguém a cometer suicídio, mas pode sim ajudar aqueles que se encontram num estado tão frágil quanto o da protagonista a procurar apoio para combater este tipo de pensamentos negativos.

Mas a verdade, é que esta sensibilidade desmesurada da população está a provocar o declínio criativo de outras séries. Séries estas que estão praticamente a suavizar as suas histórias, tornando-as produtos banais e pouco consistentes. Os mais recentes casos são os de Big Little Lies e The Handmaid’s Tale. Duas séries que primavam pela violência psicológica (e física muitas vezes) e pelas posições difíceis em que colocavam as suas protagonistas. A exposição dramática e a ausência de elementos gráficos de violência está a prejudicar ambas no impacto das suas narrativas.

Não há muitos anos atrás, Jeffrey Dean Morgan entrou “a matar”, literalmente, na sua estreia em The Walking Dead, esmagando os “miolos” de duas personagens acarinhadas pelos fãs. A comunidade online depressa foi às redes sociais queixar-se de que o episódio tinha sido “demasiado violento” ou que “incentivava a violência explícita e gratuita”. Mas, no universo de The Walking Dead, como poderá a série sobreviver sem as doses necessárias desta violência gráfica? A verdade é que o tom da série abrandou bastante após estas queixas e a sua construção está a evidenciar uma fadiga extenuante de querer simplificar e moderar a quantidade de violência que deveria oferecer.

Mesmo Game of Thrones, que terminou relativamente há pouco tempo, sofreu do mesmo impacto, preferindo abrandar com as mortes de personagens acarinhadas pelos fãs removendo toda a sua mística e abandonando os valores que a definiu como uma série de eleição. O fan service é inimigo da criatividade muitas vezes, especialmente quando os argumentistas começam a dar mais importância ao que é comentado online do que a dar asas à criatividade e manter os alicerces e as origens da génese inicial do seu trabalho.

Uma sociedade cada vez mais impressionável e a queixar-se que a arte está demasiado agressiva ou violenta é uma sociedade que não se conhece. Isto são aspetos intrínsecos da nossa espécie e, seja de que forma for, a violência é necessária para, não só nos manter entretidos com o que vemos, como também para trazer realismo às histórias que estão a contar.

Vivemos numa era em que o politicamente correto está a devastar a comunidade artística, ainda que surjam algumas pérolas que revelam a urgência em contar histórias sediadas numa realidade social que muitos não querem crer que existe. Um destes casos é Euphoria, da HBO, protagonizada por Zendaya. Um conto mosaico sobre as dificuldades da adolescência, desde sexo, drogas, até ao impacto visual das consequências dos atos mais impulsivos dessa fase particular da vida humana. Não tem medo de arriscar, nem de impressionar. E é assim que a arte deve ser, destemida e focada no seu objetivo.

Quem não quer algo violento, que se dedique a ver outro tipo de série ou filme. Porque a violência é importante na arte e a vida nem sempre é um conto de fadas.

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