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Crítica: Extremely Wicked, Shockingly Evil, and Vile (2019)

Extremely Wicked, Shockingly Evil, and Vile Critica de Cinema

Ted Bundy. Aquele nome que nos faz arrepiar a espinha só de o ouvir. Um serial killer carismático, astuto e sorrateiro. Um que tem o poder de ser “encantador” e disfarçar os seus instintos predatórios. Um que removeu tantas almas deste mundo e ainda culpou a pornografia de ter sido influenciadora do seu comportamento. Um vilão real e digno de pesadelos.

É nele que se foca Extremely Wicked, Shockingly Evil, and Vile, o novo filme ficcional de Joe Berlinger (que nos trouxe recentemente Conversations with a Killer: The Ted Bundy Tapes) e não esconde a sua admiração ao notório assassino em série. Admiração esta que acaba por caminhar por trilhos sinuosos e pode ser facilmente confundida com fascínio. Mas já lá vamos. Extremely Wicked, Shockingly Evil, and Vile é baseado no livro de Elizabeth Kendall, uma namorada do assassino em série, mãe solteira e com quem Ted Bundy levava uma vida aparentemente normal e feliz. Tanto que quase tudo no filme é visto através do seu prisma, uma decadente história de felicidade, mas nem por isso Berlinger demoniza Bundy. Talvez isto seja um dos seus pontos fortes em termos cinematográficos (a nível moral, claramente questionável) ao fazer com que o público veja Bundy de forma mais carismática, forçando uma empatia quase instantânea através do charme de Zac Efron. De facto, em Extremely Wicked, Shockingly Evil, and Vile é quase que impossível não resistirmos a Ted Bundy e, enquanto isso pode ser perigoso em termos morais, o certo é que é precisamente por esta façanha do assassino que ele se tornou um objeto de fascínio para muitos.

Extremely Wicked, Shockingly Evil, and Vile Critica de Cinema

Aqui vemos Ted Bundy a ser um amante dedicado, um indivíduo carinhoso e com um jeito particular para crianças, apresentável, educado, e quase que sentimos que a polícia era o verdadeiro vilão. É talvez por isto que Extremely Wicked, Shockingly Evil, and Vile seja vertiginoso, por deturpar a visão entre herói e vilão. A mudança de perspetiva torna-se cativante ao longo do filme e Zac Efron é extremamente versátil. Tanto que, acuso-me a dizer, uma prestação digna de Óscar. Ver como ator começou em idade tão tenra e em projetos infantis e agora encarna uma das figuras mais temíveis dos Estados Unidos. É louvável o seu percurso e, acima de tudo, o seu crescimento e maturidade. E é através da sua prestação que Extremely Wicked, Shockingly Evil, and Vile se torna tão cativante.

Lily Collins também não fica atrás, ainda que o filme perca um pouco de força quando se foca inteiramente na sua personagem. E, sendo ela o aparente foco da película, é uma sensação estranha como nos sentimos tão investidos em querer saber mais sobre Ted do que o seu sofrimento. É uma proeza admirável que Berlinger acaba por conseguir transmitir de forma credível através do seu fascínio pelo assassino. No entanto, balançar a linha ténue entre admiração e fascínio por alguém tão moralmente corrupto e problemático acaba por interferir com a relevância do filme. No espaço de um ano, Berlinger dedicou a sua carreira a trazer toda a informação possível sobre Ted Bundy ao público, seja em tom documental ou de ficção, e, apesar de entendermos e, de certa forma, despertar a nossa curiosidade, qual é a necessidade de tanto foco numa figura tão execrável?

Extremely Wicked, Shockingly Evil, and Vile Critica de Cinema

O tempo de Bundy já foi. Já foram feitos inúmeros filmes sobre ele, talvez numa altura em que a informação seria ainda mais importante do que é agora. E, assim, mantém-se vivo o espírito de uma figura que merece o esquecimento. Em termos morais, portanto, Extremely Wicked, Shockingly Evil, and Vile é condenável, mas do ponto de vista cinematográfico, acaba por surtir efeito, já que se nota o à vontade de Berlinger na temática e os cenários tão idênticos às gravações reais que apresentou no seu trabalho anterior. Quer a nível performativo, quer a nível argumentativo ou até mesmo de filmagem, Extremely Wicked, Shockingly Evil, and Vile é um filme bastante competente e, acima de tudo, está construído de uma forma criativa ao colocar o vilão como alguém apetecível e força o público a ceder ao seu charme, tal e qual como Bundy tentou fazer nas suas constantes visitas à Casa da Justiça. É quase como que uma rendição ao Príncipe Encantado que, no final, se descobre que é, de facto, o monstro. É talvez por ter optado por esta narração que o filme se torna bastante agradável e cinematicamente apelativo.

Ainda assim, a sua relevância não deixa de ser um fator que influencia a nossa perceção dos factos e voltarmos a revisitar Ted Bundy já começa a ser cansativo. Já o conhecemos e, ainda que Zac Efron esteja espantoso, não precisamos de mais apego a um serial killer tão cruel. Mas, num tom de esperança que este seja o último, Extremely Wicked, Shockingly Evil, and Vile é um filme ambíguo mas que, em termos técnicos e argumentativos supera a expectativa e merece algum crédito por aliar a admiração do realizador e pela reviravolta da exposição da história.

Extremely Wicked, Shockingly Evil, and Vile Critica de Cinema

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Título: Extremamente Perverso, Escandalosamente Cruel e Vil

Título Original: Extremely Wicked, Shockingly Evil, and Vile

Realização: Joe Berlinger

Elenco: Zac Efron, Lily Collins, Angela Sarafyan, Jeffrey Donovan, Kaya Scodelario, Haley Joel Osment, Jim Parsons, John Malkovich.

Duração: 110 min.

Trailer | Extremely Wicked, Shockingly Evil, and Vile

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