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The Act – Season Finale – 1ª Temporada

The Act Season Finale

CONTÉM SPOILERS DE THE ACT!

Em 2015, nos Estados Unidos, Dee Dee Blanchard, uma mãe dedicada de uma adorável menina paraplégica foi assassinada a sangue frio. Não há sinal da sua filha Gypsy, apenas um corpo inanimado coberto por lençóis. Um cenário aparentemente horripilante e, esta, é a sua história. Gypsy Rose Blanchard foi acusada pelo homicídio da sua mãe, com o namorado perturbado Nicholas Godejohn, num dos casos mais bizarros e incómodos de que há memória.

Esta é uma história verídica, adaptada para ficção pelo talentoso criador de Channel Zero, Nick Antosca em cooperação com Michelle Dean. Para muitos, o caso de Dee Dee e Gypsy Blanchard está polvilhado de aspetos macabros que muito provavelmente nunca associaríamos a algo que pudesse ser real. Mas enganem-se, porque isto é bem real e vamos falar um pouco sobre ele.

The Act Season Finale
The Act — ” ” — Dee Dee Blanchard (Patricia Arquette), Gypsy Rose Blanchard (Joey King) shown. (Photo by: Brownie Harris / Hulu)

Dee Dee Blanchard sofria de uma síndrome em que submetia a sua filha Gypsy Rose a abusos clínicos e médicos, manipulando e obrigando a sua primogénita a enfrentar uma vida numa cadeira de rodas, alegando que padecia de leucemia, distrofia muscular, epilepsia, problemas respiratórios, deficiências auditivas e visuais, entre outros. Tudo isto não passava de uma mentira e, vejam lá que a mãe era tão paranóica que Gypsy era alimentada por sonda e não podia comer nada com açúcar porque era supostamente alérgica.

Falácias que conseguiram fazer com que Dee Dee lucrasse muitos apoios, fossem eles governamentais, ou solidariedade de instituições ou pessoas. A obsessão de Dee Dee em ter a sua filha totalmente dependente de si, ao ponto de mentir sobre o seu histórico clínico e, inclusive, na própria idade da filha (apesar de ter 20 anos, Dee Dee forçou Gypsy a acreditar que tinha a mentalidade de uma criança de 7 anos).

Mas as hormonas não cessam e, depois de tantos anos de mentira e abusos, Gypsy começa a despertar e a confrontar a sua realidade, procurando por escapes para ser uma jovem normal. Querendo libertar-se da pressão da sua mãe, Gypsy conhece Nicholas Godejohn num site de dating online e acredita que este é o seu príncipe encantado e que a irá salvar da sua terrível vida e, com isto, a catástrofe abate-se com a sua decisão.

The Act Season Finale

O MELHOR DE THE ACT:

The Act é a visão ficcional desta história tão estranha e tão difícil de acreditar. É uma série extraordinária que capta a essência e (quase) todos os pormenores reais do caso (já irei falar um pouco sobre esta questão) e torna-os num conto extremamente vívido, intenso e arrepiante. The Act terá caráter antológico, sendo que todas as temporadas se irão focar em casos estranhos que ocorreram nos Estados Unidos e não houve melhor forma de começar como esta.

Patricia Arquette e Joey King são sublimes. Tanto que as semelhanças entre as suas personagens e as figuras reais que representam são assustadoras. É um trabalho incrível, com uma dedicação fora do vulgar. A própria realização dos episódios é cativante porque não se embrulha em floreados nem procura divergir muito da veracidade da sua matéria-prima. Assim que comecei a ver The Act e descobrir que era baseada num caso verídico, decidi informar-me sobre o que realmente aconteceu. Depois de ler bastantes artigos e ver alguns vídeos, o choque abatia-se no meu rosto. Não conseguia acreditar que tal coisa seria possível… mas enganei-me redondamente. Com isto, resolvi dar uma oportunidade ao documentário da HBO que se foca inteiramente na história de Gypsy, Mommy Dead and Dearest (leiam a crítica aqui), e foi então que me apercebi que todo o trabalho de produção de The Act foi inspirado no material que este documentário proporciona. Desde os diálogos, passando pelas fisicalidades e gestos das personagens, do fluxo da ação, na verdade, muito pouco diverge da história real. Isto até pode soar como algo pouco original, mas é por respeitar a história que The Act tem um impacto poderoso. No entanto, isto não significa que a série não tenha margem de manobra para poder trabalhar o seu lado criativo. Tanto que as técnicas de filmagem, a produção técnica, e as diferenças de cor e tons criam uma sinestesia visual bela e diversificada. Portanto, The Act não é apenas uma narração, é também um produto artístico com qualidade, auxiliada por um elenco de luxo exímio e praticamente infalível.

The Act Season Finale

O caso que The Act aborda é de uma ambiguidade moral difícil e é necessária uma habilidade especial para trabalhar a história sem cair em falsos moralismos. Algo que foi feito com mestria e sem cair em tendências pouco convencionais. É precisamente na garra com que conta a sua história, quer a nível argumentativo, quer técnico, que The Act surge como um dos primeiros produtos do ano de referência e, esperemos bem, que continue assim por muitos anos, com novas histórias de nos deixar boquiabertos e seriamente incomodados.

O PIOR DE THE ACT:

Nada a acrescentar de grave. Alguma opção aqui e acolá de narrativa não muito bem sucedida, mas raros foram os momentos em que não nos sentimos envoltos na história e, por esta proeza, The Act merece reconhecimento.

Estado da Série: STAND-BY

 

Leiam outras Mini-Reviews aqui.

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Average Rating

The Act é a primeira série estreante de 2019 a chegar a um estatuto de referência, pela forma como conduz a sua narrativa sem divergir do material de origem e por ter um duo protagonista infalível.

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