Cinema Críticas

Crítica: Us (2019)

Us crítica de cinema

Jordan Peele imortalizou-se no cinema de horror pelo êxito Get Out que agiu como prova de que o racismo é ainda material digno de pesadelos. Depois da vitória pelo Óscar de Melhor Argumento Original, Peele apressou-se a mergulhar novamente no género e desta vez traz-nos Us, com Lupita Nyong’o e Winston Duke. Confesso que, numa nota pessoal, não me tornei fã de Get Out.

A mensagem de Peele é clara e é facilmente percetível pela tonalidade e atmosfera desconcertante do filme. No entanto, considero que Get Out foi vítima das suas próprias ambições. Afogou-se demasiado no conceito de racismo e levou-o a um extremo difícil de digerir onde, de alguma forma, se sente que há ainda muita mágoa e dor nas imagens que retrata, forçando-o a ser demasiado ofensivo para com ambas as etnias retratadas. Não pretendo, com isto, ser insultuoso de alguma forma. Apenas respeito a mensagem de Peele, mas não considero um aspeto qualitativo levar o racismo ao extremo para marcar a sua posição face às adversidades que infelizmente ainda assombram o nosso mundo.

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Mas, com Us, Peele consegue despegar-se (ainda que levemente e já lá vamos) deste dramatismo exagerado do racismo e traz-nos uma obra soberba, como que uma miscelânea de referências a grandes clássicos do cinema, e com uma ambience deveras desconfortável. Us centra-se numa família que, numa ida de férias, começa a ser atormentada por estranhos indivíduos vestidos de vermelho. Na praia de Santa Cruz, há um parque de diversões macabro que leva a mãe (uma prestação fenomenal de Lupita Nyong’o) a recordar estranhos momentos do seu passado e que estão ligados com os eventos que se seguem.

Us é uma obra sedutora, construída com uma perceção artística invulgar. Peele tira proveito dos grandes clássicos como The Shining, ou até mesmo do ambiente claustrofóbico da maioria das obras de Alfred Hitchcock, para projetar a sua narrativa. A banda sonora ainda injeta mais uma sensação de desconforto rara e que se entranha do início ao fim. A junção dos elementos culmina numa visão aproximada a Funny Games elevada a um patamar ainda mais insano e com um ritmo que vai crescendo gradualmente, deixando o espectador a roer as unhas incessantemente. Mas, para além de Us ser uma obra com uma realização fascinante, é Lupita Nyong’o que se torna, de facto, o seu rosto, com uma prestação assombrosa e digna de Óscar.

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Ainda que o humor cheesy assente mal na maioria das cenas e as piadas étnicas de Peele serem incomodativas, Us brilha precisamente quando se foca na ação e na exposição da sua história e menos nestas questões sociais. As personagens caucasianas do filme são, literalmente, ilustradas como fúteis, superficiais, como se estereotipassem toda uma comunidade étnica. É pena, de facto, que a opção de Peele tenha sido esta, mas não prejudica o filme a longo prazo. E não prejudica porque Peele é engenhoso em culminar com plot twists que acariciam a película sem aviso prévio ou sequer um breve indício ao longo do desenvolvimento. Há também alguns momentos desnecessários em que Peele se torna demasiado político, mas felizmente são curtos e facilmente esquecíveis.

Us é brilhante precisamente quando se foca no horror e nas sequências non-stop que vão construindo a génese a história, deixando o espectador num estado de nervosismo errático. Há um posicionamento de cenas que, auxiliadas pela fotografia, se tornam belas, mesmo num contexto de medo. Ao aproveitar o conhecimento das grandes obras do terror, Peele constrói uma narrativa sólida, com caráter e garra, sem nunca cansar ou se tornar incoerente. Um cineasta que consiga manter o seu registo e encontre estabilidade num género (que, sejamos sinceros, já viu melhores dias) que foge completamente à sua zona de conforto, é um feito admirável.

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Ainda que precise de deixar as ideologias políticas de parte para se tornar ainda mais verosímil, Jordan Peele torna Us numa obra muito mais densa e de um poder dramático especial, onde Lupita Nyong’o é uma musa e conduz uma história com uma força performativa maravilhosa. Sem querer denunciar muito da história, nem cair na tentação de fazer uma abordagem social, deixo-vos apenas esta breve síntese.

Portanto, se pretendem ir ao cinema nestes próximos dias, não deixem passar Us ao lado. Sentem-se na sala de cinema e desfrutem.

Título: Nós

Título Original: Us

Realização: Jordan Peele

Elenco: Lupita Nyong’o, Winston Duke, Elisabeth Moss, Tim Heidecker, Shahadi Wright Joseph, Evan Alex.

Duração: 116 min.

Trailer | Us

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