Cinema Críticas

Crítica: Mandy (2018)

Mandy Crítica de Cinema

Vivemos na era da futilidade do cinema. Ele é produzido em massa e para massas, deixando de parte frequentemente o aspeto que o define como arte. Os filmes são produzidos de forma a lucrarem elevados valores no box office e a qualidade cai num precipício quase sem fim. Mesmo nas cerimónias de prémios, o cinema começou a ser popularizado com o elemento “pipoca” a sobressair acima da qualidade que o público merece (sim, estamos a falar de vocês, Black Panther e Bohemian Rhapsody!).

No meio deste frenesim de produções gigantescas surge um humilde underdog de nome Mandy que ainda suscita alguma esperança no cinema de autor e que, embora com alguns defeitos, não deixa de ser uma obra curiosa e palpitante, que nos remonta a clássicos vigorosos quando o cinema primava pela sua estética e mensagem.

Mandy Crítica de Cinema

Mandy é um filme simples em termos narrativos. Um casal vive numa floresta como se se tratasse de um par saído de um conto de fadas e, assim que um grupo de hippies com aspirações religiosas dúbias, os encontra, logo os tenta separar, sequestrando e assassinando a protagonista que dá título ao filme. Nisto, o seu marido (um Nicolas Cage renascido das cinzas) entra uma sede de vingança, fazendo justiça pelas próprias mãos pela sua esposa.

Mandy conjuga diversos elementos artísticos que funcionam lindamente para expor a sua narrativa. O jogo de cores, a mudança de tom gradual (que vai ficando cada vez mais agressivo até ao final), a capitulação da história como se se tratasse de uma fábula e a forte ligação com a natureza, fazem com que o filme se destaque e se defina como um produto que procura incessantemente marcar pela diferença. É neste esforço que a realização de Panos Cosmatos encaixa na perfeição, trabalhando a imagem sem recurso às novas tecnologias, e desvalorizando os diálogos clichés para que o espectador tenha uma experiência visual mágica e diferente do que até agora foi criado.

Mandy Crítica de Cinema

A fotografia e a banda sonora de Johánn Jóhannsson salpicam a tela de Cosmatos, como um pincel fora de controlo e que dá uma sensação desconfortável que se torna ainda mais credível e pertinente ao longo do filme. Mandy tem uma mensagem clara: que nunca conseguimos controlar os nossos impulsos, nem os nossos estados de espírito. Somos demasiado racionais ao tentarmos controlar a nossa natureza, mas ela é, de facto, incontrolável. Há momentos ao longo do filme que provam precisamente que o ser humano está limitado a um pensamento obsessivo de tentar elevar-se ao divino, mas dentro da perfeição divina, esconde-se um impulso animalesco de se tentar proteger. O ser humano usa a sua racionalidade para se sobrevalorizar como espécie, perseguindo uma ascensão astral e um estatuto de adoração megalómano, e esquece-se com frequência das suas origens. Mas, como todas as espécies animais, o ser humano também é capaz de ser irracional. Quando nos sentimos encurralados, fazemos de tudo para escapar dessa situação. É o nosso instinto. Irracional.

Mandy joga com esta dualidade e o resultado é uma tela pintada com muitas referências às artes (sejam elas visuais ou plásticas) que se define como algo bonito, simples e com muita garra para se tornar um objeto de culto. Ainda que a linearidade da história por vezes não consiga dar um tom mais sólido ao filme, Mandy é aquela película em que o “desligar do cérebro” assenta na perfeição quando somos levados pelo trabalho de imagem de Panos Cosmatos. É também de realçar que Nicolas Cage regressa ao grande ecrã com matéria muito carismática para trazer a sua carreira para a ribalta novamente: poucas falas e muita expressividade.

Mandy Crítica de Cinema

Mesmo que o filme não consiga “ascender” totalmente ao estatuto que pretende, é neste esforço que Panos Cosmatos merece um forte aplauso. Precisamente por ainda ver o cinema como objeto artístico e pessoal e não para agradar a massas.

Mandy é, portanto, um filme a não perder, com uma história simples e bizarra, mas com uma forte índole artística, poucos diálogos e muito sangue a jorrar por todos os lados. Já para não falar no extraordinário trabalho de maquilhagem que nos remete para os tempos em que Hellraiser habitava os nossos mais negros pesadelos. Sendo assim, é importante para o espectador que veja Mandy como um produto de entretenimento que, em vez de impressionar com grandes efeitos, faz pouco com os mais simples feitos. (Fui poético, eu sei! Obrigado!)

Leiam outras Críticas aqui.

Título: Mandy

Título Original: Mandy

Realização: Panos Cosmatos

Elenco: Nicolas Cage, Andrea Riseborough, Linus Roache, Ned Dennehy, Olwen Fouéré, Richard Brake, Bill Duke.

Duração: 121 min.

Trailer | Mandy

Comments