Cinema Críticas

Crítica: Amores Perros (2000)

Amores Perros

 Alejandro G. Iñárritu tem o dom de captar a humanidade na sua forma mais pura e emotiva, como podemos verificar em, por exemplo, 21 Grams e Babel. Leva muitas vezes as suas personagens ao limite psicológico, emocional ou físico, o que torna as suas obras reais e cruas.

Amores Perros  conta as 3 histórias de indivíduos diferentes, na Cidade do México, que se unem por um acidente de carro. A primeira parte do filme centra-se em Octavio, que tenta ganhar dinheiro suficiente através de lutas de cães para fugir com a esposa do seu irmão; a segunda parte, numa narrativa, na minha opinião, um pouco mais deslocada do tema do filme, segue uma modelo e o drama na sua relação, após o dito acidente de carro; por fim, a terceira parte apresenta-nos o indivíduo que mais sobressai, um antigo guerrilheiro e actual hitman, que agora é sem-abrigo e vagueia pelas ruas com a sua matilha, com esperanças de se reunir com a sua filha.

Amores Perros

Amores Perros exige a nossa atenção, prende-nos com o drama que vai desenrolando e com a forma como as personagens se relacionam com as pessoas (e os cães). É violento e bastante gráfico, especialmente nas cenas de lutas entre cães (o que valeu a Amores Perros uma má fama da parte de muitos críticos). Gael García Bernal prova o seu talento, mais uma vez, na pele de Octavio; uma personagem por quem temos compaixão, pois procura um recomeço longe da sua realidade marcada pela violência. O elenco é fenomenal, destacando-se também Emilio Echevarría como El Chivo, o sem-abrigo. Echevarría dá uma poderosa performance e parece ser um ponto fulcral da história. El Chivo era um professor, com família, que um dia se torna guerrilheiro, mais tarde é preso e paga pelos seus crimes com 20 anos na cadeia. É marcado pela pobreza e solidão; no entanto, a preocupação pelos seus cães diz-nos que é uma pessoa atormentada por ter deixado a sua filha para trás. Tanto El Chivo como Octavio são 2 das personagens mais densas e complexas.

Regularmente lemos e ouvimos sobre outras realidades que não a nossa, carentes, violentas, e, embora tenhamos noção dessas mesmas realidades, não parecem atingir-nos na sua totalidade. São esquecidas pela grande distância que nos separa e pela ainda maior discrepância de situações financeiras e sociais. Amores Perros mostra-nos uma Cidade do México ocupada pelo crime, pelas lutas de cães, pela dificuldade; uma Cidade do México não diferente da real, difícil de ver. Como alguém me disse recentemente, não devemos ter medo de ver realidades só por nos serem estranhas e difíceis de ver.

Amores Perros, e as suas trágicas personagens, mostram que a vida e o amor podem-nos tratar “abaixo de cão”. Octavio assemelha-se ao seu cão Cofi, pelo meio violento em que se insere e como isso o molda. Valeria (Goya Toledo), tal como o seu cão preso debaixo do soalho, sente-se “presa” na sua relação, que vai decaindo com o stress pós-acidente. El Chivo encontra esperança após perder tudo, e é a única personagem que se redime e ganha uma oportunidade de recomeçar.

Amores Perros

Amores Perros conta com uma soundtrack fantástica, da autoria de Gustavo Santaolallaque acentua o estado psicológico de cada indivíduo, juntamente com o meio que os rodeia.

A cinematografia e a edição de Amores Perros é sublime, contrastando os diferentes dilemas e obstáculos com que as personagens se deparam, unindo-as no entanto no sentimento de desespero comum.

Por fim, podemos comparar a condição humana com a dos cães. Pelo fim do filme, o cão Cofi torna-se violento com todos os outros cães pela maneira como foi educado, e consequentemente não vê mal nas suas acções. Poderemos justificar as más acções de personagens como Octavio, Ramiro (Marco Pérez), El Chivo e Daniel (Álvaro Guerrero) como influências do meio social e da realidade onde vivem? Quem, afinal, merece redenção?

Amores Perros é gráfico e bem real, e tem os seus defeitos – como já referi, o tema do filme perde-se um pouco na segunda parte, e os maus-tratos (fictícios, claro) aos cães dão vontade de olhar para o lado e passar a cena à frente – no entanto, explora lindamente a perda, a frustração, o amor, a violência, e a trágica conclusão de que a vida não é justa. Um belíssimo trabalho de IñárrituGuillermo Arriaga, o argumentista.

Título: Amor Cão
Título Original: Amores Perros
Realizado por:  Alejandro G. Iñárritu
Elenco:  Emilio EchevarríaGael García BernalGoya Toledo
Duração: 154 minutos

Trailer – Amores Perros

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