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Russian Doll – Season Finale – 1ª Temporada

Russian Doll season finale

PODE CONTER SPOILERS DE RUSSIAN DOLL!!!

Vou-vos ser bastante franco: até sexta-feira passada, Russian Doll não era uma série que me interessasse ver ou elaborar uma crítica sobre. Pouco ou nada do enredo principal se sabia além da brevíssima sinopse que a Netflix disponibilizou, um punhado de imagens que circularam na Internet durante uns tempos e apenas um trailer para nos aguçar o interessante. Ou seja, esta série – que foi criada por Leslye Headland (que escreveu o filme Sleeping with Other People), Natasha Lyonne (a Nicky Nichols de Orange Is the New Black) e Amy Poehler (conhecida por ter protagonizado a série Parks and Recreation) era um verdadeiro puzzle para decifrar. Ou, neste caso, uma matrioska com várias camadas por explorar. Oito episódios depois, pode-se dizer que esta é uma das melhores séries do ano (e considerando que ainda só vamos mesmo no início já diz muita coisa)!

A série acompanha Nadia (Lyonne), uma mulher que, no dia do seu 36º aniversário, morre ao ser atropela por um táxi. No entanto, Nadia vê-se a reviver a mesma noite e a morrer vezes sem conta, sem saber o porquê de estar presa neste loop temporal ou se mais alguém sabe o que ela está a passar.

Russian Doll season finale

O MELHOR:

Russian Doll é muito mais do que “Groundhog Day mais macabro”.

Quando estamos a falar de filmes ou séries que utilizam os time loops como plot device, seria inevitável que houvessem comparações em vários cantos. Ao vermos Russian Doll, é impossível não vermos algumas comparações com outros filmes como o supramencionado Groundhog Day ou Happy Death Day.

Apesar de partilhar alguns conceitos com esse tipo de filmes ou produtos, Russian Doll vai muito mais além da sua narrativa simplificada. Através das mentes de LyonneHeadland e Poehler, o que poderia ter sido uma glorificação das várias maneiras diferente de se morrer só na cidade de Nova Iorque (e acreditem, existem várias na série, umas mais bizarras que outras) transforma-se num character study de proporções raras, analisando várias questões filosóficas ao longo do seu trajeto, tais como o sentido da vida, a moralidade que separa as boas pessoas das más, o que significa ajudar o próximo de forma a ajudar-nos a nós próprios, entre outros temas diferentes. Há que mencionar, também, que a série, apesar de viver destes time loops, acaba por exibir algumas dicas visuais de que nem tudo aparenta ser bom durante as repetições, convidando o espectador a redobrar as suas atenções nos mais ínfimos dos pormenores.

Num espaço de oito episódios (cada um com uma duração, em média, de 30 minutos), Russian Doll não se restringe apenas no campo de comédia, aventurando-se por territórios mais pesados na segunda parte da temporada. É nessa parte que a série toma uma postura mais séria do que o habitual, com Nadia a enfrentar os seus próprios problemas e traumas do passada para não só sair deste time loop, mas acabar por sair desta experiência como uma mulher mais forte do que antes.

E é claro que isto não seria possível se, além de uma escrita hábil e interessante, não tivéssemos uma lide à altura. E Natasha Lyonne é uma verdadeira matrioska na série. De um momento, podemos até rir bem alto graças às suas atitudes ou das maneiras mais tresloucadas como esta morre (SPOILER: quem morre assim tantas vezes a descer umas simples escadas), como logo de seguida examinamos de perto os seus traumas que definiram a sua personagem desde a sua tenra idade até ao seu 36º aniversário. Se a atriz já era um dos destaques em Orange is the New Black, então aqui ela possui uma performances multi-facetada, digna de, NO MÍNIMO, uma nomeação para os prémios relacionados com a indústria televisiva.

Russian Doll season finale

E quando se pensava que Russian Doll poderia cair na estagnação após tanta lição de vida e morte para depois reverter ao estado normal, eis que a narrativa nos apresenta Alan (Charlie Barnett), um jovem que, além de estar a passar pelo pior dia da sua vida, também se encontra preso na mesma situação que Nadia. A sua presença acaba por servir de contraste com a viagem da ruiva nova-iorquina; enquanto Nadia tenta passar pelos seus traumas de infância, Alan lida com os seus demónios interiores, que incluem depressão, comportamentos obsessivos-compulsivos e baixa auto-estima. Tanto Nadia como Alan têm as suas falhas como seres humanos, mas é mesmo isso que Russian Doll se predispõe a mostrar durante esta primeira temporada: não existem seres humanos perfeitos e é nas nossas falhas que encontramos a verdadeira beleza.

A série está povoado de “extras” que vão variando entre termos como “snobe” ou “nojento” ou “maluco”, entre tantos outros. E é por isso que esta versão de Nova Iorque acaba por ser um “personagem” fulcral em vez de um mero espaço cénico.

Russian Doll season finale

O PIOR:

Russian Doll é curta, mas perfeita na sua execução.

É praticamente impossível encontrar defeitos para apontar à série. Sim, pode ter sido demasiado curta para uma série de oito episódios, enquanto as concorrentes investem forte e feio em 10 com uma duração mais alargada. No entanto, Russian Doll cumpre com o seu objetivo: além de nos conseguir entreter com uma narrativa que vai direta ao assunto (e até tornam conceitos temporais complexos em matéria de melhor compreensão) e performances complexas, dá-nos também bastante que pensar nos seus temas complexos.

Russian Doll teve direito a uma conclusão digna de um filme definitivo, com um princípio, um meio e um fim (se bem que este final é demasiado surreal e subjetivo para ser analisado a fundo, por isso podem tirar as vossas próprias conclusões), deixando bem claro que poderá não haver espaço para mais histórias para contar. No entanto, numa entrevista à IndieWire, Lyonne Headland comentaram que ainda haviam algumas camadas nesta série-matrioska por explorar a fundo. Não sou apologista de uma renovação de uma série quando se tem um final conclusivo; no entanto, se o trio Headland-Lyonne-Poehler encontrar uma maneira plausível de regressar a esta série, melhor ainda.

Podem ler outras Mini-Reviews aqui.

Estado da série: STAND-BY

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88%
Average Rating

Russian Doll é uma daquelas séries surreais que merece ser visto e revisto mais do que uma vez, não só para tirarmos melhores conclusões ao que vimos, mas também para apreciar a escrita inteligente e uma performance de mérito de Natasha Lyonne.

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