Cinema Críticas

Crítica: Girl, Interrupted (1999)

Nos anos 60, uma jovem chamada Susanna Kaysen internou-se num hospital psiquiátrico com intuito de melhorar o seu estado de saúde. Durante quase 2 anos, Susanna foi compreendendo cada vez mais o seu problema, ao mesmo tempo que foi travando conhecimento com o pessoal do hospital como enfermeiras, psicólogos e algumas das utentes. Durante este período de tempo, Susanna foi colocando as suas experiências, os seus pensamentos, num bloco de notas. Após ter obtido a sua alta, esse mesmo bloco de notas viria a ser convertido num livro de memórias titulado Girl, Interrupted, publicado em 1993. Seis anos depois, James Mangold – atualmente conhecido pela realização de filmes como LoganWalk the Line ou o já aqui criticado Identity (que, aliás, podem conferir aqui) aventurou-se com esta adaptação cinematográfica. E francamente, saiu a ganhar!

Girl, Interrupted Crítica de Cinema

O grande ecrã é um dos meios prediletos para contar os vários tipos de histórias à nossa disposição e alguns dos temas mais importantes da sociedade à nossa volta. No entanto, isso não significa que existem temas que sejam facilmente transmitidos do papel para o ecrã. E o tema da saúde mental é uma delas. Nas mãos de uma pessoa qualquer, esta temática daria origem a um filme básico sobre uma rapariga a fazer tudo por tudo para tentar melhorar e ficar-se por aí.

Nas mãos de James Mangold, vamos muito mais além do uma simples história de recuperação. A saúde mental é um tema que, ainda hoje, dá azo para um sem número de controvérsias e de melhor compreensão, o que nem sempre é cumprido com sucesso. Girl, Interrupted é, muito provavelmente, uma dessas exceções à regra. Mais do que mostrar as várias doentes como “doentes”, a escrita original de Kaysen, acoplada com as técnicas de Mangold, procuram humanizar estas pessoas muito além das suas respetivas doenças. Depressão, esquizofrenia, mentira compulsiva, comportamentos obsessivo-compulsivos, sociopatia… A versão cinematográfica do livro de memórias concede personalidades bem assentes em vez de optar pelos estereótipos e clichés que tanta vez encontramos no meio.

Girl, Interrupted Crítica de Cinema

Além de uma escrita exemplar, de uma banda sonora calma e, ao mesmo tempo, tenebrosa pelas mãos de Mychael Danna e uma fotografia única (graças aos esforços de Jack N. Green), Girl, Interrupted conta com um elenco que conta com nomes atualmente muito bem conceituados na indústria. Winona Ryder serve como a nossa protagonista, mas não mostra muito sentimento. E por incrível que possa parecer dizer isto, mostrar apatia, interpretar uma personagem que, fundo do fundo, não consegue sentir nada (um dos sintomas da depressão) representa um maior desafio para qualquer ator. E durante o curso de mais de 2 horas de filme, a atriz apresenta um crescimento bem patente, começando como uma jovem adulta com tendências suicidas até se tornar numa mulher com um desejo de viver, de fazer parte da sociedade à sua volta, apesar das suas falhas. A ela juntam-se atrizes como a falecida Brittany MurphyElisabeth MossJared LetoWhoopi Goldberg, entre outros nomes bem conhecidos (inclusive um que, infelizmente, já viu melhores dias atualmente).

No entanto, existe uma razão para dedicar este parágrafo à scene stealer do filme: Angelina Jolie. A atriz pode ter alcançado a fama por ter sido a primeira encarnação live-action de Lara Croft (a protagonista dos jogos da marca Tomb Raider), mas aqui tem uma performance difícil de descrever. Por momentos, a sua Lisa mostra uma personalidade deveras magnética, atraindo as outras pacientes à sua volta para os seus planos. Noutros momentos, apresenta uma espécie de veneno em que diz todas as verdades que, de acordo com a mesma, devem ser ditas, mas que ninguém se atreve a dizer, sem qualquer discernimento do bem-estar de quem é alvo das suas palavras acutilantes. E sem falar naqueles momentos em que a sua presença também consegue ser bastante doentia, ou mesmo a mostrar um lado mais frágil. Jolie atravessa um mar de emoções distintas, juntamente com transformações físicas chocantes, mostrando que, além de um verdadeiro camaleão fêmea, a atriz está mais do que disposta a arriscar a sua presença física para nos transmitir a sua transformação gradual. Não é à toa que, devido à sua performance, a atriz tenha recebido o seu primeiro – e até agora único – Óscar da Academia na categoria de Melhor Atriz Secundária!

Em resumo, Girl, Interrupted é um dos filmes que não é de visualização fácil, seja pelos temas sensíveis relacionados com a saúde mental que se compromete a abordar, seja pelas performances dos seus atores – que neste caso em particular é dominado pelas mulheres – ou pelas palavras aqui transmitidas ou pelos vários momentos chocantes aqui apresentados. Não é fácil de se ver, mas é um dos filmes obrigatórios que todos deveriam ver, pelo menos, uma vez na vida. James Mangold demonstrou, há 20 anos atrás, que o seu nome é sinónimo de “qualidade”. E podemos ver isso neste filme.

Nome: Vida Interrompida
Título Original: Girl, Interrupted
Realização: James Mangold
Elenco: Winona RyderAngelina JolieClea DuVallBrittany MurphyElisabeth MossJared LetoVanessa RedgraveWhoopi Goldberg
Duração: 
127 minutos

Trailer | Girl, Interrupted

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