Cinema Críticas

Crítica: Glass (2018)

Glass Crítica de Cinema

CONTÉM SPOILERS DE GLASS!

M. Night Shyamalan regressa à realização com o filme que encerra a sua trilogia de tentativa de ingressar no cinema de ação com fortes raízes nas bandas-desenhadas. Glass, cuja personagem nos foi apresentada em Unbreakable, recupera Bruce Willis e Samuel L. Jackson do filme-mãe e junta-lhes James McAvoy de Split. A premissa assenta nestes indivíduos com capacidades aparentemente sobrenaturais, onde são capturados por uma misteriosa cientista (sempre bom ver a senhora Sarah Paulson no cinema) e que testa a veracidade dos seus poderes.

Glass Crítica de Cinema

Antes de mais, quem for ver Glass sem nunca ter visto Unbreakable e Split está a cometer um grave erro. É importante que o espectador tenha conhecimento das origens que deram à luz estas personagens carismáticas e perceber de que forma Shyamalan as juntou para este novo capítulo. Unbreakable conta a história de David Dunn, um homem com uma força indestrutível (daí o título do filme) e que se apercebe desta sua capacidade transumana após um estranho acidente de comboio. Acidente este que foi despoletado pelo sobredotado Mr. Glass (um Samuel L. Jackson intrigante e intenso) que, como antagonista, é a pessoa fisicamente mais frágil do planeta. Tal como o seu nome indica, Glass tem uma rara doença que consiste numa estrutura óssea pouco resistente e facilmente quebrável. Dezasseis anos depois, Shyamalan cria uma relação entre um dos seus primeiros filmes com Split, onde vemos um James McAvoy extraordinário, cuja personagem tem 24 personalidades distintas a habitar dentro de si. Em Split, este sobre-humano rapta várias raparigas e mantém-nas como reféns, forçando-as a encarar The Beast (o seu heterónimo mais violento e animalesco).

Unbreakable definiu-se como um clássico invulgar, numa altura em que Shyamalan se aventurava em diferentes géneros, procurando uma carreira versátil e diversificada. Depois de uma estreia incrivelmente talentosa com The Sixth Sense, o realizador indiano procurou destacar-se dentro do cinema fantástico, utilizando elementos sobrenaturais num contexto humano de forma simples, mas sempre com um twist grandioso e justificável. Sou um fã inquestionável de The Village, um que considero ser um dos seus trabalhos mais audaciosos e, ainda que de forma mais moderada, também me tornei um apoiante de Signs e até de Lady in the Water. No entanto, Shyamalan foi ambicioso demais e a sua carreira entrou numa fase perigosa, assim que quis enveredar pela viela dos blockbusters. Os filmes do realizador entraram numa decadência abrupta, provando que a arte pode ter fases boas e fases muito negras.

Glass Crítica de Cinema

Glass é provavelmente o pior filme de Shyamalan. E há motivos pertinentes para o assumir. Apesar de um espantoso James McAvoy (ele consegue salvar o filme em praticamente todas as cenas em que surge) e da nostalgia instantânea de vermos o reencontro de Bruce Willis e Samuel L. Jackson, a película age como um objeto pretensioso que nunca encontra o seu lugar. O filme é demasiado longo, perde-se completamente no ponto que pretende transmitir e, pior do que isso, utiliza mecanismos argumentativos fúteis, pouco credíveis e (peço desculpa desde já pelas duras palavras) extremamente ofensivos. Os SPOILERS vão abundar um pouco nesta zona, portanto, fica ao critério do leitor se desejar prosseguir. Assim que são capturados pela personagem de Paulson, os três homens com capacidades sobre-humanas são colocados a teste, forçados a encarar uma dura realidade: os super-heróis não existem e os poderes são apenas uma ilusão – como se isto se tratasse de uma doença mental e fosse curada com uma mera terapia. Mas, ainda que possa não haver nada de muito grave neste conceito, o pior chega quando os diálogos apontam que as bandas-desenhadas estão na origem desta “psicose”, como se os intervenientes tivessem criado as suas próprias fantasias através de memórias traumáticas passadas. Quase que Shyamalan nos diz que não devemos ler bandas-desenhadas porque isso pode ser prejudicial para a nossa sanidade… É difícil esconder o descontentamento perante algo tanto atroz como isto.

Glass Crítica de Cinema

Outro aspeto terrível de Glass é precisamente a montagem. Há demasiados momentos desnecessários ao longo das duas horas e tal de filme e que são colocados para preencher tempo, interrompendo constantemente o fluxo da história. Sente-se que Shyamalan quer prolongar a sua despedida destas personagens e acaba por se atrapalhar, levando a que a imersão do espectador desvaneça rapidamente. Um caso ilustrativo disto é o dos momentos de Mr. Glass a fingir que estava sedado em quase metade do filme, cenas curtas e que não têm qualquer relevância.  É precisamente na ânsia do realizador de querer entrelaçar histórias isoladas e perder a noção de equilíbrio que conduz Glass à sua ruína. É baço, pouco envolvente e dispensável.

Apesar de alguma sequência engraçada aqui e acolá, o grande “rei da festa” é McAvoy que, mesmo estando competente em Split, aqui brilha com outra intensidade. É ele que domina o filme, gesticulando sublimemente todos os seus alter egos e criando todo o efeito dramático da película. É, sem dúvida, uma personagem que irá marcar a carreira do ator, ainda que os filmes não consigam acompanhar o seu enorme talento. O final é também uma “chapada de luva branca”… O filme vai gradualmente desenvolvendo a sua narrativa e autodestrói-a quando nos “empanturra” de twists que descredibilizam todo o enredo que foi construído até ao momento. As personagens secundárias carecem também de dimensão dramática, sendo apenas utilizadas como artifícios para enaltecer o trio protagonista. Já para não falar que Shyamalan tem muita dificuldade em encontrar o final certo a dar e o resultado é absolutamente desastroso. Sentimos que o filme nunca mais termina… é mais que explícito que Shyamalan tem a intenção de surpreender e então insiste em fazer reviravolta atrás de reviravolta para criar um impacto significativo… mas, de todo, ser bem-sucedido.

Glass Crítica de Cinema

O pretensiosismo é um veneno mortífero na arte. É algo que pode manchar seriamente a carreira de um cineasta, especialmente quando se infiltra na noção de equilíbrio e, acima de tudo, na veia criativa. Se Glass tivesse menos duração e empatasse menos o seu desenlace talvez tivesse conquistado e talvez não se assumisse como um produto presunçoso e soasse como uma tentativa desesperada de voltar à ribalta recuperando algo que nunca foi idealizado inicialmente. Se gostaram de Unbreakable e de Split e tiverem mesmo curiosidade, preparem-se para duas horas e pouco de James McAvoy porque, de resto, Glass é esquecível e abominável.

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Título: Glass

Título Original: Glass

Realização: M. Night Shyamalan

Elenco: Bruce Willis, James McAvoy, Samuel L. Jackson, Sarah Paulson, Anya Taylor-Joy, Spencer Treat Clark.

Duração: 129 min.

Trailer | Glass

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