Cinema Críticas

Crítica: The Rider (2017)

O cinema é uma arte contemplativa. Pode assumir diversas formas complexas ou pode ambicionar ser meramente simples. A simplicidade por vezes traduz-se em humildade e em naturalidade. Numa era em que a criatividade está por um fio por terras hollywoodescas, é importante criar produtos que sejam honestos e desprovidos de uma ambição megalómana para as possibilidades que estão disponíveis.

The Rider, a segunda longa metragem da realizadora Chloé Zhao, insere-se precisamente nesta questão. É um western contemporâneo que acompanha Brady, um cowboy dos rodeos que ficou gravemente ferido durante uma das suas atuações, e necessita de encontrar uma nova identidade, subjugando-se às dificuldades que surgiram como consequência da sua lesão.

The Rider Crítica de Cinema

The Rider é um filme genuíno. Um daqueles que não precisa de grandes feitos para ser tocante, ou grandes artifícios técnicos para ser belo. A história de Brady é tão pura que sentimos cada uma das suas emoções perto de nós, como se estivéssemos ao seu lado. O jovem Brady Jandreau lidera a película com uma garra que nos aquece a alma, ao mesmo tempo que nos faz repensar na nossa própria vida.

O ser humano é um aglomerado de sonhos. Não temos de ter escolaridade para os termos. Não precisamos de ambicionar ser mais do que somos para lutarmos por eles. Os sonhos são os comandantes da vida. E Brady vê-se impedido de sonhar. Contra a sua lesão grave, Brady não desiste em ser aquilo que sempre sonhou ser. Tem plena consciência da sua condição, mas não cede à fraqueza do seu corpo. É uma batalha árdua, mas que nos mostra precisamente que dentro das nossas infelicidades, há sempre forma de encontrarmos esperança de conquistarmos aquilo por que sempre sonhamos.

The Rider Crítica de Cinema

É nesta pureza de sentimento que me vejo tão deliciado com The Rider. Chloé Zhao quebra os cânones do western, pondo de lado todos clichés que tanto abundam neste panorama cinematográfico. The Rider é um drama poderoso porque reinventa um género. Torna-o humano, duro, e não precisa de tiroteios em saloons do Velho Oeste. Tira proveito deste cenário já conhecido de todos, e adorna uma história dramática intensa, vivida na primeira pessoa.

A fotografia é simplesmente abismal, a banda sonora salpica subtilmente as sequências mais belas que os nossos olhos vão acompanhando. Mas acima de tudo, The Rider é uma metáfora da condição humana. Brady é um irmão dedicado, um filho determinado (os momentos em que confronta o seu pai são o ponto de viragem na vida da personagem) e é um domador de cavalos encantador e profissional. Confesso que pessoalmente o tratamento dado aos animais neste género de cinema me incomoda, ainda que tenha plena consciência de que o cavalo é um animal doméstico que é parte integrante da história da humanidade e que o treino é duro para ser subjugado à nossa vontade. No entanto, isto faz parte de uma cultura. E esta cultura é retratada com carinho por Zhao, sendo que sentimos um amor instantâneo entre Brady e os seus alunos de quatro patas.

The Rider Crítica de Cinema

As relações que Brady vai estabelecendo ao longo do filme são, todas elas, cruciais para nos criar ainda mais envolvimento com a personagem. É um protagonista cujo carisma reside na simplicidade da sua conduta. Simplicidade esta com que nos identificamos instintivamente. The Rider é um produto independente que existe para provar que um género não precisa de morrer ou de cair constantemente nos mesmos clichés. Não há saloons, nem prostitutas, nem duelos à distância… apenas um cowboy sonhador que precisa de se reencontrar após o seu sonho ter fugido para uma distância que parece inalcançável.

A pureza de The Rider torna-o uma obra astuta, tocando em material sensível e rompendo a fórmula já habitual do western. A não perder.

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Título: The Rider

Título Original: The Rider

Realização: Chloé Zhao

Elenco: Brady Jandreau, Lilly Jandreau, Tim Jandreau.

Duração: 104 min.

Trailer | The Rider

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