Cinema Críticas

Crítica: Leave No Trace (2018)

Há certos filmes que nos tocam. Talvez até seja difícil explicar porquê, outras vezes até pode ser por uma experiência pessoal que se proporcione e nos faça correlacionar com a história, o ambiente e as personagens do próprio filme. A magia da arte é esta e o novo filme de Debra Granik, Leave No Trace, é um destes casos.

Nas verdejantes florestas do estado do Oregon, Estados Unidos, um pai e a sua filha de treze anos sobrevivem no meio da natureza. Têm os seus costumes, as suas rotinas, e longe da civilização moderna, tentam prosperar, até que um pequeno incidente ameaça arruinar o seu modo de vida.

Leave No Trace Crítica de Cinema

As semelhanças são inevitáveis com Captain Fantastic, o filme nomeado para os Óscares com o extraordinário Viggo Mortensen. O conceito, ainda que em menor escala, adapta-se perfeitamente ao estilo de Leave No Trace, fazendo com que a ideia não seja totalmente original. Mas às vezes não é preciso uma história elaborada, ou única, para um filme ser tocante à sua maneira. Vivemos na era dos remakes, dos reboots, de toda uma panóplia de reinvenção do cinema. A reciclagem do mesmo não tem necessariamente que ser má, ou deitarmos a perder apenas porque temos alguns déjà vus relativamente a outros filmes que tenhamos visto. A história de Leave No Trace é básica, pouco desenvolvida, mas é um filme que tem alma. É uma película que é doce, humilde e visualmente encantadora.

Liderado por um Ben Foster magnífico e pela infalível estreante Thomasin McKenzie, Leave No Trace é uma pérola independente que se enraíza em nós e nós sentimos as suas raízes a percorrer-nos o coração à medida que avançamos até ao desfecho. Leave No Trace é uma fábula sobre maturidade. É também um drama acutilante sobre o crescimento e da importância da mudança. Vejo o quanto Will (a personagem de Foster) quer proteger a sua filha do mundo exterior. É impossível não nos identificarmos automaticamente com ele… tal como um animal, Will age por instinto, uma característica que é inerente a qualquer espécie. Ser-se progenitor é sinónimo de proteção. Mas se há algo que a vida nos ensina, é que por muito que tentemos proteger alguém, haverá sempre uma altura em que isso deixa de ser possível. O crescimento assim o dita, e o fluxo natural da vida força-nos a desprender deste instinto protetor.

Leave No Trace Crítica de Cinema

Leave No Trace vive das prestações dos seus atores, mas há uma personagem que sobressai, a cada plano, a cada momento. Esta personagem não é propriamente humana, mas dá uma performance digna de Óscar: o bosque. Os tons de verde pintam a câmara de Granik, sentimos tudo com uma intensidade fora do vulgar… há uma simbiose perfeita entre as personagens humanas e a natureza. Uma junção que é como se se tratasse de uma pintura campestre, levando-nos por toda uma viagem sem precedentes. Sentimos a natureza como se ela fosse parte integral da narrativa, adornando o enredo e tornando o filme em algo puro, com vida própria.

Leave No Trace é, portanto, um filme que se torna mágico precisamente pela simbiose e harmonia perfeitas que auxiliam a história frágil e doce. É nestas circunstâncias que o cinema se torna vivo e acutilante e Leave No Trace é perfeito em transmitir esta mensagem. Granik volta a surpreender e Thomasin McKenzie é soberba em captar a coming of age que  é já uma marca inconfundível no trabalho da realizadora, já que com Jennifer Lawrence, no intenso Winter’s Bone, o cenário foi idêntico.

Leave No Trace Crítica de Cinema

Título: Leave No Trace

Título Original: Leave No Trace

Realização: Debra Granik

Elenco: Ben Foster, Thomasin McKenzie, Dale Dickey, Jeff Kober.

Duração: 109 min.

Trailer | Leave No Trace

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