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Crítica: Bird Box (2018)

Bird Box Crítica de cinema

CONTÉM SPOILERS DE BIRD BOX!

Um estranho evento desencadeia suicídios em massa por todo o mundo. Malorie está prestes a trazer uma nova vida ao mundo, e vê-se forçada a ter de sobreviver ao lado de um grupo de outros indivíduos que, tal como ela, se encontram a lutar pelas suas vidas. Este novo mal ninguém consegue ver e ninguém consegue tocar, mas ele está presente e persegue os seres humanos, levando-os a tirar a sua própria vida. Uns anos mais tarde, um pequeno oásis de esperança emerge e Malorie necessita de enfrentar novos desafios e proteger as duas crianças que necessitam dela para sobreviver.

Bird Box Crítica de cinema

Bird Box é realizado por Susanne Bier, a extraordinária realizadora por trás de The Night Manager. Infelizmente, neste filme, Bier não consegue brilhar e não consegue transmitir a garra que o espectador necessita para ficar incomodado durante duas horas. A montagem e a câmara rápida distraem completamente o nosso foco, para além de que os momentos de tensão carecem de uma banda sonora ritmada que provoque emoções fortes e nos leve a temer por tudo o que acontece.

Este é um filme que rivaliza com o recente A Quiet Place só que adultera o poder do silêncio para o poder da visão. O conceito de Bird Box tinha tudo para dar certo. O elemento do thriller é intrigante, desde o início, e o próprio visual do filme tira proveito de cenários e uma equipa de design de produção competente, mas não consegue desprender-se de um argumento pouco elaborado e de uma história que carece de uma lógica plausível.

Bird Box Crítica de cinema

No entanto, Bird Box possui um elenco fantástico e é onde ganha mais força. Sandra Bullock é uma protagonista talentosa que consegue carregar o filme no tom dramático certo, ao passo que os secundários (em exclusivo Sarah Paulson que, mesmo numa curta aparição, nos delicia) mantêm o filme firme em termos humanos e de desenvolvimento. John Malkovich e Trevante Rhodes recebem os melhores aplausos, adornando a temática com carisma e pujança.

O grande inconveniente de Bird Box é precisamente a construção da narrativa que não nos agarra tanto como era suposto. Sabemos que o que estamos a ver é algo que, desde início, ninguém quer explicar. Em registos diferentes, como é o caso de A Quiet Place, isto até pode funcionar, mas em Bird Box o espectador necessita mesmo de ter a perceção da gravidade apocalíptica daquilo que persegue a espécie humana. Apesar de algumas metáforas agradáveis e alguns desenvolvimentos vibrantes, Bird Box não consegue surpreender tanto como ambiciona.

Há uma clara metáfora do aprisionamento do ser humano. “Tiram-nos a visão, tiram-nos tudo”. As consequências de sermos forçados a não ver o que nos rodeia é motivo de pânico e, talvez, Bird Box conseguiria ser mais eficiente se nos colocasse na posição de também não termos (como espectadores) noção daquilo que nos rodeia, num mundo aberto e de mistérios por descobrir. Ao colocar os intervenientes em situações delicadas faz parte do sumo “pipoca” que a Netflix ultimamente tem incutido nos seus filmes, mas isto não torna as suas obras dignas de um estatuto de referência.

Bird Box Crítica de cinema

Bird Box é mais um desses casos que, apesar da premissa interessante e do elenco magistral, peca por não criar a atmosfera necessária para ficarmos a temer ao virar de cada esquina; peca por não criar a emoção essencial para nos deixar com a lágrima no canto do olho; peca por não se manter consistente do início ao fim e por não explicar ao espectador do que realmente se trata.

Ainda que a direção de fotografia seja sublime e de algumas sequências verdadeiramente intensas, Bird Box é esquecível e um entretenimento fácil para quem, de facto, não tiver melhor que ver nestes fins-de-semana chuvosos.

Susanne Bier compromete a sua realização em prol de um filme direcionado para massas, estando constantemente a saltitar com a câmara sem criar o impacto fulcral para nos sentirmos verdadeiramente envolvidos naquilo que os nossos olhos acompanham. Falta criar aquela sensação de claustrofobia, por não vermos o terror que tantas vezes persegue os protagonistas, falta criar o impacto emocional no argumento para que nos capture com garra e nos desafie.

Portanto, mesmo com alguns aspetos positivos, Bird Box falha redondamente em ser aquele tipo de cinema versátil que ambiciona desde o início se tornar.

Título: Às Cegas

Título Original: Bird Box

Realização: Susanne Bier

Elenco: Sandra Bullock, Sarah Paulson, John Malkovich, Trevante Rhodes, Jacki Weaver, Rosa Salazar, Danielle Macdonald, Lil Rel Howery, Tom Hollander, Machine Gun Kelly, BD Wong.

Duração: 124 min.

Trailer | Bird Box

 

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