Cinema Críticas

Crítica: Donnie Darko (2001)

Richard Kelly é um desses jovens diretores e roteiristas que tem que começar a emprestar alguns dos seus alunos. Herdeiro do Lynch de Mulholland Dr., primo do Nolan de Memento e Insomnia, vizinho de Aronofsky de Requiem for a Dream, caçador de melodias como Coppola. Mas, apesar de todo o seu parentesco, tem o seu próprio estilo que vale a pena contemplar em ação.

Donnie Darko (Jake Gyllenhaal) é um adolescente americano. Uma noite, um motor de avião cai do céu sobre o seu quarto. Por sorte, ele saiu de casa ao seguir um sombrio coelho chamado Frank, com quem teve uma conversa em que anunciou o fim do mundo. A partir desse momento, a narração torna-se numa contagem regressiva até ao dia da extinção.

Assim, a presença da morte simbólica anunciada por personagem tão rebuscada, vai estimular Donnie a saltar para o mundo – que nunca sabemos se é verdadeiro, porque tudo é tão plausível quanto extravagante – em busca de uma resposta para a alteração crónica que para ele é a vida.

Conversas com o psiquiatra, discussões com a família, a descoberta do amor, as discussões psicotrópicas sobre a reprodução dos Smurfs, o progressivo turpor diante de grandma death, cuja vida centenária ganha significado à luz das conversas com o professor de física sobre viagens pelo tempo, as suas andanças meio sonânbulas, as táticas de sabotagem que removem máscaras a uma sociedade podre por um moralismo que tenta ocultar o seu esgoto infetado… Tudo vai acontecer como um cruzamento entre Voyage au bout de la nuit de Céline, e A morte de Virgílio, de Broch. Um Ulisses pós-moderno, que não sabe o que procura, vai encontrar algo insuspeito que só pode ser entendido quando se vive (não está claro que seja suficiente testemunhá-lo).

Todo o filme é narrado por “alguém” que não distingue a realidade e delírio, com a qual o espectador não tem descanso, já que a vida quotidiana que envolve um rapaz do ensino médio envolve uma malícia e tremores incalculáveis.

O diretor obtém, a meu ver, uma história interessante e pensativa que não se deixa levar pela interpretação (de onde veio o motor, pelo amor de Deus?), mas que explica muito bem, especialmente para a geração recente, que relação tem o tempo com a alteridade. Como diz Levinas, em Le Temps et l’autre:

“O tempo não se refere a um sujeito isolado e solitário, mas sim ao próprio relacionamento dele com os outros”

Ou seja, quando a realidade e as pessoas ao nosso redor são-nos apresentadas, na sua fantasmagoria, como suscetíveis de serem confundidas com uma ilusão subjetiva, com uma alucinação, é lógico que a nossa percepção do tempo seja alterada. Nesse sentido, Donnie não perde a oportunidade de encontrar o significado do seu tempo.

É um filme absolutamente recomendável para quem quer exercitar a sua inteligência ao entender a mente de um alucinado. Além deste último, Richard Kelly é também um visionário.

Donnie Darko é uma proposta original que mistura a crítica social do cinema independente americano com os ambientes de sonho e o humor negro do cinema de David Lynch. Assume a estreia com o diretor Richard Kelly, autor do roteiro, e inspirado na peça The Destructors de Graham Greene, e cuja originalidade seduziu a atriz Drew Barrymore, que ajudou a levar adiante o projeto, trabalhando como produtora e intervindo num papel pequeno. Ao lado, destaca-se a presença secundária de ilustres veteranos como Katharine Ross, Mary McDonnell e Patrick Swayze. O filme foi apresentado na edição de 2001 do prestigioso festival de cinema independente Sundance.

Título original: Donnie Darko

Título: Donnie Darko

Realizado por: Richard Kelly

Elenco: Jake Gyllenhaal, Jena Malone, Mary McDonnell

Duração: 113 min.

Trailer | Donnie Darko

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