Cinema fora de série Rubricas

Felicidade também rima com enfermidade

Anne-Dauphine Julliand diz que, se há algo universal, é a infância. É o que todos nós éramos, em algum momento mais ou menos distante. É o que muitos esquecem em alguma calha perdida no caminho para a racionalidade (seja qual for o meio de racionalidade). E é o que alguns, não sei se poucos ou muitos, resistem a perder, esquecer, superar. Com unhas e dentes.

Todos começamos como crianças, o que significa que todos conhecemos em primeira mão o valor do presente, da amizade compartilhada, do jogo, do descuido, da sinceridade sem filtros. O valor de TEMPO.

“Tolo é o homem, pois ele permite que o tempo escape, sendo irreparável”, escreveu-nos Seneca.

Não sei se por “homem” o filósofo de Córdoba se referiu ao ser humano no geral, mas gostaria de pensar que ele estava a diferenciar entre “homem” e “criança”. Porque é precisamente a criança que não permite que o seu tempo escape. Conhece o seu valor e aproveita cada momento; a caminho, é claro, mas a todo momento.

É exatamente isso que as crianças de Et les Mistrals Gagnants, o filme/documentário de Anne-Dauphine Julliand fazem. Aproveitam cada momento da sua vida, mesmo que nem sempre sejam fáceis e que sejam condenadas com antecedência para serem breves. Ou precisamente por causa disso. Ambre, Camille, Charles, Imad e Tugdual sofrem de doenças – grandes, raras, terminais – que, no entanto, não as impedem de levar uma vida “normal” (e normal é um ditado, porque são extraordinariamente fortes e vivas).

Brincam, discutem, riem, contam piadas, dançam, trocam confidências, fazem amigos … e sentem falta deles quando saem. Apesar de ter aquelas placas com nomes aterrorizantes como “hipertensão arterial pulmonar”, “epidermólise bolhosa” ou “neuroblastoma tumoral”, apesar de ter um hospital como domicílio, apesar das doze horas de diálise, ou quimioterapia, apesar dos momentos de recessão, de tantas perguntas não respondidas, do choro e da impotência que às vezes aparecem sem aviso, apesar da dor excrucitante, estar doente não os impede de serem felizes.

Isso não os impede de aproveitarem as suas vidas. De amizade. De família. De amor.

“O amor é mais forte que a morte”, recita Camille no seu ensaio teatral.

De hoje e agora. Isso é realmente a vida.

“É o que é”, assumem as crianças.

“Jogue ao vivo com ele”, dizem eles.

Mas eles não dizem isso com resignação, nem com tristeza, nem com reprovação. Eles dizem isso… porque é o que existe. E ponto. E a partir daí, a vida. Como qualquer outra criança. De facto, a expressão mais repetida ao longo do filme é “Hakuna matata”. Está tudo dito.

Esta é a grande lição que Anne-Dauphine Julliand nos transmite, com extraordinária sensibilidade, com um olhar sincero e próximo – como uma criança – sem cair no drama fácil. E as razões não teriam faltado, é claro. No dia em que a sua filha Thaïs completou dois anos, os médicos diagnosticaram uma doença genética degenerativa cujo nome oficial é leucodistrofia metacromática.

Não havia cura possível, e a pequena estava condenada a morrer depois de alguns meses ou talvez em poucos anos; e anteriormente ela perderia todas as suas habilidades, tudo o que aprendeu desde que nasceu, apenas dois anos atrás (andar, falar, sentar, ouvir, ver, mover, comer). Uma vez sobreposta ao choro emocional da impotência, da fúria, Anne-Dauphine e o seu marido tomaram uma decisão: lutar.

Anne-Dauphine prometeu a si mesma: “Se eu não puder acrescentar dias à sua vida, posso acrescentar vida aos seus dias, a todos os dias que farão parte de sua curta vida”.

E isso ela fez.

Thaïs morreu com “três anos e três quartos”. E Anne-Dauphine manteve a sua promessa: teve uma vida bonita e feliz, enquanto vivia. Simplesmente, porque a partir daquele dia do seu segundo aniversário, até ao momento da sua morte, nunca lhe faltou amor. Uma história que se repetiu anos depois, ponto por ponto, com a sua filha Azylis. A mesma doença, a mesma luta, a mesma força, o mesmo amor. E a mesma perda.

É por isso que este documentário sabe do fala. Sabe o que conta e quem conta. O importante é que nós, adultos, também assumamos o desafio. O diretor lembra-nos que este filme tem que ser visto com um coração muito aberto. E com a memória bem aberta. Recuperar a criança que éramos, e que ainda somos, embora muitas vezes seja difícil admiti-la, mesmo que, às vezes, até mesmo renegamos.

“O tempo é um ladrão que leva as crianças”. Bem, ver este filme é uma ótima maneira de recuperar o roubado.

E para terminar com outra frase sábia e necessária, que vem muito à mente:

“Ontem é história, amanhã é um mistério, mas hoje é um presente. Por isso é chamado “presente””

Não é Seneca, é do Mestre Shifu. Sim, o do Kung Fu Panda.

Comments