Cinema Críticas

Crítica: Dumbo (1941)

Dumbo foi um dos primeiros clássicos a sair da Disney, e também um dos mais curtos, com um comprimento de apenas 64 minutos, mas não é isso que lhe tira qualidade, pois é o tempo necessário para nos fazer sentir uma infinitude de coisas.

É um filme que me faz sentir alguma revolta sempre que o vejo. Isto porque tenho a certeza que todos nós adoramos o pequenino Dumbo desde o momento em que ele aparece e portanto passar um filme quase inteiro a observar comportamentos injustos e insensíveis dirigidos a ele não é fácil. Queremos entrar no filme e dar áquelas personagens venenosas uma verdadeira razão para chorarem. E logo isto mostra algo muito importante que a Disney consegue não só neste filme como em muitos outros: fazer-nos sentir empatia com as suas personagens. Mas não é só revolta que sentimos ao ver Dumbo, pois o filme é uma autêntica montanha russa de sentimentos: a cena em que o pequeno elefante chora enrolado na tromba da sua mãe, presa ao ser considerada louca por ter defendido o seu bebé de más linguas e troças, consegue fazer chorar a mais dura das pedras da calçada; pouco depois, aparece uma cena alucinante (literalmente) em que elefantes cor de rosa cantam, dançam e se transformam em coisas completamente surreais e que nos consegue perturbar tanto em crianças como em adultos. Por fim, sentimos alegria ao ver Dumbo a sair do abismo onde se encontrava e a alcançar o seu final feliz, voando triunfante pelo circo com as suas orelhas, qual fénix a renascer das cinzas.

A cena mais memóravel do filme é mesmo a dos elefantes cor de rosa. Quando eu era criança, fazia-me imensa impressão ver essa cena, tem um tom creepy, a forma como é cantada, como tudo se transforma, o surrealismo da cena. Quando decidi rever o filme já em adulta, presumi que a cena já não teria esse efeito em mim, mas enganei-me, continua a ser bastante inquietante. Eu acho que o filme conseguia sobreviver sem ela, no sentido em que ela não é essencial para a história – Dumbo e o seu amigo Timothy podiam simplesmente embriagar-se e acordar no ramo da árvore no dia seguinte sem ter de se mostrar necessariamente a parte das alucinações – mas também acho que é uma amostra impecável do que se pode fazer com a animação: a fluidez, a facilidade com que um objecto/ser se transforma noutro, a capacidade de se transpor para um ecrã tudo aquilo que se quiser, sem obedecer a qualquer norma. Surrealismo no seu melhor.

Outra cena marcante de Dumbo é, claro, a cena em que o pequenino visita a mãe enquanto ela está presa. De todas as cenas da Disney, é das que mais mexe com o coração. É tão profundamente triste que eu acho impossível que haja alguém que não se sinta nem um bocadinho tocado por ela, e ainda por cima a música que a acompanha só sublinha ainda mais essa tristeza.

Já disse em várias críticas que uma das coisas que eu mais admiro na Disney é o quanto eles levam a sério o seu trabalho, o quanto se esforçam para que o produto final seja o melhor possível. Em comparação com alguns dos outros filmes da empresa, Dumbo é uma longa-metragem bastante simples, com menor detalhe no que toca, por exemplo, ao design das personagens e aos backgrounds, portanto a nível estético pode não ser tão impressionante quanto as outras criações da Disney, mas o perfeccionismo deu ares de si na mesma: os animadores trouxeram elefantes e outros animais para o estúdio, para poderem estudar devidamente os seus movimentos e transpô-los para o filme.

Dumbo é um clássico no verdadeiro sentido da palavra, e é adequado para miúdos e graúdos, pois consegue mexer connosco em qualquer que seja a idade. E além disso, é um filme que tem uma mensagem muito importante: às vezes aquilo que nos torna diferentes é também aquilo que nos torna fantásticos.

Título Original: Dumbo

Título: Dumbo

Realização: Samuel Armstrong, Norman Ferguson, Wilfred Jackson, Jack Kinney, Bill Roberts, Ben Sharpsteen, John Elliotte

Elenco: Herman Bing, Edward Brophy, Cliff Edwards, Verna Felton, Noreen Gammill, Dorothy Scott, Sarah Selby

Duração: 64 minutos

Trailer | Dumbo

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