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Crítica: The Other Side of the Wind (2018)

The Other Side of the Wind Crítica de Cinema

A vida de um cineasta, ou de um fã de cinema, vai evoluindo conforme vai progredindo para a fase adulta. Numa fase inicial, apreciamos aqueles filmes infantis pela suas cores vibrantes, personagens coloridas, mundos imaginativos, entre outros. Conforme vamos envelhecendo, vamos obtendo novos gostos de género: de repente começamos a demonstrar algum apreço por filmes de ação, drama, terror, westernsci-fi, entre outros géneros. E conforme vamos avançando na vida, acabamos por descobrir novos nomes dentro da indústria. Por vezes, nomes de uma era que não é a nossa, da nossa atualidade. E foi na minha vida já a avançar para a adulta que me cruzei com um certo nome, um nome que, ainda nos dias de hoje, serve como fonte de inspiração para veteranos da indústria ou iniciantes: Orson Welles!

Estamos a falar de um homem de uma mente singular, de uma técnica única ao seu ser, de uma escrita exímia. Não é à toa que, juntamente Herman J. Mankiewicz, tenha recebido um Óscar de Melhor Argumento Original pelo filme Citizen Kane, tido como um dos melhores filmes de todos os tempos. Confesso-vos, então, que nunca tinha visto um filme de ou com Welles na minha recente experiência como crítico do CineAddiction (na melhor das hipóteses, só o “ouvi” como a voz do temível Unicron em The Transformers: The Movie, num dos seus últimos papéis antes da sua morte em 1985). Mas tenho a noção de que, antes da sua morte, Welles deixou um vasto número de filmes por concluir. E um dos títulos que mais suscitou interesse e interrogação por parte dos fãs foi The Other Side of the Wind. E volvidos tantos anos, e graças aos esforços da Netflix e do editor Bob Murawski, o filme está agora disponível para todos verem e poderem apreciar. E também tirarem as suas próprias conclusões.

O filme acompanha o último dia de vida de Jake Hannaford (John Huston), um realizador que, após uma extensão de tempo isolado, regressa com um novo filme, The Other Side of the Wind, um filme arthouse com uma forte componente erótica. Com a produção a enfrentar diversos problemas técnicos (cenas em falta, falhanço em encontrar um financiador para ajudar no orçamento, entre outros), Hannaford exibe uma primeira versão deste projeto misterioso a críticos, fãs, aspirantes a cineastas, amigos, colegas e afins, com o intuito de dar a volta à situação. No entanto, o que começa como um evento normalíssimo (pelo menos, em termos hollywoodescos) acaba por se desmoronar, com a verdadeira faceta de Hannaford a mostrar-se aos poucos.

The Other Side of the Wind Crítica de Cinema

Será que a arte imita a vida, ou a vida imita a arte? Apesar do que se possa pensar inicialmente, estas duas frases possuem claras diferenças de sentido. Portanto, qual das duas será mais aplicável a The Other Side of the Wind? É difícil de dizer como: tal como Hannaford teve problemas em tentar trazer o seu filme ao mundo, também Welles enfrentou sérios problemas aquando da produção deste filme. Certamente não terá sido de propósito, mas, conhecendo a história atribulada do filme e do enredo do mesmo, é impossível não tecer alguns paralelismos entre realidade e ficção. E se calhar este aspeto serve como uma síntese da habilidade de Orson Welles por detrás das câmaras: por mais simples que um enredo que possa parecer (um pequeno aparte: Welles partilha o crédito do guião com Oja Kodar, que também marca presença no filme como uma atriz cujo nome é sempre trocado), existe sempre uma maneira de o complicar ao ponto de se tornar num exercício mental para quem o vê. Decerto que, para tirar melhores conclusões, será preciso ver o filme mais do que uma vez e poder tirar conclusões mais concretas.

Mas também mostra que, em plenos anos 70, Orson Welles era um realizador visionário, capaz de elaborar filmes únicos da história do cinema. The Other Side of the Wind pode ser melhor descrito como uma espécie de sátira de humor negro ao ambiente que se vivia na indústria na época. Uma era em que as camadas mais jovens estavam a ganhar ainda mais terrenos e os veteranos fazem o seu melhor para se manterem relevantes.

The Other Side of the Wind Crítica de Cinema

O enredo serve para entrarmos na mente de Hannaford, de o conhecermos melhor como pessoa. No entanto, isto não é feito através dos meios comuns (com o protagonista a relatar a sua história de vida a quem o está a ouvir), mas sim por relatos de fãs, de amigos, de conhecidos, de críticos, de figuras predominantes da indústria, e cada um deles com a sua versão dos factos para contar, que nos faz questionar sobre a sua veracidade.

Os meios técnicos também se revelam como arrojados. Como já foi mencionado acima, Bob Murawski esteve a cargo de editar os vários excertos de filme disponíveis e de uni-los de forma coerente e compreensível. E embora o tenha conseguido (um feito complicado para muitos), isto significa que estaríamos perante uma montagem de técnicas de filmagens unidas, como se de remendos se tratassem. Num momento, estamos perante cenas filmadas com Technicolor e um sistema de som tolerável; noutro, temos cenas filmadas a preto-e-branco e um sistema sonoro um tanto ou quanto arcaico. Embora as técnicas de filmagens possam ser diferentes, servem o seu propósito de apresentar uma história coesa e repleta de “farpas” a apontar ao culto de Hollywood.

Outro aspeto que achei interessante foi a forma como The Other Side of the Wind alterna entre o desenrolar de Hannaford e do filme propriamente dito. O “filme dentro do filme” encontra-se no formato widescreen, ao passo que os relatos de Hannaford e dos seus em seu redor estão restringidos a uma câmara quadrada. Pode parecer um ponto estético, mas que salta à vista.

Em suma, The Other Side of the Wind não é um filme de visionamento fácil. Mas também, os filmes de Orson Welles nunca o foram. E considerando que esta foi a sua última oferenda antes da sua morte, pode-se dizer que é uma obra que, apesar de não ser totalmente brilhante, tem a sua magia impossível de resistir.

Título: O Outro Lado do Vento
Título Original: The Other Side of the Wind
Realização: 
Orson Welles
Elenco: John HustonOja KodarPeter BogdanovichSusan StrasbergNorman FosterRobert RandomLilli Palmer
Duração: 
122 minutos

Trailer | The Other Side of the Wind

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