Cinema Críticas

Crítica: Bohemian Rhapsody (2018)

SPOILER ALERT!!

Is this the real life?
Is this just fantasy?

Sou uma grande fã de Queen. Em dois anos fui vê-los duas vezes (com Adam Lambert na voz), todos os elementos da banda são autênticos virtuosos dos seus instrumentos, têm músicas que são verdadeiros hinos e tinham aquele que era (para mim) sem a menor dúvida o melhor frontman que já pisou este mundo. Ninguém interagia com o público tão bem quanto Freddie Mercury, ninguém possuía tamanha presença e carisma em palco. Segundo Brian May, o talentosíssimo guitarrista dos Queen, Mercury conseguia fazer com que a última pessoa, sentada na mais longínqua bancada de um estádio se sentisse conectada com ele. Com uma personagem principal destas, é óbvio que eu ia ver Bohemian Rhapsody logo que pudesse.

A minha opinião? Sinto-me dividida. Houve partes do filme que gostei muito e outras que nem tanto, ou que senti que faltava alguma coisa. May e Roger Taylor foram consultores criativos do filme e Jim Beach, antigo manager dos Queen, foi produtor, o que significa que a banda esteve muito envolvida no projecto, facto que se revela uma faca de dois gumes: por um lado isso oferece-nos uma visão mais pessoal da história da banda e do que realmente se passou, mas por outro isso levou a que alguns aspectos da vida de Mercury fossem apresentados de uma forma muito mais ”vanilla” do que realmente eram, o que até certo ponto é normal – os membros da banda querem conservar a imagem dos Queen da melhor maneira possível.

Bem, obviamente que o filme tem uma banda sonora fantástica, irrepreensível. Eu não consegui ficar quieta na minha cadeira enquanto passavam grandes hits como ”We Will Rock You” ou ”Another One Bites The Dust”. Portanto, numa escala de 1 a 10, dou um 20 a essa parte.

O elenco foi bem escolhido, partiularmente Gwilym Lee (tão parecido com Brian May, tanto fisicamente como na forma de falar, que por vezes me esquecia que não era mesmo ele) e Rami Malek. Tenho lido muitas críticas acerca da performance de Malek, com as quais não concordo: leio que ele consegue imitar bem o cantor, mas não consegue ter a sua confiança, não consegue ”ser o Freddie”. E isto é das coisas mais estranhas que já ouvi. Até que ponto é que alguém consegue ”ser” Freddie Mercury? O cantor tinha uma personalidade única, muito difícil de replicar na perfeição, e a meu ver, Malek conseguiu ser ”o mais Freddie Mercury possível”. Duvido que haja alguém que consiga fazê-lo melhor do que ele fez, porque – encaremos os factos – ”ser” Freddie não é pêra doce.

Eu acho que Rami Malek fez um excelente trabalho com este papel. Nota-se que o estudou à letra e que deu o seu melhor. Consegue representar muito bem a identidade super flamboyant que Freddie possuía tanto no palco como fora dele, copiou-lhe muito bem os ”tiques” e maneira de falar e a sua personagem transborda confiança e ousadia.

Achei maravilhosa a maneira como a parte do Live Aid foi recriada. Eu nunca tive a sorte de poder ver Freddie Mercury ao vivo e essa é uma pena que carregarei sempre comigo. Nos concertos mais recentes, os Queen têm feito algo muito especial para os fãs como eu: na parte em que Brian May toca ”Love Of My Life”, é passado um vídeo de Mercury a cantar essa mesma música, ou melhor, a deixar que o público cante por ele. Numa montagem muito bem feita, no vídeo ele parece estar mesmo ali ao lado de May e esse é sempre um momento muito emocionante nos concertos. Sentimos quase que estamos a ver o cantor ao vivo, ali à nossa frente e gostamos tanto mas tanto disso. Na recriação que fizeram neste filme do Live Aid senti quase a mesma coisa que nesses concertos: como Malek imita Mercury tão bem e cada passo seu em palco é uma bonita homenagem ao icónico frontman, aquela parte do filme mostra-nos, de certa forma, como era ver Freddie Mercury ao vivo. Por alguns minutos até sentimos que estamos ali no meio daquele oceano infinito de pessoas. Essa parte está muito bem conseguida, fez-me viajar até uma altura na qual nunca vivi.

Apesar destes aspectos positivos, houve alturas em que Bohemian Rhapsody não correspondeu à expectativa. O que mais me decepcionou foi descobrir que o filme se trata mais da história dos Queen como banda do que da história do seu vocalista. Não é que eu me importe de ver um filme sobre a história dos Queen, mas o filme foi tão publicitado como sendo uma biografia de Mercury que eu me convenci de que era mesmo isso. É óbvio que os Queen foram uma grande parte da vida de Freddie, mas eu esperava ver mais acerca da pessoa e menos acerca do cantor.

Mesmo enquanto história da banda tem algumas falhas, nomeadamente a nível de datas, por exemplo em relação à data de alguns concertos e do lançamento/composição de algumas das músicas, o ano em que Mercury descobriu que tinha SIDA, entre alguns outros. Esperava menos erros desta natureza, ainda por cima tendo em conta que a banda estava tão envolvida na produção do filme.

Bohemian Rhapsody mostra uma versão muito lapidada de alguns aspectos da vida de Freddie Mercury. É do conhecimento geral que Freddie levava uma vida bastante regada a alcoól e drogas, aspecto que é praticamente deixado de lado no filme, como se de nada se tratasse. E não é só isso, Freddie levava um estilo de vida muito exagerado e excessivo, e um bom exemplo disso eram as festas das quais era anfitrião, que punham aquelas que aparecem no filme a um canto. Em Bohemian Rhapsody não vemos um Freddie Mercury absolutamente perfeito, não, mas o que nos é mostrado é muito pouco. É aqui que a banda tenta proteger a sua imagem, não a sujar demais, o que eu compreendo perfeitamente e respeito – eu é que estava curiosa por ver um pouco mais.

Bohemian Rhapsody termina na réplica bem arquitectada do Live Aid, mas eu acho que ficava a ganhar se nos tivesse antes mostrado mais acerca dos ultimos anos de Mercury. Era uma maneira de nos sentirmos mais próximos do cantor cuja vida nos prometeram contar neste filme. Acho que Live Aid foi o final escolhido porque não queriam que o filme acabasse de uma forma triste, preferiram que acabasse de uma forma gloriosa, e isso conseguiram. Mas a história do final de vida do cantor é tão intensa que eu acho que merecia imenso ser contada, particularmente a parte em que Mercury decide gravar ”The Show Must Go On”. Sei que assim o filme ficaria enorme, mas isso não é impedimento – Gone With The Wind tem quase 4h de comprimento e não é isso que o impede de ser um adorado clássico.

Resumidamente, saí da sala de cinema a sentir-me como um copo de água meio cheio – houve partes das quais gostei mesmo muito, mas houve outras que me deixaram mesmo com a sensação de que Bohemian Rhapsody não cumpriu bem aquilo a que se propôs. Mas de qualquer forma, foram 2h e tal bem passadas e eu acho que quem é fã dos Queen devia realmente ver. Afinal, independentemente das falhas, Queen é Queen.

Título: Bohemian Rhapsody

Título Original: Bohemian Rhapsody

Realização: Bryan Singer

Elenco: Rami Malek, Lucy Boynton, Gwylim Lee, Ben Hardy, Joseph Mazzello, Aidan Gillen, Tom Hollander, Mike Myers

Duração: 134 minutos

Trailer | Bohemian Rhapsody

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