Cinema Críticas

Crítica: The Shining (1980)

Há filmes dos quais ouvimos falar uma vida inteira. Eles vão-nos aparecendo em conversas, em textos, em artigos (e mais recentemente, nos memes do Facebook) e vão criando em nós a ideia de que, se são tão falados e há tanto tempo, é porque devem realmente ter algo que os torna dignos de tal. The Shining era, para mim, um desses filmes que nunca vi mas sempre soube que existe. E hoje decidi vê-lo.

Convém relembrar que The Shining é inspirado no livro homónimo de Stephen King. Apresenta algumas diferenças em relação ao livro, o que faz com o que o seu autor ainda hoje tenha uma opinião dividida acerca do filme, pois na sua perspectiva, Kubrick ignorou os aspectos que King considerava mais relevantes acerca da história.

Já tinha visto filmes de Stanley Kubrickjá lhe conheço o género e portanto não me admirei minimamente ao constatar que o filme é altamente ambíguo e repleto de simbolismos (que têm sido alvo de todo o género de especulações ao longo destes 38 anos). Eu aprecio sempre um filme que é detalhado, apenas me mostra o empenho que foi colocado no mesmo, e ainda aprecio mais quando se trata de filmes de terror: Às vezes é aquele pequeno detalhe que faz toda a diferença, quer seja uma frase que a meio do filme não parece fazer sentido e depois no final descobrimos o seu significado, ou a luz que é colocada atrás de um personagem, criando um efeito contraluz, colocando a personagem a preto, revelando, simbolicamente, o seu lado lunar.

É um filme com imagens muito inquietantes, acompanhadas por música que realça esse aspecto. Logo no início, ouvimos uma melodia que nos insere imediatamente no tom do filme – já sabemos que iremos ver algo misterioso, arrepiante. Algumas destas imagens são bem famosas mesmo para quem nunca viu o filme, como era o meu caso, mas acreditem quando digo que são bem mais impactantes quando vistas acompanhadas pela sua respectiva banda sonora, perfeitamente sincronizada com cada momento (de certa maneira, a banda sonora devolveu-me à lembrança Psycho, de Alfred Hitchcock): o mar de sangue a sair do elevador, as duas irmãs paradas em silêncio absoluto e as expressões horrorizadas de Danny (Danny Lloyd).

Achei excelente a maneira como a câmara ajudou a contar a história, acompanhando todo o filme de uma forma imensamente fluída, cada plano aplicado da maneira mais indicada para cada momento, cada movimento meticulosamente trabalhado. Gostei imenso da interpretação que Kubrick tirou desta história e da maneira como escolheu contá-la. Sei que na altura o filme não recebeu as críticas mais elogiosas (embora tenham melhorado com o passar do tempo e hoje é considerado um dos melhores do seu género) mas eu tenho de discordar com elas. Opiniões.

A primeira escolha de Kubrick para interpretar Jack foi mesmo Jack Nicholson. As outras opções incluíam Robert De Niro, Robin Williams e Harrison Ford. Não considero que seja o melhor papel que Nicholson já desempenhou (McMurphy, de One Flew Over The Cuckoo’s Nest é, para mim o melhor) mas digam-me muito sinceramente: conseguem imaginar qualquer outro actor a proferir a famosa frase ”Heeeeere’s Johnny!”? (e a ter a ideia de a incluir no filme, também, já que a frase foi improvisada pelo actor. Belo toque).

Qualquer fã de Stanley Kubrick sabe muito bem que ele é um perfeccionista por natureza (para terem uma ideia, a cena do bar demorou mais de 13h a ser filmada) e isso reflecte-se até no método que ele usou para escolher o rapaz perfeito para desempenhar o papel de Danny: ele enviou uma equipa de 2 pessoas para Chicago, Denver e Cincinnati para entrevistarem 5000 rapazes durante 6 meses. Escolheu estas cidades para que o escolhido tivesse um sotaque que se assemelhasse aos de Nicholson e Duvall.

Tal perfeccionismo aparentemente não se aplicou à escolha da actriz seleccionada para fazer o papel de Wendy. Eu queria poder dizer algo de positivo acerca da performance de Shelley Duvall, queria mesmo, pois sei que a actriz passou um péssimo bocado enquanto gravava este filme – Kubrick e Duvall discordavam imenso em vários aspectos importantes do filme, o que resultava em inúmeras discussões. Isto acrescentado à exigência exacerbada de Kubrick levou a que Duvall chegasse mesmo a adoecer e o seu cabelo caía sem parar de tanto que era o stress. Por estas razões, eu gostava mesmo muito de poder dizer algo de positivo acerca da sua performance, mas não posso: Nas cenas que não envolvem terror/suspense, é completamente desprovida de qualquer emoção. A sua expressão é quase neutra, de alguém que não está devidamente comprometido com o que está a fazer. Pelo contrário, nas cenas de terror cai num absoluto exagero, cada expressão gesto e grito revela-se muito forçado. Não combina com o resto do filme e valeu-lhe uma nomeação para Pior Actriz nos Razzies.

Falando nos Razzies, Kubrick foi nomeado também na categoria de Pior Director. Não sou ninguém para opinar, mas pessoalmente não concordo. Gostei imenso da maneira como ele dirigiu o filme e como usou cada pormenor para contar a história e nos mostrar a perspectiva sob a qual a interpretou. Kubrick era por vezes mal amado no seu tempo (com algumas excepções) e só começou a ser mais apreciado depois de morrer, algo que acontece com inúmeros génios das artes.

The Shining é, como já referi mais acima, um filme muito ambíguo e aberto a diversas interpretações. Por exemplo, muitos se questionam se os fantasmas que aparecem ao longo do filme estão ”mesmo ali” ou se são apenas fruto das visões/alucinações de Jack, ou até mesmo reflexos das transformações psicológicas pelas quais a personagem estava a passar. Como tal, decidi partilhar a minha própria visão: os fantasmas ”estão ali” (tendo em consideração o que se passou naquele hotel) mas Jack só começa a vê-los assim que começa lentamente a enlouquecer. São ”reais”, mas evocados apenas pela sua loucura. Esta é apenas uma das mil interpretações do filme. Um filme que nos leva a pensar, a especular é um filme que quase sempre segura um lugar digno na minha consideração.

O próprio espectador sente-se preso dentro daquele hotel, com aquelas personagens e aquela situação. A propósito, durante todo o tempo, a história de The Shining fez tocar na minha cabeça uma das minhas músicas preferidas de sempre e que o descreve quase na perfeição, que é Hotel California, dos Eagles: O sujeito entra naquele hotel que à primeira vista parece tão bonito e convidativo (”Bem vindo ao Hotel California… Que lugar adorável”), mas cedo se apercebe que há ali algo que não está certo (”E ela disse ”Aqui todos somos prisioneiros por nossa prórpia conta”) . E por mais que tente correr para a porta, nunca poderá escapar daquele lugar: ”Pode fazer o check-out à hora que quiser… Mas nunca poderá sair!”. Eu confesso que gostei da minha estadia no Hotel Overlook. De uma forma bastante claustrofóbica, mas gostei.

Título: O Iluminado

Título Original: The Shining

Realizado por: Stanley Kubrick

Elenco: Jack Nicholson, Shelley Duvall, Danny Lloyd, Scatman Crothers

Duração: 146 minutos

Trailer | The Shining

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