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Crítica: Bad Times at the El Royale (2018)

Bad Times at the El Royale Crítica de Cinema

O cinema tem aspetos muito divertidos. Muito porque, por vezes, consegue reciclar-se de forma genuína e com alguma garra, remetendo-nos para alturas específicas de quando era ainda a arte visual rainha de todo o mundo.

Bad Times at the El Royale é o novo filme de Drew Goddard, um velho conhecido do cinema e da televisão (os trabalhos dele incluem o argumento de The Martian e o primeiro filme da saga Cloverfield, bem como colocou a máscara em Charlie Cox em Daredevil da Netflix). É uma pequena pérola engenhosa e repleta de twists engraçados que evoca os tempos em que Quentin Tarantino “pintava” a tela em tons de vermelho através da apresentação gradual das personagens, como se estivéssemos a montar um puzzle. Há muito de Tarantino em Bad Times at the El Royale… aliás, podemos dizer que o filme, por si só, é quase uma espécie de homenagem ao cineasta, já que o espectador encontra pequenas referências, quer a Pulp Fiction, quer a Reservoir Dogs ou até ao seu mais recente The Hateful Eight.

Bad Times at the El Royale Crítica de Cinema

Ainda que Goddard opte por um tom mais leve e se desprenda dos devaneios sangrentos de Tarantino, o seu novo filme consegue muito bem captar o espírito e essência ao colocar sete estranhos dentro de um hotel onde todos eles escondem um segredo. Ficamos a conhecer Miles Miller, que é o moço dos recados e que orienta as tarefas do hotel, e que também dá a conhecer aos novos hóspedes as instalações do mesmo. Os primeiros a fazer o check-in são o Padre Daniel Flynn e a cantora Darlene Sweet, duas personagens aparentemente doces e prestáveis que, ao longo da película, vão forjando uma estranha cumplicidade. Quem também mostra o ar da sua graça é Laramie Seymour Sullivan, um bom-vivã que alega ser vendedor de aspiradores e que não poupa os restantes hóspedes a umas piadas sem graça. Por fim, conhecemos Emily, que aparenta ter um ar rebelde e atitude despreocupada, deixando um “FUCK YOU” bem mandado nos registos do hotel.

Bad Times at the El Royale Crítica de Cinema

O filme vai trabalhando um a um todos estes intervenientes, revelando gradualmente (e por capítulos) os verdadeiros motivos que os atraem a este bizarro estabelecimento que se encontra na divisão dos estados do Nevada e da Califórnia. O humor em torno desta característica do filme é verdadeiramente acutilante e deixa o espectador de imediato a entender que este será um filme a não ser levado muito a sério.

É precisamente esta característica que salva Bad Times at the El Royale de ser uma paródia de si mesmo. Sabe brincar, mas brincar com classe e sem exageros profundos. Claro que nem tudo é perfeito e, embora a narrativa mosaica consiga aliciar-nos do início até ao fim, há certos momentos em que as opções poderiam ter sido mais credíveis em prol de criar um filme com mais pujança e mais realismo.

Bad Times at the El Royale Crítica de Cinema

Ao conhecermos as personagens gradualmente e a matutar o que as une no meio da “salgalhada” toda, é onde o público consegue arrancar uma visão mais ampla de onde Goddard pretende chegar. O que vemos não é mais do que personagens aleatórias que são forçadas a estar presentes no hotel mas cujos destinos acabam, no azar dos azares, por se entrelaçarem, e isto não ocorre da forma mais simpática. As performances são, no geral, muito interessantes e competentes, com Jeff Bridges a mostrar o grande senhor do cinema que é, ao lado de um Chris Hemsworth maravilhosamente excêntrico, e um Jon Hamm tagarela mas sempre com uma postura icónica à lá Don Draper. Lewis Pullman, o jovem Miles Miller, é também um espanto e a sua doçura conquista-nos desde o início, para além de Cynthia Erivo revelar com frequência as suas belas cordas vocais que dão um carisma próprio às sequências do filme.

Mas, acima de qualquer outra coisa, Bad Times at the El Royale prima quando junta todos em sequências aleatórias de violência que nos deixam absolutamente boquiabertos e curiosos para saber o que ainda faltará por acontecer. A previsibilidade é rompida com frequência e os twists abundam até que o final merecia receber um tratamento mais elaborado do que realmente teve. Sente-se que o filme se sente demasiado confortável no estilo que quer criar, mas perde-se em não dar uma conclusão no mesmo registo. O desfecho de Bad Times at the El Royale é, de facto, preguiçoso e pouco criativo.

Bad Times at the El Royale Crítica de Cinema

Outra característica pouco convincente é como o espectador é confrontado com a personagem de Hemsworth e a sua backstory não é propriamente muito elucidativa, ainda que o ator tenha conseguido (e muito bem!) captar a essência de um Brad Pitt em dois registos diferentes da sua carreira, em especial, Kalifornia e Fight Club. Embora não seja perfeito, Bad Times at the El Royale é entretenimento puro e duro.

Tem aspetos que poderiam ter sido melhorados e o final tinha obrigação de escapar ao cliché. No entanto, não deixa de ser carismático à sua maneira e de respeitar a fórmula de Quentin Tarantino para proporcionar um serão excelente para ver com a família e amigos.

Título: Sete Estranhos no El Royale

Título Original: Bad Times at the El Royale

Realização: Drew Goddard

Elenco: Jeff Bridges, Cynthia Erivo, Dakota Johnson, Chris Hemsworth, Jon Hamm, Cailee Spaeny, Lewis Pullman, Nick Offerman.

Duração: 142 min.

Leiam a nossa crítica de A Star is Born aqui.

Trailer | Bad Times at the El Royale

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