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A Star is Born e a dualidade da fama e do talento!

A Star is Born especial

ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS DE A STAR IS BORN!

 

A Star is Born especial

Estamos a entrar numa fase importante nesta altura do ano: começa a criar-se um “burburinho” já característico dos candidatos à próxima edição dos Óscares e um dos primeiros a chegar às nossas salas é A Star is Born, realizado, co-escrito e protagonizado por Bradley Cooper. Cooper é Jackson Maine, um músico com sérios problemas de alcoolémia, que se apaixona por Ally, uma aspirante a estrela com dotes vocais doces e que lhe captam a atenção no bar mais “queer” das redondezas. Mal se começam a conhecer, o amor entre ambos vai florescendo e Jackson convida Ally a descobrir o seu mundo: o estrelato. À medida que o seu amor vai crescendo, também Ally se vai embrenhando neste sonho por que tem lutado a sua vida toda.

A Star is Born especial

A Star is Born não é um filme qualquer. É precisamente um daqueles que crava a fundo as suas garras na nossa alma e que nunca se desprendem. Aliás, as garras vão apertando cada vez mais ao longo do filme, levando o espectador a vários momentos emocionais que consequentemente nos levam a derramar um oceano de lágrimas. Tenho uma mania terrível de me “armar em forte” e esqueço-me sempre que o cinema tem este poder sobre mim de tocar na minha maior fraqueza que é o envolvimento que ele próprio me provoca. Para a próxima já sei e aconselho a todos os leitores a levarem um pacotinho de Renova (ou até mesmo de qualquer marca branca) para evitarem as minhas figurinhas de fungar constante e limpar de lágrimas de dois em dois segundos. Mas vamos ao que interessa…

A Star is Born especial

A Star is Born é precisamente aquele filme que é tão simples e tão doce e ao mesmo tempo é tão complexo e cruel. A dualidade entre a ascensão à fama e a fase decadente da mesma é estabelecida por uma linha amorosa que é genuína e que provoca uma empatia imediata do espectador. Os clichés abundam por todos os lados, mas são eles que nos criam precisamente esta ternura que vamos sentindo ao lado de Bradley Cooper e Lady Gaga durante todo o filme. (NOTA: Para os/as invejosos/as, a Lady Gaga merece um Óscar e de que maneira!). Jackson é alcoólico e drogado e, para além de um músico apaixonado, é também um indivíduo amargo e que encontra um escape em Ally, sua companheira e futura cônjuge. Poderíamos assumir que A Star is Born é um filme fútil, baço ou superficial mas, de facto, ele é tão complexo quanto emocionalmente poderoso.

A Star is Born especial

Há uma simbiose entre as performances magistrais de ambos os protagonistas, uma banda sonora vertiginosa e que acompanha com garra todos os momentos do filme, mas é na sua mensagem que o filme se torna ainda mais especial. Não foi há muitos anos que Amy Winehouse perdeu a sua vida, após muitos anos de câmaras a disparar contra a sua cara e corpo como se estivesse no meio dum tiroteio; Chester Bennington, vocalista dos Linkin Park, também perdeu a vida após uma carreira duradoura e sempre em constante movimento; o DJ Avicii também se imortalizou na indústria e acabou por perecer em tenra idade. Podemos pensar: que relação têm estes músicos com o filme? Muito… talvez até demais. Todos eles foram vítimas de uma pressão social que advém inequivocamente do sucesso. Quando o talento emerge e começa a espalhar o seu charme pela indústria, traz consigo a perseguição, o fanatismo e a obsessão. Quantas vezes não vemos as “crianças” a gritar pelo Justin Bieber e querer, literalmente, “saltar-lhe para cima” (peço desculpa pela linguagem)? Quantos não sabem respeitar a privacidade e tentam sacar fotografias das celebridades quando estas levam os seus filhos à escola ou, inclusive, estão apenas a sair com os amigos para beber um copo em paz? Eu contra mim falo, se visse o Tom Hardy (já temos crítica de Venom!) na rua, certamente que iria entrar em êxtase e tentar arrancar uma foto com ele… mas é este fanatismo e esta inconsciência de respeitarmos o espaço daqueles que pouco já o têm, que muitas vezes contribuímos para a desgraça de um talento. A pressão social é uma consequência terrível do estrelato e da fama. Nem todos procuram ser reconhecidos, apenas gostam de mostrar o seu talento e de partilhá-lo, sem querer que as suas vidas sejam massacradas pelo fulgor desmesurado que surge da fama.

A Star is Born especial

Para Ally, todo este mundo é novo e repleto de oportunidades… e a maior delas todas é apaixonar-se por um homem charmoso e com um dom único para a música. Para Jackson, este mundo é tudo o que ele conhece e a novidade surge sobre a forma de paixão, assim que conhece a sua cara-metade. Quando ambos os mundos colidem, ainda que sejam vividos inicialmente com muita intensidade e paixão, depressa começam a mostrar os seus sinais de fadiga e perigo. Ter fama e sucesso não significa que se tem felicidade. Nem todos encontram o seu “happy ending” por terem um talento para uma arte em específico. É precisamente na fase delicada que a arte passa para indústria que as fragilidades começam a emergir.

A Star is Born é uma ode belíssima. Uma peça magistral que conjuga estes princípios e os acolhe de forma natural, com uma força emocional acutilante e que leva o espectador a um estado completo de ansiedade, ao mesmo tempo que o deixa em completo estado de imersão e compaixão para com o que vai vendo no ecrã. A banda sonora é extraordinária, o som arrepiante… a fotografia é simples e a câmara de Cooper é um portal de magia que mexe com todos os nossos sentidos. As vozes de Lady Gaga e de Bradley Cooper funcionam como o som de uma cascata a descer uma montanha… uma melodia natural que nos leva a sair do nosso próprio corpo e a deixarmos a nossa alma voar e a saborear cada nota, cada verso.

A Star is Born especial

Quando um filme nos transporta para fora de nós próprios é sinal de que a arte entrou e estamos a desfrutar dela e esse feito é tão raro e único que Assim Nasce uma Estrela é o exemplo perfeito de que a vida tem um lado doce, um lado apaixonante, mas também um lado trágico e um lado cruel. Ainda estou a traulitar o tema Shallow, a lacrimejar quando Maybe It’s Time começa a tocar no YouTube ou na minha conta do Spotify. Mas acima de tudo, ainda procuro acalmar a minha alma depois de sair da sala de cinema e ela está inconsolável e mortinha por regressar e voltar a sentir a experiência que é A Star is Born.

Fiquem com a extraordinária banda sonora aqui:

 

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