Cinema Críticas

Crítica: Don’t Worry, He Won’t Get Far on Foot (2018)

Título original: Don’t Worry, He Won’t Get Far on Foot

Título: Não Te Preocupes, Não Irá Longe a Pé

Realizado por: Gus Van Sant

Elenco: Joaquin Phoenix, Jonah Hill, Rooney MaraJack Black

Duração: 114 min.

A banda desenhada é apreciada na cultura popular pela sua rapidez e espírito crítico, mas também é de grande sofisticação pela sua capacidade de sintetização. Numa ou noutra vinheta, é-nos contada uma história que agrada ao leitor, mas também tem alguns traços que manifestam um estilo reconhecível. Juntando estas duas facetas está o desafio de Gus Van Sant ao realizar uma biografia de John Callahan, abordando a sua vida em apenas duas horas sem renunciar uma visão artística pessoal que integra a sua maneira particular de ver o mundo.

Com Don’t Worry, He Won’t Get Far on Foot, Gus Vant Sant exibe uma narrativa não-linear circular sobre o vício alcoólico de John Callahan, o seu fatídico acidente e subsequente recuperação, presa a um sentimento de abandono que nunca acabou com ele, mas que também não o recuperou para o sucesso.

Embora seja feito com saltos no tempo e diferentes retrospectivas, o filme é seguido com grande facilidade. Centra-se no cartonista e no momento em que ele sofre um acidente fatal e tenta deixar o vício. Isso permite-nos conhecer o momento em que John Callahan é uma pessoa compulsiva e angustiada por não ser capaz de se mover ou levar a vida descontrolada de antes, incluindo as suas mais intensas epifanias e sucesso artístico. Não estamos a falar e um artista conhecido em todo o mundo, mas alguém que, com a sua peculiaridade, destacou a sua singularidade.

Este é outro filme que mostra que rir de nós mesmos e fazer humor negro toma um pequeno lugar numa sociedade mais avançada. Gus Van Sant está totalmente comprometido com o filme a ponto de aparecer nele sem esconder nada. No caminho destrutivo de John Callahan, tanto física como socialmente, encontramos uma história edificante com muitas lições de empatia e juízos de valor.

A maior parte do grande humor do filme vem das suas vinhetas com desenhos simples, que, por outro lado, são o mérito do original John Callahan, porque elas são todas reais. A grande diferença que tem com outros humoristas ilustres é o seu verdadeiro e drástico senso de vida. Um artista que era totalmente imune a críticas daqueles que eram contra o seu senso de humor.

Em Don’t Worry, He Won’t Get Far on Foot estamos diante de um Joaquin Phoenix num dos melhores papéis da sua carreira. Com a sua caracterização e compromisso, ele ajuda-nos a entender a delicada história de alguém que dependia do caos para ser feliz. Se o desenho é uma tábua de salvação para John Callahan neste filme, a personagem interpretada por Rooney Mara é o motor de um barco à deriva. Mas é Jonah Hill que, no seu afastamento radical das comédias atrevidas, sai do seu esconderijo com um papel omnipresente e profundo. Jack Black, outro grande nome do filme, torna-se o amigo ideal e, apesar de ter ficado com uma personagem muito louca, tem um registo bastante dramático, que mostra em poucos minutos o bom ator que é.

Se até as crianças nos mostram que o humor é tão acessível, porque não o resto? Com a música de Danny Elfman, vemos muitas loucuras de desenho animado, como andar pelas ruas com a cadeira de rodas a toda velocidade com skaters segurando-a. Ele tem ideias loucas e distorcidas que se tornam cativantes e até tenras. Don’t Worry, He Won’t Get Far on Foot é uma história real sobre os limites do humor. O título diz tudo.

Trailer | Dont’t Worry, He Won’t Get Far on Foot

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