Cinema Críticas

Crítica: The Babadook (2014)

the babadook

Título original: The Babadook

Título: O Senhor Babadook

Realizado por: Jennifer Kent

Elenco: Essie DavisNoah WisemanDaniel Henshall,   Daniel HenshallBarbara West

Duração: 93 min.

Entre 2014 e 2015 The Babadook percorreu o mundo, de festival em festival, arrecadando prémios, coleccionando nomeações, assustando o público e surpreendendo a crítica.

Cada vez interiorizo mais que não há filmes consensuais, muito menos no género de terror, e que há sempre quem goste e sempre quem engelhe o nariz. Mas nunca se pode dizer que um filme que ganhou 55 prémios e 61 nomeações seja francamente mau. Somos livres de não gostar, Mas estaríamos a ser um bocadinho mais do que rebeldes se dissermos que é mau.  Vamos à análise.

The Babadook

Nos dias de hoje o cinema de terror é essencialmente canibal. Quero com isto dizer que a generalidade dos títulos se alimenta criativamente dos clássicos ou de outros filmes que, sem serem grandes títulos, tiveram os seus momentos. É essencialmente à custa dessa “reinvenção” de receitas já vistas e de jump scares que vive o género. Por esta razão, é um feito notável conseguir assustar o público sem recorrer a formulas pré-feitas. Se a juntar isso ainda tivermos um filme que é capaz de noz agarrar pela sua narrativa, então estamos praticamente perante um milagre no cenário do terror moderno.

The Babadook é isso mesmo. Um filme profundo e bem pensado que leva o espectador a temer constantemente. Seja pelo monstro, seja pelas mentes dos personagens humanos. Vai alternando entre eles, sempre no limite, deixando o público na expectativa até ao final.

O ser que dá o nome ao filme, é uma personagem de um livro infantil misterioso que a viúva Amelia (Essie Davis) lê ao seu filho Samuel (Noah Wiseman). Babadook é uma entidade negra (literalmente e figurativamente) com um chapéu e membros pontiagudos que bate três vezes à porta antes de atacar e o filme ensina-nos que não é possível vermo-nos livres dele depois deste conseguir entrar. A própria Amelia descobre isto quando destrói o livro e o deita fora, mas o objecto regressa… E depois queima-o. E ele regressa…

Amelia e Samuel ainda tentam recuperar da tragédia que os abalou.
Amelia e Samuel ainda tentam recuperar da tragédia que os abalou.

A importância da estética

O filme faz um excelente trabalho em estabelecer um paralelo entre a cenografia, a estética aplicada e o design das páginas do livro infantil. O próprio livro é uma pequena obra de arte. Sempre que é aberto as imagens evoluem, tornando-se mais perturbadoras. Na mesma proporção, a relação entre mãe e filho vai também ficando mais violenta.

O livro infantil
O livro infantil

A casa, mórbida e desprovida de grandes cores, o que enaltece o estado de espírito já inicial daquela família devido à perda do marido/pai, vai ficando cada vez mais sombria à medida que se torna o “recreio” de Babadook.

As prestações dos actores

Essie Davis arrecadou inúmeros prémios pela sua prestação no filme. Muito merecidos. A australiana interpreta uma personagem que passa por várias fases, em crescendo, e que se não fosse perfeita em alguma delas poderia tornar o filme banal. Davis não facilitou. Do melhor que já se fez num filme de terror em termos de representação.

O jovem Noah Wiseman também esteve bem ao dar vida a uma personagem desafiante para alguém tão jovem.

Conclusão

Jennifer Kent criou esta obra expandindo a sua curta metragem de 2005 “Monster“, na qual mãe e filho enfrentavam uma versão humanoide de uma marioneta pendurada no armário.

Quer num caso quer noutro (Marioneta e Babadook) a entidade negra não é mais do que a personificação maléfica da dor e do medo da solidão. A isto alia-se o choque entre mãe e filho numa situação de perda muito mal gerida. Podemos dizer que Samuel está possuido, não por uma entidade maléfica, mas pelo trauma da morte do pai. O trabalho do personagem é levar a situação ao limite e lá entra o trabalho da personagem da mãe, Essie Davis nesse ponto transita da mulher fragilizada e temerosa para paranóica e histérica que quase dispensam o uso de efeitos especiais no filme.

A personagem de Essie Davies passar por várias fases no filme.
A personagem de Essie Davies passar por várias fases no filme.

A discussão é longa e dura: “The Babadook é um filme sobre uma criatura?” É difícil encontrar uma resposta definitiva. Mas vou lançar a minha acha nessa fogueira: o que torna o filme realmente interessante e apelativo é o facto do filme ser sobre a relação de uma mãe com o seu filho, depois de uma perda trágica em circunstâncias muito difíceis de ultrapassar e esquecer. A partir daí a psique humana viaja para sítios muito escuros. Nesses sítios há coisas como Babadook. Portanto, e para fechar, The Babadook é um filme sobre esta relação. E o verdadeiro terror aqui é esse: o quão negros podem ser os lugares da mente humana.

Trailer | The Babadook

 

Comments