Cinema Críticas

Crítica: Toy Story (1995)

Título: Toy Story: Os Rivais
Título Original: Toy Story
Realizado Por: John Lasseter
Elenco: Tom Hanks, Tim Allen, Don Rickles, Jim Varney, Wallace Shawn, John RatzenbergerAnnie Potts, John Morris, Erik von Detten, Laurie Metcalf
Duração: 
81 minutos

E se os nossos brinquedos ganhassem vida quando não estamos a olhar?

No cinema, há filmes maus, filmes muito maus, filmes bons, filmes muito bons e depois há filmes que fazem história e Toy Story insere-se indubitavelmente na última categoria: Senhoras e senhores, meninos e meninas, apresento-vos a primeira longa metragem na história do cinema a ser completamente feita por computação gráfica.

A Disney sempre foi bastante avant-garde, sempre à frente do seu tempo, sempre a imaginar o inimáginável e a fazer de tudo para possibilitar o impossível. Seria de esperar que, ao ser sempre assim, a certo ponto deixasse de nos impressionar, porque já se sabia que só saem filmes grandiosos deste estúdio. Mas quando já se pensava que a Disney não nos podia surpreender mais, ela junta-se com a Pixar, ambas formam a parceria mais importante do mundo da animação e, em 1995, nasce o primeiro fruto dessa relação: Toy Story.

Toy Story conta-nos a história de brinquedos que ganham vida quando os humanos não estão a olhar. Entre eles está Woody (Tom Hanks), um cowboy de pano que é o brinquedo preferido de Andy (John Morris), o dono dos brinquedos. Woody sente-se profundamente ameaçado pela chegada do ranger do espaço Buzz Lightyear (Tim Allen), um boneco altamente moderno e sofisticado, mas que parece não entender que é apenas um brinquedo e não um verdadeiro ranger do espaço. A razão pela qual Woody se sente ameaçado e com ciúmes é porque Buzz se torna imediatamente no novo brinquedo preferido de Andy. Woody e Buzz tornam-se rivais, mas a relação entre eles muda quando se vêem obrigados a cooperar um com o outro numa situação de perigo e nasce aí a maior e melhor amizade da Disney e da Pixar.

Woody: Vá lá Buzz, eu não consigo fazer isto sem ti… Preciso da tua ajuda.

Buzz: Eu não posso ajudar. Não posso ajudar ninguém.

Woody: Claro que podes, Buzz. Podes tirar-me daqui! E depois eu tiro o foguete de cima de ti e fugimos para casa do Andy!

Buzz: A casa do Andy, a casa do Sid… Qual é a diferença?

Woody: Oh Buzz, tu deste uma queda enorme. Não deves estar a pensar com clareza.

Buzz: Não Woody, pela primeira vez eu estou a pensar com clareza. Tinhas razão. Eu não sou um ranger do espaço. Sou apenas um brinquedo, um brinquedo estúpido, pequeno e insignificante.

Woody: Espera aí, ser um brinquedo é muito melhor do que ser um ranger do espaço.

Buzz: É, pois.

Woody: É. Naquela casa está um miúdo que pensa que és o máximo e não é por seres um ranger do espaço, é porque és um brinquedo. És o brinquedo dele.

Buzz: Porque é que o Andy havia de me querer?

Woody: Porque é que o Andy havia de te querer?! Olha para ti! És um Buzz Lightyear! Qualquer brinquedo daria tudo para estar no teu lugar. Tu tens asas, tu brilhas no escuro, tu falas! O teu capacete faz isso… Esse barulho. Tu és um brinquedo bestial! Na realidade… És bestial demais. Quero dizer… Que hipótese tem um brinquedo como eu contra um Buzz Lightyear? Eu só sei fazer isto: (*puxa o seu cordel que diz ”Tenho uma cobra nas botas!”*). Porque é que o Andy haveria de querer brincar comigo quando te tem a ti…?

Toy Story tem um excelente enredo, muito bem pensado, produto de imaginações extraordinárias. Quem é que ia inventar uma história acerca de brinquedos que ganham vida quando não estamos a olhar, que pensam e falam, que têm ideias e sentimentos? E estes brinquedos não são umas personagens quaisqueres, são personagens complexas, com as quais todos nós nos identificamos em certas alturas da nossa vida. Tantas vezes nos sentimos substituídos ou vítimas de circunstâncias injustas, tal como o Woody, tantas vezes nos sentimos inseguros connosco próprios, tal como o Rex (Wallace Shawn) e tantas vezes nos sentimos desiludidos com a vida como o Buzz.

É um filme que agrada a miúdos e graúdos: a miúdos porque os faz olhar para os seus brinquedos de uma forma totalmente diferente, e a graúdos porque os faz lembrar do amor que tinham pelos seus bonecos enquanto cresciam. Infelizmente eu nunca vi Toy Story quando era criança porque o filme saiu no ano em que eu nasci e na altura em que comecei a ver cassetes esta já estava com a fita toda estragada por ser vista tantas vezes pelo meu irmão mais velho. Mas vi o Toy Story 2 inúmeras vezes e posso dizer então que rever os filmes desta franquia muitos anos depois dá uma nostalgia enorme e uma saudade gigantesca daqueles tempos de criança em que víamos estes filmes ao lado dos nossos próprios brinquedos. É um excelente filme. Como disse, o meu irmão viu-o tantas vezes que a fita ficou estragada. Para uma fita chegar a esse ponto, o filme tem de ser visto muitas vezes mesmo, e se é visto muitas vezes é porque é algo de especial.

Toy Story foi, como já disse mais acima, a primeira longa metragem a ser completamente feita por computação gráfica e para realmente avaliarmos a qualidade e importância deste filme temos de nos situar em 1995: a tecnologia não era assim tão avançada, não havia metade dos recursos que há hoje a esse nível. O próprio Lasseter disse que animar este filme foi um verdadeiro desafio: o realizador queria mostrar-nos algo diferente e que jamais seria conseguido através da animação tradicional, como é o caso dos pormenores do fato espacial do Buzz e do reflexo do seu capacete. Hoje em dia a Disney e a Pixar são conhecidas pela sua preocupação com o detalhe e eu penso que foi neste filme que começaram a levar isso mesmo a sério. São estas pequenas grandes coisas que as distinguem dos demais estúdios de animação. É um filme verdadeiramente incrível para a sua época, algo inédito mesmo.

John Lasseter é um verdadeiro pioneiro neste campo. Não só dirigiu a primeira longa metragem feita totalmente por computação gráfica, produziu também Luxo Jr. (conhecem o candeeiro que aparece no início de quase todos os filmes da Pixar? Foi aí que ele apareceu pela primeira vez), a primeira curta metragem feita por computação gráfica a ser nomeado para um Óscar, e Tin Toy, a primeira curta metragem feita da mesma forma a ganhar a famosa estatueta dourada. Portanto, não admira que tenha sido ele o cérebro por trás de Toy Story.

Lasseter sempre soube que Tom Hanks era a pessoa ideal para dar voz a Woody, pois achava que o actor tinha ”o dom de pegar nas emoções e torná-las interessantes” e realmente fez a escolha acertada, e tenho a dizer o mesmo acerca de Tim Allen como voz do Buzz, e ele mesmo sente que foi a escolha certa porque se identifica imenso com a personagem. Hanks disse recentemente numa entrevista com Ellen DeGeneres que voice acting é um trabalho árduo e que como Woody é uma personagem que está sempre muito tensa, transmitir isso só com a voz é muito mais complicado do que se pensa e eu só posso concordar com isso. Voice acting é algo que sempre considerei muito complicado porque é representar apenas com a voz, sem qualquer ajuda do corpo ou das tuas expressões corporais, e por isso admiro quem o faz de forma tão brilhante quanto Tom Hanks fez e continua a fazer com Woody.

A Disney queria que Toy Story fosse um musical mas Lasseter não era grande admirador da ideia de os seus personagens começarem a cantar a meio de uma cena, então chegou-se a um acordo: ia haver música, sim, mas não cantada pelas personagens. Em vez disso, iria ser usada como um auxiliar de narração da história, para exprimir as emoções das personagens sem que para isso elas começassem a cantar em plena cena, já que isso não parecia enquadrar-se muito bem no contexto do filme. Randy Newman foi o escolhido para tratar da banda sonora do filme e todas as músicas assentam que nem uma luva na história e nas situações. Newman tem um estilo de canto muito próprio, muito descontraído, que certamente não se insere bem em filmes de príncipes e princesas, mas que parece ter sido feito à medida para Toy Story.

Este foi o filme que pôs todas as crianças a perguntarem-se se os seus brinquedos ganhavam vida quando elas não estavam a olhar, que nos fez tanta vez espreitar pela fechadura da porta a ver se algo diferente acontecia. O filme que nos fez amar ainda mais os nossos brinquedos e dar-lhes mais valor. E o seu sucesso foi tal que no ano que vem irá sair o 4º Toy Story. 4 filmes… Será que os animadores imaginavam isso enquanto faziam o 1º? Não sei. Só sei que em 1995 se fez história de tal forma que tenho a certeza que em 2019 irá estar um monte de pessoas com mais de 20 e 30 anos na fila da bilheteira para ver Toy Story 4 e podem ter a certeza que eu vou ser uma delas.

Trailer | Toy Story

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