Cinema Críticas

Crítica: First Reformed (2017)

First Reformed

Nome: No Coração da Escuridão
Título Original: First Reformed
Realizador: Paul Schrader
Elenco: Ethan HawkeAmanda SeyfriedPhilip Ettinger
Duração:
113 min

Paul Schrader é um realizador já experiente na área. No entanto, apesar do seu vasto reportório, a maioria dos seus filmes não deixa o patamar do medíocre. Mesmo assim, Schrader aceitou o desafio de realizar First Reformed. O realizador conseguiu-o de uma forma peculiar. Schrader é conhecido pelo seu estilo out-of-the-box. Com um elenco limitado em número mas admirável nas suas capacidades performativas, o realizador criou algo incomum no cinema de hoje.

Ethan Hawke coloca a vestimenta de protagonista e lidera o filme. O ator demonstra as suas habilidades teatrais de forma incrível. O filme é repleto de tensão e moralismos, e Hawke transmite perfeitamente os sentimentos e incertezas do reverendo Toller. Juntamente com Hawke estão Philip Ettinger, que assume perfeitamente o papel do paranóico Michael, e Amanda Seyfried como Mary, esposa de Michael, e desesperada para assegurar o bem-estar do seu parceiro. Apesar de seguirmos a vida de Ernst Toller, o trio de atores faz sempre sentir a sua presença, e lidera o filme lindamente.

First Reformed é um filme indie que segue as técnicas de Schrader e aposta num formato incomum nos filmes de hoje. Todo o filme é gravado com uma câmara estática, o que lhe dá um carisma diferente. A banda sonora aposta em tons mais graves e profundos, num filme que é repleto de dúvidas e incertezas, lutas internas e onde o sofrimento emocional domina todos.

First Reformed contém uma das melhores cenas a que já assisti em todo o cinema, em que Toller e Michael estão sentados, frente a frente, e discutem ideologias, ideologias e religião. A cena estende-se por um bom bocado, e é incrível como apenas uma conversa consegue cativar tanto o espectador. Schrader utiliza a câmara estática de forma fantástica, com o objetivo de que o espectador não se distraia do momento. Com isto, aposta imenso no guião e na interação de personagens, e concretiza-o belíssimamente.

Infelizmente, após uma cena tão tensa, tão cheia de confronto de personalidades, tão profunda de se assistir, o filme perde-se no seu próprio enredo. O que parece ser um filme out-of-the-box fantástico e com impacto na sociedade moderna deixa-se enrolar num enredo externo superficial e muito improvável. O filme abre com o confronto moral de um padre que se sente atraído e seduzido pelo seu lado mais negro, e que, independentemente disso, reserva para si os seus problemas e tenta ajudar os outros com tudo o que tem. Os confrontos ideológicos entre Toller e Michael são fantásticos de se assistir, e a produção desses momentos é incrível e memorável.

No entanto, First Reformed perde a sua “magia” quando tenta trazer a luta de Toller para um nível físico e palpável, especialmente quando o espectador sente muito mais fascínio e empatia pelas constantes guerras emocionais pelo qual está a passar. O que parecia ser um filme excelente deixa-se afetar pelo seu argumento e cai no medíocre. Ao longo do tempo, o filme torna-se pesado e cansativo, e o final de First Reformed é um dos finais mais aleatórios e mal escritos até aos dias de hoje. Como é que um realizador consegue aliar duas pontas do espetro num único filme, tendo uma das melhores e mais atraentes cenas em cinema moderno, e um dos piores finais de sempre?

No final de contas, First Reformed conta com um elenco excelente e caracterizações impecáveis. A utilização da câmara estática aliada à banda sonora cria uma sensacional experiência no cinema, e é uma lufada de ar fresco nos dias que correm. A escolha de realizador, no que toca a trazer novas técnicas de gravação, foi essencial para o sucesso que o filme conseguiu arrecadar. O filme lida lindamente com as questões morais do nosso ser e com a luta interna pela qual todos passamos. Esperança e desespero são os temas principais do filme, bem como uma mensagem ecológica bastante saliente e importante hoje em dia.

No entanto, apesar de começar de forma cativante e envolvente, deita tudo por terra, tornando-se monótono e entediante. O final do filme é bastante condenável, deixando o espectador com uma sensação de devaneio (no mau sentido), onde se espera o encerrar de uma história, e o filme apresenta-nos com um final em aberto, sem qualquer explicação por dar.

First Reformed tinha a capacidade seguir o seu formato inicial e ser um dos melhores filmes do ano da sua estreia, mas acabou por ser consumido pelos seus demónios, tornando-se outro filme medíocre e facilmente esquecido.

Trailer | First Reformed

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