Cinema Críticas

Crítica: Cinderella (1950)

Título Original: Cinderella
Título: Cinderela – A Gata Borralheira
Realizado por:
 Clyde Geronimi, Wilfred Jackson, Hamilton Luske
Elenco: Ilene Woods, Eleanor Audley, Verna Felton, Rhoda Williams, James MacDonald, Luis Van Rooten, Lucille Bliss
Duração: 
75 minutos

Não importa o quanto o teu coração está a sofrer, se continuares a acreditar, o sonho pelo qual desejas irá realizar-se”. É com esta mensagem, presente na canção A Dream is a Wish Your Heart Makes (traduzida à letra) que começa Cinderella, uma das mais importantes e marcantes longas metragens da Disney. E é uma das mensagens mais bonitas que o estúdio já nos enviou.

Cinderella baseia-se no conto homónimo de Charles Perrault e conta a história (é mesmo preciso eu contar? Mas ainda assim, SPOILER ALERT) de uma rapariga cujo pai fica viúvo e decide casar pela segunda vez com uma senhora cruel, que tem duas filhas com uma personalidade semelhante à da sua mãe. O senhor morre e a sua filha, Cinderella (Ilene Woods) passa a ser tratada como uma criada pela sua madrasta e as suas filhas, que sobrecarregam os seus dias com tarefas domésticas. Cinderella é sonhadora e optimista e, como tal, não desiste de sonhar que um dia tudo será muito diferente da sua actual realidade. Apesar dos maus tratos, ela mantém-se gentil e bondosa para todos. Um dia, o Rei decide organizar um baile para o seu filho e convida todas as donzelas solteiras. Como seria de esperar, Cinderella quer muito ir, e a madrasta deixa que isso aconteça desde que ela termine as suas tarefas diárias a tempo e ainda consiga arranjar algo adequado para vestir. Depois de o conseguir, Anastacia e Drizella (Lucille Bliss e Rhoda Williams, respectivamente) desfazem o bonito vestido de Cinderella, deixando-o em farrapos. Desolada, ela corre até ao seu jardim, onde dá de caras com uma fada madrinha que transforma a sua noite de pesadelo numa noite de sonho: uma abóbora vira uma carruagem, os ratinhos seus amigos viram cavalos, o cão vira lacaio, o cavalo vira cocheiro e os trapos que a cobriam transformam-se no vestido mais lindo que ela já vira. E vem com uns maravilhosos sapatos de cristal! Mas a fada madrinha avisa a Cinderella que aquele sonho, tal como os outros, não poderá durar para sempre: ao soarem as 12 badaladas da meia noite, o feitiço quebra-se e tudo voltará a ser como era antes. Cinderella vai para o baile e o Príncipe fica fascinado assim que a vê. Dançam todo o tempo até chegar a temida meia noite e a Cinderella fugir apressadamente do baile, deixando atrás de si um dos seus delicados sapatinhos. Nessa mesma noite, o reino começa a busca pela rapariga que possui os pequenos pés nos quais cabe aquele sapato, a única pista deixada pela menina que fugira do baile sem sequer dizer quem era. Entretanto, a madrasta apercebe-se que a rapariga que dançou toda a noite com o Príncipe era mesmo a Cinderella e tranca-a no quarto, para que só as suas filhas pudessem experimentar o sapatinho. Felizmente, Jaq e Gus, os dois amigos ratinhos da Cinderella, conseguem recuperar a chave e libertar a Cinderella, que ainda desce a tempo de experimentar o sapato. A madrasta, revoltada, faz com que este se quebre em mil pedaços, mas qual não é o seu espanto quando Cinderella retira o par do mesmo de dentro do bolso do seu avental. A menina mistério é finalmente descoberta. ”And they lived happily ever after”.

Durante a minha infância, Cinderella foi o meu filme preferido da Disney (agora não consigo decidir. Há tantos tão bons) e parece que ainda não perdeu o encanto que o agraciava na altura. A história bonita, as personagens apaixonantes, e oh!, as músicas. Até viajo no tempo. Obviamente que contém (como muitos filmes da Disney) um mau modelo de comportamento que é ”casal apaixona-se e casa sem sequer se conhecer minimamente” e é óbvio que nunca nos devemos reger por esse padrão comportamental. Mas como é um filme, vamos simplesmente lembrar-nos que se trata apenas de ficção, de um conto de fadas e que no mundo da Disney é tudo oh, tão encantador e portanto (mas só neste caso) não há problema.

Cinderella é, talvez, o clássico dos clássicos da Disney. Sei, obviamente, que não é o filme preferido de toda a gente, e há quem não goste. A Disney tem excelentes filmes, e a maioria dos mais antigos é construído sob a mesma base que este: príncipes, princesas, bruxas más e animais falantes, e embora o famoso estúdio de animação já tenha evoluído bastante e já tenha abandonado quase completamente esta fórmula,  temos de admitir que quando falamos dos clássicos da Disney, os sapatinhos de cristal aparecem imediatamente na memória de muitos. Cinderella é um filme icónico, e até já li algures que a nossa Gata Borralheira era a princesa preferida de Walt Disney.

Sing, Sweet Nightingale” é sem dúvida uma das minhas músicas preferidas da Disney ainda hoje. É tão bela, tão simples e tão serena. Além disso, representa perfeitamente a capacidade visionária de Walt Disney, que no fim de ouvir Ilene Woods cantar a música perguntou-lhe se ela achava que conseguia cantá-la em harmonia consigo mesma, algo que, segundo Woods, nunca tinha sido feito até à altura. E o resultado é divinal, tão sublime, tão agradável de ouvir. E a restante banda sonora encaixa-se tão bem na época em que o filme foi lançado que quase me consegue transportar para lá. E eu deixo-me ir.

É claro que a animação pode não parecer tão boa em comparação com os filmes de hoje em dia, mas não nos podemos esquecer que Cinderella foi lançado em 1950. Para aquela altura, isto era incrível, a expressividade dos rostos das personagens, os cenários, a fluidez com que Cinderella e o Príncipe dançam pelos jardins do reino… A cena em que os amiguinhos da Cinderella arranjam o vestido do baile é uma delícia de se ver, para não falar da cena em que os trapos de Cinderella se transformam naquele vestido lindo. Com os meus 8 anos, eu estava longe de imaginar que Cinderella era um filme tão antigo. Quando soube que foi lançado em 1950, fiquei impressionada. Walt Disney estava, na minha opinião, bem à frente do seu tempo.

Além da bonita história, Cinderella traz-nos sobretudo uma mensagem de esperança. É óbvio que não nos devemos sentar e esperar que apareça uma fada madrinha para resolver os nossos problemas, mas não é essa a mensagem que devemos tirar do filme. O que Cinderella nos tenta transmitir é que, por muito que tudo pareça perdido agora, nunca devemos perder a esperança de que a tempestade um dia acabe.

Se tivesse de definir Cinderella numa só palavra? Intemporal. Apaixonou crianças em 1950 e continua a apaixoná-las em 2018. Walt Disney pode descansar sabendo que marcou gerações inteiras e, meu Deus, isso é absolutamente incrível. Sim, é verdade que Cinderella segue uma fórmula que foi mil vezes reutilizada pela Disney ao longo do tempo, mas quem diz que isso tem de ser um aspecto negativo? Admitamos: às vezes precisamos mesmo de ver um bom cliché, daqueles mesmo ao estilo Disney dos anos 50, e só vos digo que este cai-me sempre que nem ginjas.

Trailer | Cinderella

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