Cinema Críticas

Crítica: The Hunchback Of Notre Dame (1996)

Título: O Corcunda De Notre Dame
Título Original: The Hunchback Of Notre Dame
Realizadores: Gary Trousdale, Kirk Wise
Elenco: Tom Hulce, Tony Jay, Demi Moore, Kevin Kline, Jason Alexander, Paul Kandel, Charles Kimbrough, Mary Wickes
Duração: 91 minutos

Nunca vi The Hunchback Of Notre Dame quando era criança. Naquela altura não tinha na minha posse muitos dos filmes da Disney e este era um dos que me faltava. Recordo-me perfeitamente de ver o trailer nas cassetes dos restantes filmes da Disney, que só começavam depois de serem apresentados os trailers de outras criações deste gigante da animação, mas nunca passou disso. Até que um dia, com cerca de 17 ou 18 anos, decidi finalmente ver aquela que é conhecida como a longa metragem mais obscura da Disney. E senti-me contente de só a ter visto com essa idade.

Há que dizer que não é um filme para todos os gostos, nem mesmo para toda a gente que se auto proclama fã da Disney. Como já referi, The Hunchback Of Notre Dame é um filme pesado, pois aborda temáticas consideradas polémicas e até controversas, como religião, genocídio, pecado e luxúria, e logo aqui se encontra a razão pela qual me sinto feliz por só o ter visto com 17 anos: Apesar de ser um filme de animação e de ter os seus toques de humor (na medida adequada às temáticas do filme), na minha opinião não é um filme direccionado para crianças, mas sim para adultos. Não sei, logicamente, qual será a percepção que uma criança de 8 anos terá do filme, mas sei de certeza que se o ver novamente com 20 terá uma interpretação bastante diferente.

Esta longa metragem fala na história de um rapaz deformado que nasce no seio de uma família cigana. O Juiz Claude Frollo, que possui uma enorme aversão a ciganos, encontra a família e persegue a mãe do pequeno, convencido de que esta levava consigo bens roubados. Acaba então por arrancar a criança dos seus braços e nisto a mãe cai das escadas da Catedral de Notre Dame e morre. O arquidiácono aconselha Frollo a criar o menino como se fosse seu, conselho que Frollo concorda em seguir na condição de este ser criado na torre dos sinos, onde ninguém mais o poderia encontrar. ”E Frollo deu à criança um nome cruel, um nome que significa ‘meio-formado’: Quasimodo”

Quem viu The Hunchback Of Notre Dame em criança certamente aprendeu com este que o mundo nem sempre vai ser justo e compreensivo com aqueles que são diferentes, mas também aprendeu uma das mais importantes lições que qualquer pessoa pode aprender: é o interior que dita quem nós somos. Por muito cliché que esta frase soe, é das maiores verdades que o mundo conhece. Frollo passou 20 anos a dizer a Quasimodo que ele era um monstro, pois não sabia reconhecer que o verdadeiro monstro era mesmo ele.

E no meio de todo este contraste entre o bem e o mal surge Esmeralda, uma dançarina cigana que anseia por paz e justiça e não se coíbe de dizer o que pensa, mesmo que isso lhe traga sarilhos. Tão rebelde quanto generosa, acaba por suscitar sentimentos tanto pela parte de Frollo como de Quasimodo, mas até nisto eles são tão diferentes quanto a noite e o dia: Quasimodo apaixona-se de verdade por Esmeralda, enquanto Frollo sente apenas puro desejo por ela. Este contraste está bem representado nas músicas ”Heaven’s Light” e ”Hellfire”. A cena em que se insere a primeira música é tão ternurenta que nos aquece o coração, pois é aqui que realmente nos apercebemos da importância que Esmeralda tem na vida de Quasimodo (apesar de depois ficarmos de coração partido ao vê-la acabar por se apaixonar pelo Capitão Phoebus). Já a cena em que se insere a segunda canção é das mais poderosas da história dos filmes animados, ilustrando perfeitamente a luta travada no interior de Frollo, entre a sua aversão a ciganos e o desejo descontrolado que sente por Esmeralda.

Aproveito para elogiar a restante banda sonora de The Hunchback Of Notre Dame, que está muito bem arquitectada. Particularmente no final, concedendo-lhe um carácter muito épico e que não se podia adaptar melhor ao enredo da história. E claro que também não posso deixar passar despercebida a ”God Help The Outcasts”, uma verdadeira oração, um apelo sentido à paz e justiça no mundo. Verdadeiramente inspiradora.

Um destaque também para o elenco do filme, que fez um excelente trabalho, em particular Paul Kandel ao interpretar Clopin. Conseguiu capturar na perfeição o espírito da personagem, desde o segundo em que começa a narrar a história até ao momento em que atinge impecavelmente aquela nota final de ”The Bells Of Notre Dame”.

Cada uma das personagens deste filme tem um ”quê” acerca de si que as torna especiais, das melhores da Disney. Quasimodo com a sua inocência e a sua bondade infinita, Esmeralda com a sua coragem e determinação, Phoebus com a sua fidelidade aos seus princípios e o seu sentido de justiça. Frollo não possui qualidades e é por isso que se destaca como um dos maiores vilões da Disney (a cena em frente da lareira é o suficiente para justificar esta minha opinião).

Fiquei surpreendida quando vi o filme pois foge bastante à norma que rege os filmes da Disney, que por norma são tão mais leves e mais fáceis de ver. Mas não é isto que tira qualidade a The Hunchback Of Notre Dame, pelo contrário, acho que grande parte da sua genialidade está precisamente aí: pensar ”fora da caixa”, inovar, fazer algo diferente. Pode não ser o mais indicado para o público-alvo da Disney, mas resulta de qualquer das formas. Para mim, é dos filmes mais interessantes do estúdio por explorar território controverso.

”Quem é o monstro, e o homem quem é?”. Penso que todos aprendemos um pouco com este filme, que é um dos mais subestimados da Disney, mas um dos melhores. A quem viu em criança e não gostou, aconselho a ver agora. Posso assegurar-vos que irão ver o filme de um prisma totalmente diferente e irão, certamente, compreendê-lo muito melhor. A quem ainda não viu de todo, vejam, pois vale totalmente a pena.

Trailer | The Hunchback Of Notre Dame

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