Dos Quadradinhos à Grande Tela Rubricas

Futebol, segundo Captain Tsubasa

Captain Tsubasa

Normalmente, neste meu espaço pessoal de crónicas, costumo deixar transparecer alguns detalhes sobre a minha personalidade. Não é algo de novo, e essa tendência não vai mudar do dia para a noite. Pois bem, os meus amigos mais próximos sabem de uns detalhes da minha pessoa que ainda permanecem secretas, mas que vos vou revelando aos poucos. Ora aqui vai mais uma:

Não sou fã de desporto.

Sei que pode parecer um sacrilégio dizer isto quando o desporto cada vez mais faz parte das nossas vidas diárias, quer no sentido lúdico, na ideia de praticarmos desporto para melhorar a nossa saúde e bem-estar, quer no sentido social. Mas tenho as minhas razões:

  1. Não é a minha paixão inata. Existe aquele fanatismo pelo mundo do desporto, qualquer que seja a modalidade, e o vocabulário já faz parte da nossa convivência social. Quem já não esteve numa mesa de esplanada com amigos em que o tema de conversa é, predominantemente, desporto? É compreensível que esses grupos de amigos possuam uma paixão bem enraizada pelo desporto, e aceito isso de bom grado; no entanto, é uma área de interesse que nunca me puxou. Consequência: há sempre alguém num grupo que fica a “olhar para ontem”;
  2. Sou um verdadeiro azelha no desporto. Pode parecer brincadeira porque, se não temos jeito numa coisa, teremos jeito noutra. Bem adorava que tal fosse no meu caso, mas não me dou bem fisicamente com qualquer área (tirando a natação, se bem que já não pratico há anos).

Infelizmente, das modalidades que mais se falam, futebol é a modalidade que mais está em voga. E vemos isso no fanatismo dos grandes campeonatos anuais. Acontece que este ano calhou o evento do Mundial na Rússia. Posso não gostar de praticar ou falar sobre futebol ou desporto, mas isso não significa que não deixe de apreciar um ou dois jogos.

Pois bem, ao mesmo tempo que está a decorrer este evento, os fãs de anime têm outro motivo para poderem gozar desta época desportiva com o casamento entre o melhor dos dois mundos: Captain Tsubasa.

Este trata-se de um “clássico” na vertente anime. Pode não ter as sequências de ação over-the-top de Dragon Ball ou o impacto emocional de Fullmetal Alchemist: Brotherhood, ou mesmo uma história repleta de intriga e twists de Death Note, mas Captain Tsubasa não deixou de marcar a indústria e a comunidade na sua estreia. Para quem não sabe do que estou a falar (o que é duvidável), Captain Tsubasa (conhecido em águas lusas como Oliver e Benji), acompanha as aventuras de Tsubasa Oozora (Oliver Tsubasa, como é conhecido cá em Portugal), desde os seus sonhos futebolísticos desde tenra idade até chegar ao circuito profissional das grandes equipas europeias. Neste trajeto, Tsubasa vai criando laços de amizade e rivalidade com os vários jogadores com quem vai cruzando na sua jornada, desde o guarda-redes Genzo Wakabayashi (Benji Price), o ponta-de-lança Kojiro Hyuga (Mark Landers) ou o médio Taro Misaki (Toby Misaki), entre outros.

Sim, as várias adaptações apanharam aquela má fama de projetar os seus personagens com feitos sobre-humanos (uma bola a tomar a forma de uma azeitona? Ilustrar a tática da gaiola ao desenhar, literalmente, uma gaiola?) ou mesmo o ritmo demasiado lento (corre o meme que, desde um jogador chutar a bola e marcar, a série ainda passa por flashbacks e uma temporada filler), além de uma inconsistência gráfica (fica a ideia de que os jogadores percorrem uma colina de quilómetros infindáveis em vez de um campo de futebol normal).

Apesar disto tudo, a qualidade de Captain Tsubasa passa na forma de como retratam os vários intervenientes das séries. Por exemplo, o caso de Kojiro. Este é retratado como um jogador violento, capaz de jogar sujo para atingir a vitória. Os seus comportamentos podem não ser os melhores em termos de fair-play, mas este vê o futebol como uma forma de conseguir sustentar a sua família carenciadas. Taro gosta imenso de futebol, mas nunca fica num só local visto que acompanha o seu pai, um pintor viajante, para os vários cantos do Japão. Tsubasa já é mais direto nas suas intenções, movido por uma paixão sem limites pelo futebol, procurando sempre por novos adversários e, assim, melhorar as suas táticas de jogo. Em Captain Tsubasa, nunca há um herói ou um vilão; existe um jogador que encontra a sua razão de ser no futebol, a sua paixão incondicional.

Apesar de já terem passados imensos anos, e de constantes remakes que dão uso aos novos estilos de animação, e de a história se encontrar praticamente imaculada, existe sempre aquele apelo, aquela nostalgia, de vermos Tsubasa e os seus amigos a trocarem passes de bola e marcarem golos das formas mais over-the-top que consigam imaginar. Por vezes, não é preciso gostar de futebol – ou de desporto – para se poder apreciar as partidas. E é essa a lição que levo de Captain Tsubasa. Uma série de anime passada no mundo do futebol que, ainda hoje, não me canso de ver.

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