Cinema Críticas

Crítica: Beirut (2018)

beirut

Título: Beirute – O Resgate
Título Original: Beirut
Realizado por: Brad Anderson 
Elenco: Rosamund Pike, Jon Hamm, Mark Pellegrino, Dean Norris
Duração: 1h49m

Basta-nos uns segundos de trailer para perceber que Beirut reúne todos os ingredientes para um filme de ação. Um daqueles “bolos” de domingo à tarde com espiões e agentes secretos, que aguça e delicia o espectador que aprova este tipo de produções.

A fasquia é elevada. Temos em mãos uma peça de Tony Gilroy, argumentista por nós conhecido à custa de trabalhos tais como House of Cards, Nightcrawler ou Michael Clayton. Ora, se a “marca de água” está lá, esperamos o mesmo requinte cinematográfico. Temos os ingredientes e as expectativas começam a trabalhar, mas infelizmente Beirut fica-lhes um bocadinho…aquém.

Sabemos que é difícil criar algo “novo” hoje em dia. O “novo”, no cinema, tornou-se uma verdadeira missão “quase” impossível. E a verdade é que não estamos perante um filme que se possa considerar mau. Nem o elenco permite que tal aconteça. Jon Hamm (Mason Skyles) será sempre o carismático americano a que estamos habituados e Rosamund Pike (Sandy Crowder) encaixa muito satisfatoriamente nesta corajosa e destemida personagem do jogo de espiões que nos é apresentado.

Palco: Guerra Civil Libanesa, anos 80. Encaixar-se num plano histórico é sempre inteligente. E Beirut recria uma época e um contexto histórico-políticos, numa narrativa fluída e sem grande fogo de artifício – (o trabalho de filmagem recorre unicamente a um equipamento técnico de mão de 75mm, com a intenção de criar efeitos sujos e lúgubres).  Na minha opinião esta é uma decisão ousada e interessante, que pode não agradar a todos, mas que sem dúvida é astuta e inteligente. A tal questão do criar “novo” dentro do “novo”, ainda nem nem sempre possa ser uma experiência de visualização agradável para o espectador.

Em 1982, dez anos volvidos, Beirut está em ruínas. E o antigo diplomata, a braços com problemas com o álcool (Mason), é chamado pela CIA para negociar uma eventual libertação de um dos seus ativos que fora feito refém por um grupo de rebeldes ocupantes do território palestiniano.

O filme foi quase todo filmado numa cidade em Marrocos, Tânger, e uma das grandes proezas de Brad Anderson é a de conseguir disfarçar aquele que foi um orçamento relativamente “modesto”, optando por uma abordagem mais simples e autêntica, quase ao estilo de documentário. E nisso foi bastante auxiliado pela cinematografia polarizante de Charpentier, garantindo um ambiente com contraste luminosos numa atmosfera sanguinária e bélica.

Um dos outros pontos fortes do projeto é mesmo Rosamund Pike. A feroz operativa da CIA, que realça o papel da mulher numa atmosfera de guerra. Na minha opinião é sempre muito importante haver uma figura feminina de fortes dimensões, que “necessita de ser duplamente mais forte que qualquer homem”, num festival de testosterona. E depois, Jon Hamm…

Mas…precisamos de falar daquilo que está menos bem, e que sem dúvida pesa na opinião final. E que sem dúvida é a de que este é só mesmo mais um filme de ação/espionagem, que daqui a alguns tempos estaremos certamente a acompanhar numa estação televisiva generalista, num domingo à tarde.

Em primeiro lugar, sofre muito de dois efeitos: primeiro, o efeito pastilha elástica. O filme não tem pressa, não tem que ter. Mas dá a sensação que, a dada altura, se vai mastigando em demasia. Ficamos sem perceber se quer criar uma roda de “charadas” para um público mais audaz a nível de inteligência, mas mesmo que assim seja, cai na fatalidade de se auto-desmascarar e chega mesmo a aborrecer e ser previsível. Não fosse a fantástica jornada de Jon Hamm (falamos da sua representação), que se traduz numa personagem altamente dedicada, quando poderia ter sido só mais um penoso cliché…

E por falar em clichés…pois, temos uma repetição de cenas de ação de outros filmes do género. Muito competentes, um trabalho de casa muito bem feito. Mas que já todos nós vimos nalgum lado.

Como tal, Beirut não é um excelente filme, mas está bem longe de ser um mau filme. É pena que surja num contexto onde já muitas metragens semelhantes existem, e tantas outras surgirão ainda. Ainda assim, pese alguns defeitos, tem um bom argumento e tem seguramente um bom elenco. E apesar de não agradar a qualquer palato, nas suas roupagens vintage, sem receio de adoptar uma postura diferente a nível estilístico e estrutural, entretém-nos com a devida elegância e inteligência.

O que lhe fica a faltar, faltará sem dúvida a muitos outros. Porque hoje em dia, no que ao cinema diz respeito, é preciso fazer muito mais do que MUITO, para nos deixar impressionados.

Trailer – Beirut

 

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