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Westworld – 2×09/10 – Vanishing Point/The Passenger

ESTE ARTIGO PODE CONTER SPOILERS!!!

Westworld é uma daquelas séries que desperta algo em nós, emoções fortes, reviravoltas loucas e um enredo de fazer inveja. Westworld aproxima-se da perfeição ao longo de duas temporadas lindamente executadas, com um elenco de luxo e uma equipa trabalhadora e esforçada. Infelizmente, a série encerrou a sua segunda temporada esta semana, por isso vamos analisar os últimos dois episódios aqui.

2×09 – Vanishing Point

Westworld delicia-nos uma vez mais com um episódio repleto de drama e momentos de cortar a respiração, onde os protagonistas sentem cada vez mais pressão e o enredo se desenvolve para um final explosivo! Vanishing Point, lançado na semana do Dia do Pai nos Estados Unidos, mostra o seu tom mais parental e íntimo. Seguimos o enredo de Man In Black (Ed Harrise a sua filha Emily (Katja Herbers), enquanto esperam por uma equipa de salvamento da Delos. Apercebemo-nos que Ford (Anthony Hopkins) finalmente se infiltrou na mente de William, e este vê uma armadilha em tudo o que observa. Apesar de Emily tentar reestabelecer laços, William afasta-a com palavras duras e frias. Para terror de Man In Black (e da própria audiência), está tão vidrado no jogo final de Ford, que acaba por matar a sua própria filha, pensando que esta era uma host. É difícil de digerir este momento, e Ed Harris vende-o na perfeição. Ao cair em si, vemos pela primeira vez um Man In Black completamente destroçado pelas suas próprias ações. Num ato de desespero final, William procura pelas respostas do porquê das suas ações, e começa a questionar a sua própria consciência e existência. Será que o destino estava traçado para William desde o início?

Ford continua a acompanhar Bernard (Jeffrey Wright) para onde quer que o host se dirija. Após o massacre, a dupla de criadores deixa uma mensagem de Ford para Maeve (Thandie Newton), antes de deixarem a Mesa. Uma vez mais, vemos os laços paternais explícitos no episódio, onde Ford admite ter criado Maeve para a tornar a sua predileta. Assim como Arnold tinha um favoritismo sobre Dolores (Evan Rachel Wood), Ford criou Maeve para amar. Poderá ter sido por ciúmes que sentira pelo seu parceiro, ou mesmo por se sentir sozinho e não ter ninguém para amar; independentemente das razões, vemos pela primeira vez um Ford completamente dominado pelas suas emoções (mesmo que tente escondê-las), quando se depara com a sua “filha” às portas da morte. Como Ford explica a Maeve, a host fora programada para deixar o parque e ser livre no mundo exterior; mas decidiu voltar atrás para resgatar a sua filha. Tal como Maeve voltara para salvar a filha, Ford volta para salvar a sua. É por estes momentos que fico completamente rendido a Westworld: é quando um personagem duro, frio e completamente racional (quase mecânico) liberta todas as suas emoções e mostra a sua humanidade num ato que quebra a natureza do próprio personagem, que a série choca, pela positiva, o espectador. Já nos apercebemos que as relações familiares transportam um peso enorme em Westworld e não é fácil deixar para trás alguém que amamos.

Dolores também tem um papel a desempenhar neste episódio. A host mais antiga do parque viaja com Teddy (James Marsden) e a sua trupe em direção ao Valley Beyond. Após uma emboscada por membros da Ghost Nation, Dolores e Teddy são os únicos sobreviventes. As emoções voltam a dominar o episódio, numa cena serena e tranquila. Dolores e Teddy partilham uma história de amor juntos que, apesar de ser um programa impingido a ambos os hosts, é algo que partilharam toda a sua existência. Dolores é talvez a host que mais sacrificou em busca da sua causa, e Teddy apercebe-se disso. O cowboy sabe que, enquanto respirar, nunca será verdadeiramente livre, pois o seu ser está unido com o de Dolores. Teddy consegue distinguir o bem do mal e reconhecer que, apesar de Dolores ter alterado a sua codificação, lá no fundo, ainda tem bom coração, e opta por não seguir Dolores no seu caminho de violência e destruição. Num momento final de alívio e desespero, ganha consciência das suas ações enquanto “Dark Teddy”, e despede-se de Dolores, uma última vez.

Vanishing Point está muito perto de ser um dos melhores episódios da temporada, e um dos mais emocionais também! Toca em temáticas fortes sobre os laços familiares e consegue chocar o espectador, tanto pela positiva como pela negativa.

2×10 – The Passenger

O final está aqui! Por onde começar? Desde o primeiro episódio da série que Westworld me fascinou. É incrível como se pode pegar em algo tão banal e atribuir um nível filosófico, humano e pessoal tão profundo. Na era das adaptações, reboots e remakes, é raro uma série me conseguir espantar e deixar tão deslumbrado. Ao longo das últimas 9 semanas assisti intensamente aos meus personagens favoritos passarem por desafios constantes, senti as suas emoções, as suas dores, sorri nos seus momentos alegres e fiz luto quando a esperança os abandonou; saltei de adrenalina nas maravilhosas cenas de ação e senti o peso das perdas de todos. Sempre que acabava um episódio não conseguia parar de discutir sobre o mesmo, sempre empolgado para ver o próximo, e para certificar se as minhas teorias mais loucas estariam corretas. Ao longo das últimas 9 semanas vivi Westworld, e nada me poderia ter desiludido mais do que o grand finale da segunda temporada, The Passenger. É difícil adorar e idolatrar algo durante tanto tempo, apenas para no final levarmos uma “chapada de luva branca” com The Passenger.

Desde o início que o episódio parece demasiado apressado. Exatamente como na sétima temporada de Game of Thrones, The Passenger perde todo o seu efeito surpresa. Torna-se demasiado rápido e tenta apressar o enredo de modo a satisfazer as audiências. O fator “perigo” é perdido e é substituído pela previsibilidade dos acontecimentos. A série trabalhou tanto para manter um nível intelectual e imprevisível tão elevado que se excedeu a si mesma e saltou para o patamar do absurdo. Westworld não é uma série de acasos, e todos os acontecimentos estão extremamente bem explícitos ao longo das temporadas, sejam eles da primeira ou da segunda. O último episódio da presente temporada tem “mais olhos que barriga”, e tenta a toda a força obrigar o espectador a engolir todos os seus disparates.

Apesar das performances manterem o seu nível de excelência, The Passenger não é nada mais do que uma compilação de deus ex machina* que baixa a qualidade do episódio a um nível significativo. Westworld sempre foi uma série que brinca com a mente, tanto com a dos hosts como com a nossa, mas tem sempre um fundamento e uma explicação para os seus acontecimentos e reviravoltas inesperadas. A série sempre tentou brincar com o impossível, mas sempre com os pés bem assentes na terra. O que é que The Passenger tem de mal? Bem, perdoem-me a rampage de spoilers: um rasgo gigante a meio do céu que serve de passagem para uma utopia cibernética; a aliança mais improvável do parque: Dolores e Man In Black; a reviravolta mais ridícula que Westworld nos poderia ter apresentado: Hale está morta, e a mente de Dolores está num corpo sintético da chefe da Delos, e consegue manter um papel super fiel ao de Hale até ao momento exato; Stubbs, sem qualquer premonição, sem qualquer pista ao espectador, revela ser um host consciente, encarregue de proteger todos os outros hosts do parque; já para não falar do confronto bíblico entre Satanás (Clementine (Angela Sarafyan)) e Jesus Cristo (Maeve), que foi apenas uma desculpa para matar todos os hosts que se dirigiam para a “terra prometida”.

Fora do contexto profissional, e isto tem mesmo que ser dito: o que raio se passou para o episódio mais importante da série ser tão mau?!

Para além de ignorar completamente o desenvolvimento e o consolidar o enredo da segunda temporada inteira, The Passenger atira areia para os olhos do espectador. Porquê? Westworld nunca fora uma história de acasos, e no episódio final desta temporada, os acasos são utilizados para amarrar “pontas soltas” de enredo. Porquê tanto alarido sobre a “terra prometida” e o episódio dedicado a Akecheta (Zahn McClarnon), se no final a maior parte dos hosts vai morrer? Como é que a Delos não sabia o que se tinha passado no Valley Beyond quando Karl Strand (Gustaf Skarsgård) chega a Westworld, mas estava presente e foi responsável pelo massacre dos hosts? No primeiro episódio da temporada vemos Teddy, com a cabeça perfeitamente intacta, a flutuar juntamente com inúmeros hosts, e Teddy morreu extremamente longe do local do dilúvio! Qual o papel de Karl Strand e de toda a sua equipa no enredo de Bernard? Entre muitas questões que são difíceis de enumerar devido à sua quantia, a mais importante para mim é esta: QUAL ERA O JOGO FINAL QUE FORD TINHA PLANEADO PARA WILLIAM?! Sinceramente, isto foi o que me irritou mais no episódio. Um dos maiores (se não o maior) enredos da temporada, desperdiçado sem dar uso nem explicação e atirado fora como um farrapo velho. “William é um host, e Ford queria mostrar-lhe isso?” Tretas! O final de Ford e do seu jogo são tão inconclusivos como o próprio episódio, e o único ponto positivo do episódio, para além das performances do elenco, é a cena pós-créditos.

Westworld conseguiu juntar a sétima temporada de Game of Thrones e o filme Star Wars: The Last Jedi num espaço de 90 minutos. O episódio não é nada mais do que uma salgalhada de acontecimentos ao calhas, sem um motivo aparente para o desfecho dos mesmos. The Passenger ignora completamente o enredo que fora construído durante a toda a temporada e tenta ser demasiado inteligente para o seu próprio bem.

Gostaria apenas de levantar o chapéu a três atores em especial, sendo eles Evan Rachel Wood, Ed Harris e Jeffrey Wright pelas fantásticas performances ao longo da série!

*”O termo refere-se ao surgimento de uma personagem, um artefato ou um evento inesperado, artificial ou improvável, introduzido repentinamente em uma trama ficcional com o objetivo de resolver uma situação ou desemaranhar um enredo.” – Wikipedia

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Westworld remata uma temporada esplêndida da pior das maneiras. Apesar de The Passenger ser o pior episódio da série até ao momento, a segunda temporada continua a ser magnífica.

  • Westworld - 2x09 - Vanishing Point
    90%
  • Westworld - 2x10 - The Passenger
    20%

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