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The Jungle Book e o poder da aceitação

Se há clássico que sempre me suscitou interesse foi The Jungle Book. O romance de Rudyard Kipling sobre um menino que cresceu na selva, criado por lobos, e que é vítima de uma aventura maior que a vida, assim que se vê perseguido por um tigre sedento por carne humana, já teve imensos remakes, adaptações animadas e alguns musicais. A história pouco se altera, mas a magia da sua mensagem permanece intacta.

The Jungle Book

The Jungle Book, cujo remake live-action da Disney estreou há já dois anos, é uma viagem sem precedentes sobre o poder da aceitação. Mowgli (Neel Sethi) é um rapaz humano que, desde tenra idade, é educado pela Lei da Selva, onde o selvagem se embrenha na sua conduta e nos seus valores, longe de qualquer influência da civilização. Foi resgatado por Bagheera, uma pantera-negra sensata, que encontrou numa alcateia de lobos um refúgio para esta “cria” invulgar que caminha sobre duas “patas”. Mowgli não tem a aparência de um lobo, muito menos parece possuir características importantes à sobrevivência das condições selvagens do meio. Não tem o corpo coberto de pêlos, nem tem dentes ou garras afiadas; não tem a rapidez de corrida de uma chita ou uma carapaça para se proteger como uma tartaruga; mas Mowgli tem algo que transcende o animalismo: o intelecto. Desde pequeno que Mowgli, para competir com os seus irmãos de quatro patas, utiliza a inteligência e astúcia para conseguir superá-los nos desafios do dia-a-dia. Algo que, para todos os restantes animais, é visto como rebeldia ou pouco comum numa sociedade que se encerrou em si mesma para evitar que os perigos do exterior interferissem na sua vivência.

The Jungle Book

The Jungle Book é um filme extraordinariamente belo, que suscita os valores mais importantes do ser humano num conto dominado pelo meio selvagem. Prepararmos os nossos filhos para as adversidades sociais que enfrentamos todos os dias é um passo importante na sua educação. O mundo não é colorido, como todos nós sabemos, e a nossa experiência em lidar com as dificuldades é essencial para que consigamos preparar minimamente as futuras gerações para enfrentar o mundo lá fora. Mas, acima de tudo, devemos educar os nossos rebentos para a aceitação. Mowgli é um forasteiro dentro de uma sociedade fechada; um alienígena que é visto com desdém porque conseguiu infiltrar-se num meio que sempre se manteve fiel ao seu conjunto de regras. Ele veio a desafiar a própria natureza destes indivíduos: protegemo-lo ou deixamo-lo à mercê do seu destino?

Os contos da Disney foram sempre embelezados por uma mensagem de aceitação. E estes contos tornaram-se intemporais precisamente porque ensinam a todas as gerações que ninguém deve ser posto de parte independentemente de possuírem características que fogem do que consideramos o “normal”. A sociedade comporta-se precisamente desta forma e, tal como muitos outros clássicos da Disney, The Jungle Book é um relato incrível de que ser-se diferente é, de facto, algo muito especial. Mowgli é um exemplo prático de como é difícil inserir-se numa comunidade que padroniza imenso os seus valores. Há, inclusive, algumas cenas interessantes onde os animais questionam-se a que espécie pertence o pequeno humano. Olham com desdém para as suas engenhocas e não se intrometem quando Shere Khan (Idris Elba) ameaça caçá-lo e devorá-lo. Apesar da sua família adoptiva ser unida e proteger os seus, independentemente da espécie, ela impinge um conjunto de regras para tentar forçar Mowgli a ser igual a si mesma. Este aspeto é intrínseco da sociedade em que nós, enquanto seres humanos, nos inserimos.

The Jungle Book

A Lei da Selva em The Jungle Book é um retrato fictício do conjunto de normas que estipulamos para viver em comunidade. Regras essas que influenciam o nosso comportamento e que tentam condicionar a nossa naturalidade. No entanto, por muito que estas normas sejam impulsionadas por um instinto protetor, acabam por limitar os impulsos criativos de Mowgli. A liberdade de expressão foi sempre uma das marcas mais características da nossa espécie; a necessidade de tentarmos criar algo que nos desafie e nos torne únicos no meio de tantos outros. Em The Jungle Book isto toma proporções que levam o público mais juvenil a desenvolver um carinho especial para serem fiéis a si próprios e a apostar na sua própria originalidade.

Mas a maior questão que The Jungle Book defende é precisamente a de que devemos ser sempre naturais. Não devemos ocultar esta natureza apenas porque a sociedade não nos aceita como somos. Mowgli passa por inúmeras aventuras perigosas, mas encontra nos seus companheiros Baloo (Bill Murray) e Bagheera (Ben Kingsley) um abrigo onde pode ser ele próprio sem condicionantes. É esta mensagem que brilha e que dá pujança ao filme gradualmente, explorando as vicissitudes do jovem rapaz enquanto indivíduo condicionado por o que o rodeia. Vemos Mowgli a escalar uma ravina com os seus “truques”, vemo-lo a enfrentar um tigre sem medo, a salvar um elefante, a cavalgar uma manada de búfalos e, no entanto, estes feitos começam a ser gradualmente reconhecidos pelos seus companheiros. Num misto de deslumbre e cepticismo, Baloo e Bagheera entendem que Mowgli é mais especial do que aparenta.

É o facto de sermos todos especiais à nossa maneira que nos leva a encontrar o nosso lugar na sociedade, seja ela mais restrita do que o habitual. As nossas diferenças são precisamente aquilo que nos devia unir e não separar e The Jungle Book é um exemplo bonito de como tudo é possível quando nos revelamos a quem nos rodeia. E, independentemente das adversidades que nos são impostas é na esperança de encontrarmos alguém que partilhe das nossas diferenças para estarmos automaticamente integrados numa sociedade. Seja ela qual for.

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