Dos Quadradinhos à Grande Tela Rubricas

Existe algo de mágico em “Your Name”…

Your Name

Eu vejo anime.

Outrora, estas três palavrinhas significavam tabu no seio da convivência social. O anime não era exatamente para todos os gostos, algo que era exclusivo apenas para alguns. Só quando  esta indústria atingiu o mainstream no Oeste é que encontrou o seu lugar, despertando o interesse de curiosos que se aventuraram a ir mais longe e a descobrir pérolas obscuras. No entanto, ainda existem pessoas por aí que não dão valor ao anime como aos filmes ou séries televisivas ocidentais. No meu caso pessoal, parte dessas pessoas incluem os meus pais. Sim, eles gostam quando lhes dou as minhas recomendações pessoais de filmes ou séries americanas. Mas quando me apanham a ver um anime, a pergunta que me fazem anda na seguinte onda:

Já não és velho demais para ver desenhos animadas?

Enraivecido? Um pouco. Mas engulo sapos e deixo andar. No entanto, por vezes recomendo filmes de anime aos meus pais e simplesmente não resistem. Esta segunda-feira passada – que coincidiu com o aniversário da minha mãe – dei-lhes a mostrar um dos filmes de anime mais marcantes desta década: Your Name! Mas antes de chegar a este feito pessoalmente histórico, permitam-me regressar um pouco atrás no tempo.

Fins-de-semana dão aquele descanso necessário após uma semana a trabalhar no duro. Essa é uma verdade inegável. No entanto, caso não hajam programas para nos entreter, dois dias de pausa conseguem ser bastante aborrecidos. Neste caso em específico, eu e a minha família, passado algumas boas horas em volta do televisor da sala de estar, costumamos passar o tempo com os filmes que vão passando nos canais generalistas. Aos domingos, em específico, costumamos visitar a nossa avó, para um lanche semi-ajantarado e também para termos aquele serão. Bem, digamos que a oferta nesse dia não era exatamente muito convidativa para um serão familiar. Por isso, aventurámo-nos naquele “mítico” canal televisivo chamado RTP2. Uma boa escolha, visto que, nessa altura, estava a passar, claro está, um filme do género anime. Neste caso em particular, estava a passar o filme A Colina das Papoilas, de Goro Miyazaki, filho do lendário Hayao Miyazaki. Ao contrário de muitas séries ou filmes de anime a que estou habituado, A Colina das Papoilas é uma história doce de um romance entre dois estudantes antes dos Jogos Olímpicos de 1964, em pleno pós-Segunda Guerra Mundial, enquanto travam uma batalha para impedir a demolição de um edifício antigo.

Não vos vou falar deste filme em particular, mas menciono que, ao contrários dos típicos “filmes-pipoca” que assaltam os canais generalistas (no caso da SIC, o filme do final da tarde foi um Deadpool severamente censurado), foi uma espécie de lufada de ar fresco ver os meus pais bem atentos perante um filme da Studio Ghibli desde o início até ao fim (e sem pausas também!). Momentos após ter chegado a casa, lancei o seguinte desafio à minha mãe:

  • Mãe, gostaste do filme?
  • Sim, gostei.
  • Não te importarias que eu pusesse outro filme deste género?
  • Não me importo.
  • Felizmente, sei exatamente o filme. E acho que vais gostar.

E assim, consegui convencer os meus pais a ver Your Name! E tal como me surpreendi pelo seu agrado para com A Colina das Papoilas, também fiquei surpreso por eles terem gostado da minha escolha pessoal. O que, de certa forma, confirma algo que tenho andado a matutar sobre o género em específico – e, de certa forma, sobre a indústria audiovisual.

Claro, alguns de nós gostam de ver filmes ou séries baseando-se pura e simplesmente nos cheap thrills ou explosões a rodo. No entanto, que serve tanta estética se a história não serve? Estamos a falar de uma “nova” indústria audiovisual que está a conseguir conciliar os cheap thrills com uma história que merece ser contada e partilhada por todas as pessoas em todo o globo. O mesmo princípio pode ser aplicado ao anime em si. Por vezes, somos presenteados  a obras com uma arte visual de encher os ecrãs de todos os tamanhos, mas que de nada servem se não tiverem uma história convincente a acompanhar. E por vezes, com filmes como os que estamos habituados com o Studio Ghibli ou com Your NameUma história “simples” sobre dois estudantes separados por grandes distâncias e circunstâncias de vida e que, de repente, vão trocando de corpos de forma aleatória e que têm de tentar disfarçar esta circunstância dos seus amigos e familiares, ao mesmo tempo que tentam solucionar este mistério?

Por vezes, a grande magia reside na simplicidade. E isso mesmo se pode aplicar a Your Name. Um filme que, sem pertencer ao Studio Ghibli, não deixa de ser uma das melhores obras-primas de todos os tempos (superando Spirited Away, de Hayao Miyazaki, em termos de receita) graças à simplicidade da sua história. E é isso mesmo que marca o filme pela diferença.

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