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Sense8: o sol quando nasce é para todos!

PODERÁ CONTER SPOILERS SOBRE TODOS OS EPISÓDIOS! 

Se quisermos ser específicos e concisos, Sense8 enquadra-se nos géneros de drama e ficção científica mas, se por outro lado, quisermos dar apresentar uma visão geral e aconselhá-la a um amigo, podemos classificá-la como uma história de amor. Para situar aqueles que não conhecem nada desta história, retrata um grupo de oito pessoas, nascidas no mesmo dia e em países distintos que, de repente, se vêm ligadas entre si através de corpo e mente sem, no entanto, nunca se terem conhecido.

Cada um deles possui uma habilidade específica que, ao se materializarem, conseguem partilhá-las entre si. Já imaginaram conseguirem dançar contemporânea sem nunca terem tido qualquer tipo de formação? Ou até criarem um prato digno de um chef com estrelas Michelin sem saberem estrelar um ovo? É mais ou menos isso que acontece com este grupo. Mas mais do que isto, eles partilham sentimentos e sensações entre si, e aqui está um dos pontos mais fortes da série. Oito corpos, oito maneiras de pensar e de agir, que em situações de perigo ou carência, se ligam de uma maneira tão forte que os seus corações começam a bater ao mesmo ritmo.

Isto tudo poderia ser feito através de pessoas com a mesma etnia, a mesma religião, a mesma orientação sexual, mas o impacto da série vai muito para além destes apontamentos. Capheus (Toby Onwumere) é de raça negra, vivendo algures no continente africano em com condições precárias; Nomi (Jamie Clayton) é uma jovem aparentemente normal, com uma educação privilegiada mas que outrora já foi um rapaz; Sun (Doona Bae) é uma mulher oriental, de uma família rica e poderosa, mas que se envolvida nos esquemas do irmão malvado; Lito (Miguel Ángel Silvestre) é um ator extremamente famoso, que vive escondido no “armário” sem coragem para assumir a sua homossexualidade… todos eles lidam com determinados aspetos que fazem com que vivam, por si só, neste enredo acima da conexão que estabelecem entre si.

Cada um deles vai aprendendo na sua jornada, enquanto pessoa e enquanto grupo, e nós espectadores, vamos aprendendo e refletindo com eles, no meio de discursos maravilhosos que dão vontade de partilhar no nosso mural do Facebook. Sempre que se entreajudam quando algum deles precisa, somos mergulhados num autêntico hino ao amor e à amizade que nos faz pensar no que nos rodeia. Todos temos, ou pelo menos devíamos ter, um núcleo forte a quem recorremos quando a vida parece não correr tão bem, ou quando queremos partilhar algo bom que nos aconteceu e este grupo fá-lo de uma maneira tão bonita e tão genuína que damos por nós a pensar em como devemos valorizar aqueles que mais amamos.

A verdadeira violência, a violência que percebi que era indesculpável, é a violência que fazemos com nós mesmos, quando temos medo de ser quem realmente somos.

A sexualidade e a orientação sexual é algo que tem sido abordado ao longo do tempo nos mais diversos filmes e séries, mas nenhuma o tinha feito até então como Sense8. Aqui, aprendemos que o pior que podemos fazer é tentar mudar aquilo que somos, aquilo que sentimos, simplesmente para sermos aceites numa sociedade que, ainda que tenha vindo a mudar ao longo do tempo, continua castradora e a tentar prender-nos numa caixa que nos formata para sermos todos iguais. Chega disso! Se o nosso vizinho António se veste de mulher porque se sente melhor assim, força amigo! Se a rapariga que nos costuma receber no café com simpatia é casada com outra mulher, porquê mudar a forma de ser para com ela? Se o rapaz que andou connosco na primária e se isolava porque não se sentir enquadrado, agora é uma rapariga que sorri para a vida, quem somos nós para criticar e comentar? Temos de aprender a praticar o amor em detrimento do ódio gratuito e, neste aspeto, a série das manas Wachowski é um ensinamento.

Já todos questionamos o que fazemos neste mundo, quem somos realmente e o nosso propósito. Já todos nos sentimos deslocados nalgum momento da nossa vida e só quisemos que alguém nos desse a mão e dissesse “Estamos juntos“. Já todos nos sentimos desamparados e alguém nos mostrou que há-de ficar tudo bem. A forma como todas as personagens foram abandonando o individualismo para abraçar o “todo” é inspiradora na sua conceção.

É preciso coragem para ver coisas tão terríveis acontecerem, levantar todos os dias e conseguir ver o que ainda é bonito.

A mensagem é clara e forte: a união faz a força… sempre! Todos nascemos da mesma forma, todos respiramos de forma idêntica, todos temos medos e sonhos. A maior parte, ao longo da sua existência, vai esquecendo isso e vivendo a olhar para seu umbigo dificultando, não só a vida dos outros, como essencialmente a sua própria. Quem tem a coragem de viver para os outros e de amar como realmente se deve amar é ostracizado e criticado. Quem tem a ousadia de ouvir o coração em detrimento da razão é louco. E para quê? Vamos todos morrer, mais cedo ou mais tarde. No final, acabamos todos da mesma maneira e andamos aqui a perder tempo com mesquinhices, quando é tudo tão mais bonito quando nos damos uns aos outros.

A tarefa de escolher o título para este texto de reflexão não foi fácil, mas depois de o escolher, não poderia fazer mais sentido. “O sol quando nasce é para todos” é a mais pura das realidades. Não importa se és gay, transsexual, negro, asiático, católico ou ateu. Tens direito à tua liberdade pessoal, a sentir como outra pessoa qualquer, a amar sem medos do que poderão dizer. Por muito que às vezes possa parecer difícil, lembra-te que há sempre alguém como tu. Alguém com os mesmos medos, os mesmos sonhos, alguém que discutiu com os pais porque estes não entendem, que se quer despedir do trabalho que lhe dá dinheiro para procurar aquele que o fará realizar-se.

Não percas tempo a tentar esconder-te, a tentar fazer o que acham que é certo para ti. És o dono da tua história e tens a oportunidade de tornar este caminho que todos fazemos de forma mais ou menos parecida, mágico e único. Não tenhas medo de ser quem és. Abraça os teus amigos. Diz que amas os teus todos os dias. Porque, no fim de contas, o amor vence tudo e a vida passa num minuto, meus amigos!

Podem ler a Mini-Review ao episódio final de Sense8, aqui.

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