Dos Quadradinhos à Grande Tela Rubricas

A importância de Sense8 na nossa sociedade atual

Sense8

ESTE ARTIGO CONTERÁ SPOILERS DAS DUAS TEMPORADAS DE SENSE8!!!

Esta semana revela-se como uma das mais negras para os subscritores da Netflix: Sense8, o épico de ficção científica de J. Michael Straczynski, Lana e Lilly Wachowski, vai chegar ao fim no dia 8 de Junho. Definitivamente uma das séries mais caras que a Netflix produziu até agora, esta é uma produção que marcou toda uma geração de fãs de televisão, num bom sentido. Mas como é que uma série de ficção científica conseguiu ser tão marcante?

A premissa de Sense8 anda à volta de oito estranhos – Riley Blue (Tuppence Middleton), Will Gorski (Brian J. Smith), Sun Back (Doona Bae), Nomi Marks (Jamie Clayton), Kala Dandekar (Tina Desai), Wolfgang Bogdanow (Max Riemelt), Lito Rodriguez (Miguel Ángel Silvestre) e Capheus Onyango (Aml Ameen na primeira temporada e Toby Onwumere a partir do especial de Natal adiante) – espalhados em vários cantos do mundo, ficam subitamente unidos mentalmente. Ou seja, experiências de vida, capacidades únicas, memórias e por aí fora, estão acessíveis para os oito estranhos (carinhosamente apelidados de sensates). A partir daqui, o grupo não só terá de lidar com um grupo governamental disposto a tudo para fazer experiências neles, como também terá de aprender a lidar com as personalidades e feitios entre si.

À primeira vista, Sense8 poderia ser aquela série de ficção científica banal, sem conseguir justificar o seu elevado orçamento (que claramente foi usado para os espaços cénicos exuberantes). E de facto, a totalidade da temporada inaugural foi dedicada ao desenvolvimento do grupo central (já vos falo dessa vertente mais à frente) em vez de desenvolver a intriga. Felizmente, quando a segunda temporada chegou, esta vertente foi melhor desenvolvida e explorada a fundo. E é caso para dizer que não deixa de ser um conceito interessante, repleto de twists, vilões e aliados misteriosos para justificar o binge-watch.

No entanto, a cereja no topo do bolo da série é, definitivamente, o elenco principal. Antes de me afundar no que é que faz com que o grupo funcione, permitam-me que vos apresente (ou reapresente, para quem acompanhou a série) um a um:

 

Will Gorski

Will Gorski (Brian T. Smith) é o agente da autoridade do grupo. Membro da força policial de Chicago, Will é atormentado por um caso não resolvido (que deixa bem patente nas suas capacidades como sensate). Will também possui uma mente perspicaz, sendo o primeiro a investigar o mistério relacionado com o evento que sofreu e que o uniu a mais sete estranhos espalhados pelo mundo fora. Desde uma tenra idade, Will sempre teve uma propensão para a rebeldia, tendo, na sua infância, retirado as algemas apenas com um clip de papel (o MacGyver ficaria orgulhoso). Sendo polícia, Will possui treino extensivo com armas de fogo, técnicas de autodefesa ou criação de estratégias. Dos sensates presentes, Will possui fortes relações com três em específico: Riley (com quem desenvolve um laço romântico); Nomi (juntos, conseguem montar operações para desvendar o mistério da BPO); e Wolfgang (ambos possuem treino de combate e mentes estratégicas, apesar dos seus históricos diferentes).

Riley Blue

Riley Blue (Tuppence Middleton) é uma DJ islandesa. Apesar do seu otimismo, o seu passado foi marcado pela tragédia: acreditando estar “amaldiçoada” (quando na verdade, é o seu potencial como sensate), acaba por perder a sua mãe, o seu marido e a sua filha. Com tanta tragédia junta, muda-se para Londres, onde ganha vida como DJ, e passa a consumir drogas para esquecer os seus traumas. Ainda que muitos a possam considerar como a mais “supérflua” do grupo, a verdade é que Riley pode ser considerada como a “mãe” do grupo. Quaisquer que sejam os problemas que os sensates estejam a passar, Riley está lá para os ouvir, trazendo assim uma espécie de paz de alma ao grupo. Ainda que tenha alguns bons momentos com todos, é com Will Gorski que esta se liga de forma quase instantânea, transformando-se numa relação amorosa com o passar do tempo.

Sun Bak

Existe sempre espaço para um(a) badass num grupo. Partindo desse princípio, então a sul-coreana Sun Bak (Doona Bae) é a candidata ideal. No início, era uma executiva da mega-empresa da sua família, que mais tarde viria a arcar com as culpas quando chega uma acusação de branqueamento de capitais, de forma a poder proteger o seu irmão e o seu pai. No entanto, após a morte do seu pai e inúmeras tentativas de assassinato, Sun prepara-se para executar a sua doce vingança. Apesar da sua estatura pequena e aspeto franzino, Sun é bem capaz de se defender sozinha, visto ter enveredado em aulas de artes marciais e mantido as mesmas técnicas de combate em adulta, chegando mesmo a aderir em combates clandestinos.

Nomi Marks

Nomi Marks (Jayne Clayton) é a hacktivista do grupo, dotada de uma inteligência para a tecnologia sem paralelo no grupo. No entanto, tal como foi constatado, nem tudo é o que aparenta ser. E Nomi não é exceção: durante grande parte da sua infância, Nomi era conhecida por Michael Marks, nascida como homem. No entanto, sempre se definiu pelas coisas tipicamente ligadas ao sexo feminino. Essa falta de identidade como homem fez com que Nomi fosse vítima de bullying; mas em vez de se deixar ir abaixo, tomou a decisão arriscada de mudar de sexo, completando a transição de Michael para Nomi; transição essa que teve a bênção da sua irmã, Teagan (Annie Munch), mas também a desaprovação dos seus próprios pais. As suas capacidades por detrás de um monitor revelaram-se como uma grande ajuda para os sensates, mas Nomi conta com a preciosa ajuda da sua noiva, Amanita Caplan (Freema Agyeman).

Kala Dandekar

Kala Dandekar (Tina Desai) é, sem sombra de dúvida, a pacifista do grupo. Oriunda de uma família de posses pequenas, Kala esforçou-se ao máximo para se formar na área da farmacêutica, acabando por trabalhar numa das maiores empresas da Índia. Inteligente, bondosa e igualmente bela, Kala depressa captou a atenção do filho do seu chefe, apesar da “incompatibilidade” de religiões (Kala é uma devota a Ganesh, recorrendo sempre a esta divindade quando está com sérias dúvidas). No entanto, e apesar do noivado com um dos homens mais influentes da Índia, Kala teme que esse compromisso sem amor também implique sacrificar tudo o que ela mais venera na vida, nomeadamente a sua religião e os seus pais. Como farmacêutica, Kala revela-se como uma mais-valia para o grupo, não só ao ajudar em várias questões de saúde, mas também de improvisar várias armas recorrendo a instrumentos do dia-a-dia. Kala possui boas relações com o grupo em geral, com o especial destaque a Wolfgang, que representa uma espécie de “má influência” mas que não deixa de ter um clima sedutor (não é à toa que Kala o apelida de “diabo nu”).

Wolfgang Bogdanow

The bad boy with a heart of gold. Esta é a melhor descrição que se pode usar para descrever Wolfgang Bogdanow (Max Riemelt), muito provavelmente uma das personagens mais trágicas do grupo. Desde cedo, Wolfgang cresceu dentro de uma rede criminosa alemã (muito se deve pelo simples facto de a sua família ser uma das famílias mais poderosas de Berlim). Apesar de ter todas as possibilidades de ser o próximo “Rei do Crime”, esse é um título que Wolfgang não deseja, de todo. Com uma vida inteira definida por crime, Wolfgang é geralmente reservado, raramente recorrendo à ajuda do grupo (ainda que os ajude quando eles assim o pedem). Mesmo assim, do grupo, Wolfgang possui uma melhor química com Kala (uma relação que começa com o pé esquerdo, mas que foi evoluindo com o tempo) e Lito (ao ponto de serem quase como bros).

Lito Rodriguez

Quando encontramos Lito Rodriguez (Miguel Ángel Silvestre) pela primeira vez, este está a atuar num filme tipicamente mexicano, repleto de melodramatismo e sex appeal machista. No entanto, Lito é “obrigado” a atuar dentro e fora da grande tela, uma vez que o ator guarda um grande segredo fora do círculo público: é gay. E está numa relação adorável com o seu namorado, Hernando (Alfonso Herrera), além de contar com a preciosa ajuda de Daniela (Eréndira Ibarra), sua colega de trabalho. No entanto, a sua vida muda por completo quando a sua orientação sexual é tornada pública, o que obriga Lito a tentar dar a volta por cima numa indústria que estereotipa o homossexual. Poderíamos pensar que ter um ator no grupo seria uma presença desnecessária; no entanto, as suas capacidades obtidas como ator salvaram bem os sensates em mais do que uma ocasião (além de conseguir ler as mentiras de outras pessoas), sem esquecer das suas magníficas bartending skills. Dentro do grupo, Lito possui um belo reportório com Nomi (dadas as experiências sobre a sua homossexualidade) ou com Capheus (pelo amor mútuo pelo cinema).

Capheus Onyango

Capheus (Aml AmeenToby Onwumere, na primeira e segunda temporadas respetivamente) é o caso mais inspirador do grupo. Natural de Nairobi, no Quénia, Capheus teve de aprender a sobreviver desde tenra idade, quando a sua mãe teve de ceder a sua filha mais nova para um orfanato para lhe dar uma hipótese de uma vida melhor. Um homem que venera a sua mãe e um cidadão comum acima de si mesmo, Capheus faz tudo por tudo para tentar ajudar o próximo. Por exemplo, Capheus transporta os cidadãos de Nairobi para poder obter melhores medicamentos para a sua mãe, que sofre de SIDA. Apesar das condições adversas, Capheus nunca esconde o seu otimismo para um futuro melhor para o seu povo (além de ter uma paixão ardente pelos filmes de Jean-Claude van Damme). A sua sabedoria sempre ajudou os nossos sensates quando mais precisaram. E isto sem mencionar o facto de possuir capacidades de condução sem rival.

Como podem ver, é no elenco principal – e também no elenco secundário – que Sense8 marca pela diferença. Está mais que visto que os seus personagens são diversificados em termos de cor, orientação sexual e experiências (fun fact: na vida real, a atriz Jamie Clayton é transsexual). E apesar das suas claras diferenças, existe sempre uma química palpável entre o elenco. E a série possui alguns momentos de renome que exemplificam exatamente esse ponto:

Pode ser um aglomerado de cenas simples, claro, mas não deixa de ter o seu impacto. Cada um dos sensates está isolado, cada um nas “jaulas” das suas circunstâncias. De repente, “unem-se” quando começa a sessão de karaoke ao som de What’s Going Ondo grupo 4 Non Blonds (podem recordar a icónica música aqui). Simples, mas eficaz. Mas a série, quando quer, também consegue demonstrar esta união de forma mais arrojada:

Uma cena de orgia? Arriscado. Arrojado? Definitivamente! Esta cena não é marcante pelo arrojo ou pelo sex appeal, mas sim pelo seu impacto no grupo. Por uma vez, o grupo une-se para uma sessão de união que, tanto tem de desconcertante, como hipnotizante. E calma, existe OUTRA cena de orgia mental no especial de Natal! Mas Sense8 pode ser resumido a uma das minhas cenas preferidas de toda a série:

Esta cena. ESTA CENA! Um pequeno contexto: na segunda temporada, a revelação da homossexualidade de Lito começou a causar danos na sua carreira. Todos os seus agentes cortaram relações. Lito perdeu todos os papéis que estavam anteriormente associados ao seu nome. No meio de uma depressão, Lito, Hernando e Daniela recebem um convite para a Gay Pride Parade em São Paulo, no Brasil. E é aqui que Lito lança um dos discursos mais potentes da temporada (e quiçá, da série). Vermos Lito a partilhar a sua experiência do medo de se revelar como homossexual numa sociedade que, infelizmente, teme tudo o que é estranho, o que é diferente, é preciso uma grande coragem para poder deitar tudo cá para fora, não como um desabafo com o/a psicólogo/a, mas como uma lição de aceitação, de tolerância.

E é isto que Sense8 é: mais do que uma história de ficção científica, mais do que um estudo à mente humana, a série das irmãs Wachowski é uma verdadeira celebração do que a vida realmente se trata. Aceitação do outro tal como é, sem filtros ou mudança. O mundo ficou mais pobre quando a série foi cancelada no ano passado (e nem mesmo o vindouro series finale de duas horas irá corrigir esse problema). Mas uma coisa é certa: a série visionária da Netflix deixou a sua marca numa nova geração de fãs de cinema e televisão. Não como quando se atira uma pedra a um charco e as ondas se desvanecem, mas como um meteorito que deixa uma cratera bem visível. Isto é Sense8!

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