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Patrick Melrose e o veneno da solidão

Patrick Melrose

ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS!

Quando uma série nos faz refletir sobre questões do nosso quotidiano, é sinal de que o seu impacto e a sua mensagem são maiores do que a soma das suas partes. Um produto televisivo com qualidade precisa de nos tocar bem no fundo do ser; levar-nos numa viagem introspetiva sobre quem somos e o quanto precisamos de mudar ou de, pelo menos, entendermos melhor quem nos rodeia. Patrick Melrose, a nova mini-série da Showtime com Benedict Cumberbatch como protagonista, é um destes casos.

Patrick Melrose

A série acompanha as crónicas de Patrick Melrose, um “ricalhaço” viciado em droga, que se refugia nela para ocultar o trauma do seu passado onde foi abusado sexualmente pelo seu pai (Hugo Weaving) e abandonado pela sua mãe negligente (Jennifer Jason Leigh). Baseada nos livros de Edward St. Aubyn, Patrick Melrose é uma extenuante e exaustiva novela de negativismo. Pode aparentar ser uma característica pejorativa mas, de facto, é precisamente o oposto. O clima pesado, doentio e autodestrutivo é um aspeto silencioso que assombra o ser humano com mais frequência do que podemos pensar a uma primeira partida.

A personagem de Benedict Cumberbatch, que dá nome ao título da mini-série, afoga-se num turbilhão de consequências que advêm, não do consumo de drogas, mas sim pelo veneno da solidão. A solidão comporta-se como um cancro incurável, que vai criando metástases ao longo da vida, levando a um estado psicológico perigosamente decadente. Patrick Melrose é o reflexo de como a solidão nos força a procurar caminhos pouco saudáveis para atenuar o sofrimento que nos causa. Apesar do stresse pós-traumático estar associado à conduta pouco convencional de Patrick, o certo é que a personagem não consegue desfrutar as relações pessoais que vai estabelecendo ao longo da sua vida. Mesmo que esteja rodeado de pessoas, Patrick sente-se sozinho. Apesar da sua carteira estar sempre recheada e nunca ter passado por dificuldades a esse nível, Patrick não consegue “comprar” algo para preencher o vazio que vai crescendo progressivamente dentro da sua alma. Podemos comparar este aspeto a algo muito prático e, até certo ponto, irónico: o buraco da camada de ozono. Como todos sabemos, as emissões de dióxido e monóxido de carbono vão corroendo lentamente a camada da atmosfera que nos protege das radiações solares. A nossa sanidade, que é o escudo que nos protege de todos os perigos que nos rodeiam, é também afetada pela solidão, que vai lentamente devorando a nossa energia positiva, podendo, inclusive, levar a resultados catastróficos.

Patrick Melrose

O cinema e a televisão são mensageiros importantes na luta contra esta questão. Há cerca de 18 anos, um filme chamado Requiem for a Dream revelava que a droga é o escape mais comum (e, por conseguinte, mais problemático) para dar alento à instabilidade psicológica exercida pela solidão. No ano passado, 13 Reasons Why chocou o mundo por ser totalmente explícita na abordagem do suicídio adolescente e na forma como o isolamento e a pressão social podem conduzir à perda da força mental que nos agarra à vida. Agora, em Patrick Melrose, somos levados pela vida de um homem que procura ocultar o seu passado de si próprio, recorrendo a um comportamento autodestrutivo que testa constantemente os limites da sua sanidade. Para além de Benedict Cumberbatch ser absolutamente magistral no papel, as exigências da sua personagem são extremamente dolorosas e espelham uma realidade terrivelmente perigosa das consequências do abandono, da pressão social e dos escapes temporários que surgem para dar alguma paz.

Patrick Melrose

A solidão não se comporta da mesma forma em todos nós. O grau da sua extensão pode variar consoante o ambiente em que nos inserimos, das relações interpessoais que temos e da dificuldade/ facilidade em conseguirmos superar os obstáculos que a vida nos impõe. O isolamento, o egoísmo, o individualismo, e o sedentarismo, são algumas das manifestações óbvias de alguém a quem a solidão começou a afetar. Uma pessoa solitária nunca reconhece os sintomas; o orgulho muitas vezes sobrepõe-se à capacidade de demonstrar diferentes estados de espírito que são intrínsecos ao bem-estar psicológico de todos nós. Uma pessoa solitária vive a sua vida por picos: uma rotina emocional extremamente inconstante, onde por vezes existe uma fase eufórica em que a felicidade parece temporariamente assumir o controlo, passando por momentos de angústia e de receio. A exposição das emoções perante as pessoas que compõem o nosso núcleo social age como uma preocupação em vez de ser algo considerado natural. A solidão é um veneno extremamente perigoso. Patrick insere-se precisamente neste conceito. Apenas quando não tem escapatória possível dos problemas que lhe assolam a mente, é que procura ajuda de outrem e, mesmo assim, o sentimento de gratidão desvanece rapidamente. O vício começa a estar adjacente à necessidade de escapatória: uma maneira de camuflar todos os potenciais traumas que Patrick vivenciou em tenra idade.

Patrick Melrose

Para Patrick, o consumo de qualquer tipo de estupefaciente (vêmo-lo a ingerir todo o tipo de drogas, desde álcool até à heroína) age como um mecanismo de defesa para se manter minimamente estável durante os diferentes encontros, situações e acasos que vão surgindo durante o seu dia-a-dia. A procura incessante e frenética de uma paz temporária é mais prática do que uma terapia regular. E, veja-se, que o problema aqui não é a ausência ou a escassez de fundo monetário. Em casos reais como o de Heath Ledger, Robin Williams ou Philip Seymour Hoffman, o dinheiro não conseguiu trazer uma felicidade que compensasse o potencial vazio que se alojou dentro das suas almas. O sorriso contagiante de Ledger, o riso doce de Williams e a postura descontraída de Hoffman escondiam uma mágoa, uma dor e um desamparo que os levou a um estado problemático, onde a vida deixou de ser vista como algo prazenteiro, mas sim um fardo que os arrastava para um abismo psicológico sem fim. Nunca se saberá ao certo o que ocorreu nas suas mentes, muito menos encontrar-se-á uma justificação plausível, mas há um elemento comum que os une: a solidão.

Patrick Melrose

Talvez Patrick Melrose surja como um exemplo para retratar as dificuldades por que eles passaram. Talvez Patrick Melrose seja apenas um bom-vivã com sérios distúrbios mentais. Mas Patrick Melrose é um exercício de televisão importante, quanto a isso não há dúvidas. A fragilidade psicológica é um problema que afeta todos nós, em diferentes fases das nossas vidas, e com diferentes impactos e repercussões. Mas ela existe… e a solidão é provavelmente o maior predador dela. Isto poderia ser um capítulo de um “guia espiritual” na compreensão deste fenómeno, onde vos apresentava uma lista de potenciais recomendações para o que poderiam fazer para eventualmente ajudar alguém que conhecem que sofre deste problema tão sério, mas, na verdade, este texto não é mais do que uma abordagem superficial de como a 7ª Arte consegue dissecá-la e revelar o seu lado mais duro e cru. Rodear-nos de amigos e criar fortes laços familiares é sempre o melhor escape para combater a solidão. Mas nada disto é um dado adquirido. Chateamo-nos, por vezes, com amigos, ou rompemos os laços com a família por algum motivo, mas o truque é precisamente não deixarmos que o orgulho interfira com a capacidade de perdão, ou que contagie a nossa habilidade de nos moldarmos às situações e de as superar, porque gostar de alguém deve ser sempre o maior motivador para superar todos os obstáculos que a solidão vai metendo silenciosamente na nossa vida.

Patrick Melrose

Para Patrick Melrose, a sanidade parece ser uma maldição, não só porque força o relembrar de acontecimentos traumáticos, como também não consegue proteger da força com que eles se propagam com o avançar do tempo. O sexo casual, as drogas e a não-correspondência de afeto ou gratidão são vistos muitas vezes como escapes temporários. Satisfazem momentaneamente Patrick que, mais cedo ou mais tarde, volta a cair em desespero e num ciclo vicioso, sem nunca atingir uma plenitude de estado de espírito.

Para quem aprecia boa televisão, Patrick Melrose é obrigatório. Benedict Cumberbatch é um grande ícone da televisão e um que se predispõe a personagens exigentes e de forte carga dramática. O seu carisma, em termos técnicos, é imprescindível para que a mensagem da série consiga infiltrar-se no nosso cérebro e fazer-nos refletir sobre este tipo de questões. Portanto, aconselho vivamente a darem uma espreitadela a Patrick Melrose e a viverem, por algumas horas, o estado mais decadente do ser humano para que se lembrem de que a felicidade não precisa de escape, mas precisa de luta para ser conquistada. A vida é desafiante e, quer queiramos, quer não, merece ser apreciada e vivida naturalmente, com emoção e, sempre que possível, energia positiva.

Patrick Melrose

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