Dos Quadradinhos à Grande Tela Rubricas

A arte de Rurouni Kenshin

Rurouni Kenshin

A década de 90. Por um lado, em nada supera a de 80 no que toca a conteúdo significativo, mas tem alguns elementos que conseguem redimir esta década (e sou “obrigado” a defender essa década, visto que nasci nela). E de facto, os anos 90 foram importantes em conceder conteúdos que, mesmo nos dias de hoje, conseguem ser uma verdadeira referência na indústria moderna. E hoje, vou-vos falar de um desses produtos: Rurouni Kenshin!

Conhecido em Portugal como Samurai X e exibido na TVI quando esta ainda tinha uma réstia de qualidade (por outras palavras: antes de se tornar num canal conhecido pelas telenovelas portuguesas over-the-top ou dos reality shows que ilustram o pior que poderá existir na nossa sociedade), o anime conta com um total de 95 episódios repletos de conteúdo para mostrar. A série abre com Kamiya Kaoru, uma jovem dona de um dojo em falência. Esta, com esperança de tentar recuperar a reputação do dojo, procura pelo afamado Battousai – ou “O Esquartejador”. Nisto, encontra Himura Kenshin, um vagabundo que não quer nada mais do que viver a boa vida e em paz. No entanto, uma série de eventos revelam algumas verdades sobre Kenshin: não só é este sobredotado no que toca ao manuseamento de armas corpo-a-corpo, como também é o verdadeiro Battousai!

Durante a primeira temporada da série animada, vemos Kenshin a estabelecer algumas amizades sólidas, tais como Sagara Sanosuke, um guerreiro dotado de uma espada gigantesca, Myojin Yahiko, um jovem órfão que frequenta o dojo de Kaoru e Tanaki Megumi, um médico que foi apanhado num esquema de tráfico de ópio.

A grande força de Rurouni Kenshin não se centra na sua história – que consiste em três temporadas – mas nos segmentos narrativos dos seus personagens. Kenshin pode ser, no exterior, um homem bom, simpático, com uma atitude um tanto ou quanto estranha. E, de facto, esta vertente revela-se nas suas ações, especialmente na lealdade para com os seus amigos; mas mesmo esta faceta simpática esconde um passado trágico marcado pela sua sangrenta carreira como o Battousai, responsável por uma série de assassinatos durante a guerra que assolou o Japão. Kenshin carrega essa lembrança sempre que desembainha a sua espada, uma katana reversa (ou seja, o lado da lâmina que, regra geral, corta, está virada ao contrário), o que mostra a vontade de Kenshin de enveredar por um método não-letal, e de tentar aceitar o seu passado e seguir em frente.

Do outro lado do espectro, temos o melhor vilão da série, Shishio. Quando o conhecemos pela primeira vez, Shishio parecia um daqueles vilões genéricos que quer mergulhar o Japão numa onda de terror e carnificina, começando por Kyoto. No entanto, com o passar do seu arco – denominado Kyoto Hen – compreendemos que Shishio é uma vítima da guerra. Como o potencial sucessor do estatuto de Battousai, Shishio fora traído pelo governo japonês; traição essa que o deixou completamente queimado e a sua mente fragmentada. Apesar de discordarmos dos seus métodos sanguinários, não podemos deixar de sentir pena deste vilão.

Outro fator que marca Rurouni Kenshin pela diferença surge sob a forma do seu contexto. Numa década fortemente marcada por aventuras com alienígenas (Dragon Ball Z), a sobre–popularidade do género magical girls (Sailor Moon) e afins, este anime passa-se numa era histórica sem os exageros desta indústria. Não existem robôs, não existem zombies, não existe algo que lhe tire o seu mérito; aqui, temos sequências de combate de espada em riste que são fidedignas – que funcionam dentro das leis da física – mas que não deixam de ser épicas por seu próprio mérito. E mesmo passados mais de 20 anos, o nível artístico envelheceu muito bem.

E a popularidade ainda não morreu, já que Rurouni Kenshin teve direito a três adaptações cinematográficas em live-action (um lançado em 2012, dois em 2014) que são considerados, pelos fãs do anime e do género, como as melhores adaptações de anime de sempre (e considerando o que veio antes, já é dizer muito!)

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