Frame by Frame TV Westworld

Westworld – 2×06 – Phase Space

ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS!!!

Entramos em contagem decrescente para o final da segunda temporada de Westworld, e há tanto que falar no episódio desta semana! Maeve (Thandie Newton) continua em busca da filha; Dolores (Evan Rachel Wood) calcula a sua próxima jogada; Man in Black (Ed Harris) segue viagem em direção a Glory; Elsie (Shannon Woodward) e Bernard (Jeffrey Wright) estão cada vez mais próximos da verdade sobre a Delos. Sim, finalmente temos um episódio em que todos os protagonistas podem usufruir de tempo de antena. Mas será isto bom?

Aparentemente não… Numa série que vive do desenvolvimento e arcos de personagens mais que do que o próprio enredo (apesar deste ser extraordinário), tentar reunir todas as histórias de quatro protagonistas acaba por cortar o tempo de antena de cada um. Phase Space apresenta-nos quatro enredos paralelos no mesmo episódio, mas não se consegue focar inteiramente em nenhum deles. Há personagens interessantes com o tempo muito reduzido e personagens desinteressantes com demasiado tempo de antena. Pessoalmente, sou adepto do estilo que utilizaram até agora, de se focaram em apenas dois personagens e nos seus arcos por episódio. Mas penso que esse não fosse o objetivo de Westworld com o seu sexto episódio, mas sim construir a tensão para o próximo episódio, onde todos estes personagens e histórias podem vir (ou não) a colidir.

Apesar de parecer uma “salgalhada” de histórias e personagens, Phase Space delicia o espectador com o pouco tempo de antena que atribui a cada protagonista.

No enredo de Dolores, temos um primeiro vislumbre do “novo” Teddy (James Marsden). Mostra-se frio, duro, sem remorsos, de decisões rápidas e eficazes e, acima de tudo, parece colocar em risco a liderança de Dolores. A outrora mais amistosa host do parque mostra-se contente e, ao mesmo tempo, revela um ar de preocupação com o que criou em Teddy. Decerto que o seu ex-amante se tornará essencial na conquista do parque, mas também já mostrou que não segue as ordens de Dolores. Do pouco que vimos da host, apercebemo-nos que esta sentiu um impacto na sua personalidade quando tem que lidar com alguém que não se rebaixa perante a sua liderança. Gostaria de felicitar James Marsden pela sua performance como “Dark Teddy”. Uma vez que o seu personagem não fora bem aproveitado durante os restantes episódios da série, agora entrou num caminho onde, tanto o ator, como o host podem brilhar.

É posto um rápido fim ao enredo de Shogun World, onde podemos assistir a uma luta de samurais entre Musashi (Hiroyuki Sanada) e Tanaka (Masayoshi Haneda). Após o violento duelo, Maeve segue a sua viagem em busca da sua filha, deixando Akane (Rinko Kikuchi) e Musashi para trás. Ao encontrar a sua filha, Maeve apercebe-se que esta não a reconhece, e que tem um novo host como mãe. Apesar de gostar bastante da personagem interpretada por Thandie Newton, continuo a achar o enredo dela demasiado cliché e previsível. Já nos devíamos ter apercebido que em Westworld (e Game of Thrones) não há finais felizes, e que Maeve não conseguiria ter a relação mãe-filha tão facilmente como desejava. No entanto, algo que achei bastante interessante é na maneira como Maeve cria relações com aqueles que cruza, sejam eles humanos ou hosts. Lee Sizemore (Simon Quarterman), apesar de pedir ajuda à Delos assim que tem oportunidade, não deixa de mostrar algum contento e felicidade ao ter ajudado a host a encontrar a sua filha. Já Lutz (Leonardo Nam), no momento em que Maeve necessita da sua ajuda, corre em seu auxílio. Lutz vê para além do humano e do robô e, apesar de saber que Maeve é artificial, não deixa de sentir um sentimento de proteção, lealdade e carinho pela mesma. Isto fez-me aperceber da dualidade existente entre Maeve e Dolores, onde a primeira conquista através das relações que tem com os outros, e do amor que inflige neles, e a segunda governa com um punho de ferro, inspirando, não amor, mas sim medo nos seus seguidores. Será que vamos ter um confronto entre as duas líderes e os seus grupos num futuro próximo? Qual a melhor forma de governar: ser amado ou ser temido?

Man in Black tem um papel pequeno em Phase Space. O velho cowboy segue com Lawrence (Clifton Collins Jr.) e os seus primos em busca de Glory, e Grace (Katja Herbers), sua filha, segue-os. Inicialmente, William pensa que Grace é um host do parque programado por Ford (Anthony Hopkins) para o desviar do seu objetivo. À conversa perto de uma fogueira, Man In Black é confrontado por Grace. Ambos partilham memórias de bons tempos, antes da  morte da mãe de Grace, e esta pede a William para deixar o parque e voltar para casa. William vivera o resto da sua vida com a culpa da morte da sua esposa sobre os seus ombros, e Grace assegura-o que não foi justa em culpá-lo por isso. Após momentos sentimentais e pessoais por parte dos dois familiares, ambos concordam em sair do parque de vez. Foi uma cena extremamente forte, principalmente por ver o personagem mais badass de toda a série com lágrimas nos olhos, expondo todos os seus sentimentos e culpas sem os referir uma única vez. Na cena seguinte apercebemo-nos do quão sujo joga William, que deixou a sua filha para trás, partindo de manhã sem esta se aperceber. Será que Man In Black ainda pensa que Grace é uma host? Ou será que rejeita os laços de sangue, e põe todas as suas forças no jogo final de Ford?

A equipa de salvamento da Delos chega à Mesa com Peter Abernathy (Louis Herthum). Charlotte (Tessa Thompson) comunica com as equipas exteriores para que estas os ajudem com a situação. O episódio parece dar um pouco mais de relevância a Ashley (Luke Hemsworth), como já alguns episódios têm vindo a aumentar o seu destaque. O segurança da Delos parece ser menosprezado, tanto por Charlotte, como pela nova equipa de resgate da empresa. Também parece ter simpatizado com Abernathy. Será que Ashley vai seguir ordens da Delos, ou terá o personagem um papel mais importante no decorrer dos acontecimentos? Talvez ajudar os hosts, principalmente Abernathy?

Quem também conseguiu meter os seus pés dentro da Mesa foram Bernard e Elsie. Os dois estão em busca da verdade por detrás da revolta dos hosts, e Bernard continua a ter os seus flashbacks habituais. Ambos tentam aceder à base de dados de Westworld: o Cradle. É aqui que estão armazenados todas as informações do parque, incluindo sistemas de segurança e codificações de hosts. Elsie descobre que o Cradle está a ripostar aos hackers da Delos que tentam iniciar um reboot ao sistema: é como se o Cradle estivesse a “improvisar”. Num ato de loucura (ou  simples programação/intuição) Bernard entra no Cradle e encontra um velho amigo: Ford. Sim, para além de termos o fantástico Robert Ford de volta, a minha teoria principal finalmente bateu certo: Ford IS Westworld. O criador do parque transferiu a sua consciência para o sistema de dados, vivendo dentro de uma simulação do mesmo, mas que consegue controlar e influenciar todo o desenrolar de acontecimentos no parque físico real. É assim que este consegue falar com Man In Black, influenciar acontecimentos, e muito mais. Quase nada nos é revelado, sendo que Anthony Hopkins entra em cena uns meros 10 segundos (se tanto), mas pode-se considerar o ponto alto do episódio. Qual será o jogo de Ford? Sabemos que William tentou durante anos transferir a consciência humana, e Ford acabou por consegui-lo! Será a finalidade do jogo de Ford fazer com que Man in Black atinja a imortalidade transferindo a sua consciência para um corpo sintético, ou mesmo para o Cradle? Em The Riddle of the Sphinx, Ford manda William olhar para o seu passado, evidenciando as experiências que o mesmo fez com James Delos (Peter Mullan). Será este o objetivo de Ford? Imortalidade? Ou estará apenas a tentar dar uma lição a William?

No início do episódio vemos novamente Arnold com Dolores, no que parece ser uma entrevista à host, numa tentativa desta conseguir ganhar consciência. É num dos maiores plot-twists de Westworld que descobrimos que é, na verdade, Dolores que está a analisar Bernard, para que o host se torne o mais próximo de Arnold possível. Já antes tivemos vislumbres desta cena de interrogatório. Será que as cenas em episódios anteriores são também uma análise a Bernard? Na minha opinião, não, pelo simples facto de um traço que pode escapar à vista dos olhos de qualquer espectador: em todas as cenas passadas no Cradle, a imagem passa para a resolução de 16:9 em vez de fullscreen; e é exatamente como nos é apresentada no interrogatório no início do episódio, mas não noutros episódios. Duvido que Westworld deixe escapar algo tão óbvio e que deveria ser tão bem pensado e, na minha opinião, os diálogos em episódios anteriores são entre Arnold e Dolores, e o de Phase Space é entre Dolores e Bernard. O diálogo assemelha-se bastante ao diálogo entre William e James Delos no episódio The Riddle of the Sphinx (podem ler a review do episódio aqui), onde William (representado por Dolores em Phase Space) interroga James (Bernard) numa tentativa deste atingir um nível de consciência.

Uma vez mais, o trabalho de câmara e a banda sonora do episódio são fantásticos. São envolventes e puxam pelo espectador. Os cenários são magníficos e, apesar de não ser um dos meus momentos favoritos do episódio, o duelo de samurais foi muito bem gravado. As paisagens naturais são incríveis e os efeitos especiais estão no ponto certo. A banda sonora ajuda bastante ao espectador a enquadrar-se com a cena, assim como serve de guia dos nossos sentimentos.

Para finalizar, vamos dissecar o título do episódio, e deixei esta parte para último para não  lançar demasiados spoilers ao começar a análise do episódio. Inicialmente, Phase Space pode parecer um título um pouco deslocado e difícil de interligar com Westworld. Após alguma pesquisa duma matéria que me é completamente desconhecida (física), descobri que Phase Space (ou espaço fásico) é “um espaço onde todos os possíveis estados de um sistema são representados, com cada possível estado a corresponder a um único ponto no espaço fásico“, segundo a Wikipedia. Aplicando e resumindo a minha pesquisa: Westworld está a traçar uma variedade de “caminhos” através do espaço e do tempo, e cada caminho depende do seu ponto de partida. Cada repetição do caminho decorre através de suposições iniciais sobre o que é real e o que não é. Mudando as suposições, o caminho também muda. Basicamente, o título dá-nos a ideia de um multiverso em Westworld, onde existem infinitas possibilidades. Isto poderá ser uma referência ao Cradle, que é uma simulação criada por Ford, onde todos os “estados” do parque são possíveis. Também nos pode referenciar a Bernard, e à dualidade entre o humano e o host. Desde que descobrimos que Bernard é um host, parece-nos que Westworld mudou completamente de rota. Ao descobrirmos que Ford está vivo, dentro de uma simulação, muda de novo todo o cenário construído até agora. A ideia que o título me dá (e onde posso estar terrivelmente enganado) é que em Westworld existem múltiplas linhas temporais, dependendo do ponto inicial que escolhemos.

Westworld parece brincar cada vez mais com a nossa percepção da realidade e do que é ou não é possível. Foi um episódio muito apressado e por vezes “baralhado” nas ideias, e corta em demasia o tempo de antena de vários personagens. No entanto, deixa os espectadores com mais perguntas do que antes, e delicia-nos com dois plot-twists bombásticos.

Leiam o Frame by Frame do episódio anterior aqui.

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Phase Space é um episódio que tenta avançar com a narrativa a todo o custo. Cria a tensão para acontecimentos futuros mas esquece-se de apostar em personagens fulcrais. No entanto, lança ao espectador desafios constantes e desperta novas teorias.

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