Dos Quadradinhos à Grande Tela Rubricas

A viagem nostálgica de Digimon Adventure tri.

Se, tal como eu, cresceram durante os anos 90, existe uma forte possibilidade de terem acompanhado a série Pokémon. Para quem a “febre” passou ao lado, Pokémon concentrava as suas atenções em Ash Ketchum de Pallet Town, um jovem que, ao lados dos seus amigos e do seu icónico aliado Pikachu, tem a ambição de se tornar no próximo Mestre de Pokémon. Um título invejável que o jovem Ash tenta concretizar até aos dias de hoje.

Mas Pokémon também tinha um concorrente de peso: DigimonCentrado nos jovens Taichi, Sora, Koushiro, Takeru, Jou, Yamato, Mimi e, mais tarde, Hikari, a série original começa com o grupo a ser “sugado” para um Mundo Digital, habitado por Monstros Digitais (mais conhecidos como Digimons) e que procuram o seu caminho para casa, ao mesmo tempo que enfrentam duras ameaças ao longo da sua jornada, acompanhados pelos seus próprios Digimons.

Ao longo dos anos, as propriedades sofreram algumas mudanças. Pokémon, apesar da variedade de regiões e Pokémons para encontrar e capturar, permaneceu igual a si mesmo no que toca à fórmula habitual, perdendo aquele apelo inicial que pautou os anos 90. O mesmo pode-se aplicar a Digimon, que encontrou no público juvenil o seu público-alvo. O que era antes uma série para crianças com temas mais maduros foi substituído por um crowd pleaser sem qualquer risco.

Mas isso mudou com Digimon Adventure tri. Iniciado em 2015 como uma celebração dos 15 anos da saga, Digimon Adventure tri. serve de sequela, tanto para o Digimon, como para a sua temporada seguinte, Digimon 02. Ou seja, ignora todas as outras séries que se seguiram. E de certa forma, é uma escolha sensata, visto que o franchise começou a perder o seu fulgor nessa altura.

O elenco principal de Digimon Adventure tri.

Tal como podem ter constatado na imagem acima, Digimon Adventure tri. resgata o elenco principal da série original. No entanto, estes já não são os mesmos. Ao contrário de um certo Ash Ketchum – que, em mais de 10 anos, envelheceu apenas UM (!!!) ano! – reencontramos Taichi e os amigos e que mostram os sinais do tempo: Taichi, Yamato e Sora estão prestes a a progredir nos seus estudos e nas suas futuras carreiras, se bem que Taichi continua em sérias dúvidas sobre o que realmente deseja para o seu futuro; Koushiro continua a construir-se como informático; Takeru e Hikari continuam a progredir nos seus estudos; Mimi encontrou a sua fama; e Jou prepara-se para os exames nacionais. Portanto, os nossos protagonistas exibem marcas do tempo e novas prioridades.

No entanto, as suas vidas mundanas mudam de repente quando Digimons Infetados começam a invadir o Mundo Real. Não só os nossos amigos humanos se reúnem com os seus velhos amigos, como também enfrentam uma nova série de inimigos que prometem espalhar o caos para os dois mundos. Isto para não falar que o destino de ambos está intimamente ligado a duas novas personagens: Meiko, uma rapariga recém-transferida, e a sua companheira Digimon, Meicoomon.

O que salta logo à vista em Digimon Adventure tri. é a qualidade. De facto, fazer um filme animado requer um tipo diferente de orçamento, o que traz consigo um novo tipo de resolução. E de facto, os filmes que compõem Adventure tri. não são apenas belos de se ver, mas também servem como um update que o franchise há muito precisava. E isto é visível a todos os níveis, mesmo nas sequências de digivolução, um fator importante em Digimon. Por exemplo:

As diferenças estão mais que patentes na comparação acima.

Digimon Adventure tri. pode conter alguns novos Digimons para observar de perto; no entanto, a saga de filmes resgata uma componente há muito perdida: a maturidade. Numa altura em que as séries animadas cada vez mais se adequam às camadas mais juvenis, Adventure tri. procura alcançar os fãs mais veteranos. Sim, há uma cena ou outra que estão repletas de um bom humor, mas nem essa vertente descura uma história que se revela mais negra que o habitual. De repente, são dois mundos que se encontram em risco de extinção. As mortes já não têm direito ao clássico renascimento por via de ovos (o segundo filme, Kokuhaku, culmina na morte permanente de um clássico aliado). E, em mais do que uma ocasião, vimos os nossos heróis a enfrentarem tantos desafios impossíveis de resolver, que acabam por falhar na maior parte das vezes.

Mas o verdadeiro sentido de nostalgia pode ser testemunhado a partir do quarto filme, Loss. Nesta altura, os Digimons perderam as memórias dos seus companheiros e estes têm de recuperar os laços. Por um lado, Digimon Adventure tri., nesta fase, corria o sério risco de se aventurar por território familiar, mas torna a apresentar algo inédito no franchise. 

Digimon Adventure tri., a meu ver, revelou-se como uma jornada emocional do princípio ao fim. Sim, vermos os nossos protagonistas originais novamente e mais crescidos faz-nos questionar quanto tempo terá passado, mas revisitar os nossos velhos amigos, além de apresentar algo inédito, torna os seis filmes num objeto obrigatório de ver para quem for fã – acérrimo ou não – de Digimon. 

Encerro esta crónica com um clássico:

…e a versão melhorada:

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