A 7ª Camada da Arte Rubricas

The Witcher: Os monstros da sociedade!

Em seguimento do anúncio da criação de uma série live-action para a Netflix, faz sentido analisar The Witcher como um produto de entretenimento e arte para que o seu retrato no ecrã seja, pelo menos, o mais fiel possível aos seus materiais de origem. Apesar da série seguir a linha narrativa dos livros de Andrzej Sapkowski, The Witcher é também um celebrado videojogo, vencedor de inúmeros prémios, e cujos visuais e história se adequariam na perfeição à adaptação televisiva. Nesta entrada d’A 7ª Camada da Arte iremo-nos focar apenas no último capítulo da trilogia de videojogos (The Witcher 3: Wild Hunt) que, por si mesmo, angariou uma forte e dedicada fanbase. Podem verificar a nossa lista do elenco de sonho de The Witcher, produzida pela Netflix, aqui.

O mundo de The Witcher não é linear. The Witcher 3 segue a história de Geralt of Rivia, celebrado witcher – um caçador de monstros a contrato – que ingressa numa aventura em busca da sua filha adoptiva, Ciri, antes que a Wild Hunt a capture e traga destruição ao seu mundo.

Apesar das aventuras do protagonista serem o grande motivador do videojogo, há muito sobre este universo por descobrir. Um destes aspetos é precisamente a sociedade e a comunidade em que o jogo se insere. Como qualquer fã incondicional da saga, deparei-me com algumas características extremamente importantes e que, a olho nu, a maioria não capta.

Um witcher é alguém que é submetido a um treino intensivo desde tenra idade, tanto físico como psicológico, consumindo poções e mutagénicos, e sujeito a rituais misteriosos para se preparar para a vida como um caçador de monstros a contrato. Estes processos, quando bem sucedidos, acabam por transformar um simples humano num mutante geneticamente alterado, com o único propósito de caçar e matar monstros. Para caçar um predador, os witchers têm que estar preparados com uma série de recursos para os auxiliar nas suas tarefas, como por exemplo: olhos de lince que lhes permitam ver no escuro; um sistema imunitário forte que resiste a doenças e ao consumo de poções que seriam letais para um humano; força, velocidade e agilidade sobre-humanas; capacidade de regeneração acelerada e vida prolongada. No entanto, estes atributos vêm com um preço elevado: como qualquer mutante, não se podem reproduzir.

Embora sejam seres possantes e com uma força extraordinária, que se reflete nos seus corpos torneados e musculados, os witchers são vítimas da sociedade que os envolve. Sendo um mutante, Geralt é muitas vezes discriminado, tanto pela sua aparência como pelas suas práticas profissionais.

The Witcher 3: Wild Hunt é um videojogo que é muito criticado pela sua abordagem social, na medida em que os retratos que pinta são interpretados como medievais, arcaicos, retrógrados e violentos, pouco desenvolvidos e adaptados para um público-alvo pouco abrangente. Retratar uma sociedade em videojogo é um trabalho difícil e susceptível a discórdias, controvérsias e polémicas: como se pode definir uma sociedade? Estará a sociedade intimamente ligada ao meio em que se insere? Responder a estas questões acerca de um produto de entretenimento e arte visual necessita obrigatoriamente de uma compreensão da nossa própria sociedade contemporânea.

Os videojogos têm uma natureza que, a uma primeira vista, se confina a um turbilhão de violência, agressividade e de valores sociais precários. Este é exatamente o mundo de The Witcher: um mundo governado por guerra, violência, racismo, violações, homofobia, sexismo, ganância e crueldade, para além de ser assombrado por monstros.

Uma sociedade é um organismo que se comporta de forma irregular e não unida. Em Wild Hunt isto é perceptível em inúmeros momentos, nos quais o próprio jogador consegue presenciar em primeira mão tentativas de discriminação e racismo em relação ao protagonista. A sociedade contemporânea do nosso próprio mundo também sofre destas consequências a um ritmo diário. Ainda hoje se ouve falar de casos de homofobia, racismo, violações, discrepância na igualdade de sexos e opressão. Mesmo inserido num ambiente medieval, a violência psicológica de The Witcher relativamente aos valores sociais não é muito diferente da nossa própria sociedade. Ainda hoje estes tópicos são vistos como tabus e revelam-se as fragilidades que definem, tanto a sociedade do jogo, como a nossa.

Numa das primeiras missões do jogo, Geralt necessita da ajuda do caçador Mislav para encontrar o ninho de um grifo. Mislav, em troca, pede ajuda a Geralt para caçar uma matilha de cães selvagens que tem andado a aterrorizar a zona, antes que estes possam magoar alguém. Ao longo do percurso, Mislav comenta com o witcher que os cães selvagens, ao contrário dos lobos, não matam por necessidade, mas sim por desporto. Inclusive, acrescenta que os cães aprenderam essa crueldade através dos humanos. Nesta linguagem metafórica, Mislav faz uma crítica social de que os animais reagem conforme a “educação” que lhes é dada. “Um soldado de passagem pára para violar uma mulher, estrangula-a, mata o seu marido por pura diversão, e ainda chacina uma vaca. Mas um cão? Um pontapé, e basta“. Mislav utiliza esta expressão para justificar a crueldade que foi impingida nos cães, e que, por conseguinte, os leva a serem agressivos para com os habitantes.

Após a troca de favores, Geralt pergunta porque é que Mislav vive isolado da sociedade, ao que este responde “Porque sou uma aberração“. Por certos momentos, Geralt pensa que se trate de uma maldição lançada sobre o caçador, e, inclusive, afirma também ser ele próprio uma aberração. Mislav revela que a sua condenação é ter amado outro homem. No mundo de The Witcher, a homossexualidade é retratada como uma doença repugnante que leva ao exílio e sofrimento do seu portador. Muitos escolhem condenar Wild Hunt pela forma como é ilustrada a homossexualidade, alegando que o jogo é homofóbico e desprovido de abertura social, especialmente quando utiliza a palavra “aberração” para descrever a comunidade gay.

Pessoalmente, tento encarar isto para além desta conotação pejorativa. Mislav é um excelente caçador, bastante profissional, e uma pessoa com um bom coração e a sua orientação sexual não é nenhum impasse para isto. Em todo o jogo, este é capaz de ser dos únicos personagens que está disposto a sacrificar os seus desejos para ajudar os outros. Apesar de ter sido exilado pela sociedade, continua a preocupar-se com a população que tanto o odeia e discrimina, e arrisca a sua vida para acabar com a praga que assola a área, tentando proteger aqueles que o vêem como um monstro. O mundo de The Witcher é um mundo negro e cruel, e apresenta-nos temas delicados de uma maneira bruta e dura, que poucos conseguem digerir. A homofobia, como em The Witcher, ainda está presente na nossa sociedade. Muitas vezes a comunidade homossexual é tratada como um “circo de aberrações”, discriminada e vítima de violência, tanto física como psicológica, apenas por manifestar uma orientação sexual que se afasta da conduta imposta pela sociedade de “normalização”. Porque será que sofremos do mesmo preconceito de uma sociedade medieval e básica? Apesar de ser um tema pouco explorado no jogo, percebemos que a equipa que desenvolveu o jogo se preocupa em partilhar e expor problemas reais, mesmo sendo de uma forma tão fria. Este é o único encontro (se não estou em erro) com um homossexual durante todo o jogo, e este mostra-se ser uma das pessoas mais doces, carinhosas e preocupadas de toda a saga.

Geralt, apesar de simpatizar com Mislav, não possui a mesma orientação sexual. Musculado, bem-parecido e atrevido, o witcher é um mulherengo sedutor. Nenhuma mulher parece resistir ao charme do infame caçador de monstros, e a verdade é que este tem muito por onde escolher. Apesar de tudo isto, Geralt sempre respeitou as mulheres e as defendeu quando sente que estas estão a ser injustiçadas. Mas muitos não conseguem ver para além de corpos esbeltos, “caras larocas” e atributos físicos no “sítio certo”. É isto que leva Wild Hunt a ser apelidado de sexista: pela maneira como materializa o sexo feminino, que só existe para exibir o corpo.

Sim, é verdade que The Witcher está repleto de mulheres extremamente sensuais, mas o que realmente dá relevo ao videojogo é o carisma ideológico destas personagens femininas. São fortes, sensuais, independentes e não se rebaixam a ninguém. Yennefer é uma das mais poderosas feiticeiras; Triss é carinhosa para com os outros, sempre disposta a sacrificar-se pelo bem maior; Ciri é uma guerreira treinada por witchers que possui poderes sobrenaturais; Shani é enfermeira de guerra, que auxilia o nosso protagonista sempre que se proporciona; Keira oferece a sua ajuda a uma aldeia nos tempos mais difíceis; Anna Henrietta é a duquesa do grande e magnífico território de Toussaint, que governa com um punho firme, e, ao mesmo tempo, delicado, adorada por todos os seus súbditos; Syanna é a irmã de Anna Henrietta e a “ovelha negra da família”, injustiçada apenas por ter nascido num momento que consideravam “errado” e inoportuno, mas não deixa de ser uma mulher que luta por si mesma contra aqueles que a prejudicaram; Philippa era uma das conselheiras do antigo rei de Redania, e é uma das fundadoras do Lodge of Sorceresses; Priscilla é uma poetisa e trovadora, amável e doce, amante do melhor amigo do protagonista; Cerys é uma excelente guerreira do clã An Craite, corajosa e teimosa, e líder da sua família.

Mas provavelmente a personagem mais criticada é Ves pelo seu visual, – que expõe um pouco mais os seus atributos femininos que as restantes personagens – fazendo parecer que  existe somente para “fazer as delícias” dos jogadores masculinos. Muitas mulheres têm orgulho no seu corpo e gostam de o mostrar, e não há nada de errado nisso. É claro que isto é logo motivo de ataque por muitos membros da sociedade, que se esquecem que esta é uma das personagens femininas mais fortes que podemos encontrar no jogo. É uma excelente guerreira e é tratada como uma equivalente aos olhos de Roche (comandante militar das tropas de Temeria), que sempre a respeitou e a admirou como uma das melhores do seu batalhão. É leal ao seu comandante e luta pelo sonho de um dia ver o seu país livre da guerra. Isto é o exemplo de uma personagem bem construída e relevante para o enredo que é ofuscada pelo “fogo de vista” do seu corpo.

Para além de todas estas questões sociais em The Witcher, há também o problema do racismo. Não só o personagem principal é vítima de maus tratos verbais, incluindo tentativas de agressão física, como também há uma clara ausência de minorias raciais ao longo do jogo. Podemos pensar que isto foi feito propositadamente, com um intuito de menosprezar estas ditas minorias, mas, no entanto, é preciso termos em conta que o trabalho de Sapkowski foi inspirado no folclore polaco, que, na altura, não tinha em consideração estas questões sociais. Como um verdadeiro fã do jogo entendo que seja complicado tentarmos ultrapassar esta questão das barreiras sociais e tornar, até mesmo, a indústria dos videojogos num meio socialmente diversificado. No entanto, esta questão é delicada, na medida em que o produto de onde foi inspirado sofre claramente de uma mitologia que, na altura em que foi escrita, não tinha a sensibilidade social com que nos deparamos no século XXI. Para dar imersão ao jogo, tornando-o fiel à própria mitologia, os criadores de The Witcher 3: Wild Hunt preferiram seguir as pisadas de Sapkowski, adaptando-a para um meio interativo sem pensarem nas consequências.

Embora a nível étnico The Witcher 3: Wild Hunt possa pecar, o próprio jogo compensa ao utilizar raças não-humanas para cobrir a lacuna racial. Alguns exemplos são os elfos, os anões, dopplers, entre outros. Novigrad é o epicentro do racismo em The Witcher 3: todas as raças não-humanas são atormentadas, perseguidas, caçadas e exterminadas. Apesar de ser apelidada de “the free city of Novigrad“, de livre nada tem. Numa missão secundária, Geralt tem que ajudar a sua amiga e amante Triss Merigold (uma feiticeira) a resgatar todos os feiticeiros e não-humanos da cidade, antes que os Caçadores de Bruxas lhes metam as mãos. Isto prova que, embora não adaptada à sociedade contemporânea, The Witcher tenta compensar a falta de diversidade étnica com novas raças fantasiosas que preenchem perfeitamente este tabu social.

“O mundo de The Witcher não existe para criticar as minorias da sociedade, mas sim para as fazer brilhar.”

Para todos os que conhecem verdadeiramente Wild Hunt, sabem perfeitamente que o jogo pode não fazer as melhores abordagens às temáticas sociais, mas tenta compensá-las de outra forma, o que mostra uma inteligência em contornar um problema que está enraizado na própria cultura e história do material de origem em que foi inspirado. Numa opinião pessoal, penso que todos os críticos do jogo deviam ter em conta que a diversidade não tem necessariamente que ser “preto no branco”, mas que há outras formas de trazer inclusão social para algo que, a uma primeira vista, parece despido disso. Em The Witcher 3, a sociedade espelha as características do mundo  cruel e frio em que se insere. As minorias são tratadas como verdadeiros “monstros e aberrações”, apenas por serem diferentes e não compreendidos, condenados a uma vida de tormento, perseguição e morte. Muitos consideram-se cidadãos exemplares por livrarem o mundo desta “escória”, muitas vezes contratando witchers para fazer os seus trabalhos mais sujos. Mas ser diferente não é uma razão condenável quando a própria conduta se mostra mais pura do que os considerados “normais”, e é por isso que, às vezes, vale a pena defender os “monstros”.

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