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Atlanta – Season Finale – 2ª Temporada

Atlanta

Depois de mais de um ano de paragem, Atlanta regressa com a Robbin’ Season e para além de mais ambiciosa que a 1ª temporada, acabou por ser superior.

O segredo por detrás de tudo? A parceria entre Donald Glover e Hiro Murai. Donald Glover como Produtor Executivo, consegue fazer com a série se desenrole a um ritmo muito próprio, com interações únicas, cheias de significado e autenticidade. Hiro Murai como director, consegue mostrar-nos com excelência o que vai na cabeça de Donald Glover.

Hiro Murai

Começando por Hiro Murai, que é provavelmente um dos filmmakers mais conceituados e sofisticados da actualidade, curiosamente ainda não tem nenhum projecto próprio. Felizmente isso está prestes a mudar, com base na notícia que saiu poucos dias depois do episódio final de Atlanta.
A nível de historial, depois de já ter colaborado com Donald Glover em alguns videoclips anteriormente e na primeira temporada de Atlanta, no ano passado integrou a equipa de produção de Legion que teve (tal como Altanta) uma excelente recepção pela crítica e uma das cenas mais épicas do ano.

Em 2018 regressou com a segunda temporada de Atlanta que, segundo a crítica, é uma das melhores do ano (com motivo) e há pouco mais de uma semana também em parceria com Donald Glover, lançou o videoclip “This Is America“, que de polémico não tem pouco e já está a correr as bocas do mundo.

É certo de Donald Glover é o principal responsável por todos os simbolismos e ideias passadas nas suas produções, mas o impacto visual que têm, devem-se muito a Hiro Murai com a sua qualidade de filmagem, planos captados, o que escolhe salientar e a forma como o faz.

Ao contrário da maioria das séries onde são focadas as personagens enquanto dialogam ou reagem a algo, Murai opta muitas vezes por captar um plano sem foco explícito nas personagens, onde nos enquadra no espaço físico em que essas interações estão a decorrer, oferecendo-nos uma experiência mais objectiva do contexto dessas interações.

Outra coisa que Hiro Murai faz muito bem, é conseguir dar a entoação a determinada cena, apenas com a forma como escolhe captar a imagem. Em “Teddy Perkins” (aquele que é, e dificilmente deixará de ser o episódio do ano), Murai criou ali uma cena suspense e thriller inesperada e constante, que consegue abismar qualquer fã de trabalho de câmera.

Por fim, Hiro Murai domina o chamado aesthetics, onde em conjunto com as personagens de Atlanta cria algo único e belo a nível visual. Aquilo que se pode também chamar “Eye-Candy“.

Donald Glover

O cérebro. O responsável por fazer de Atlanta uma série única, quer a nível artístico quer a nível social (consciência e crítica), na 1ª temporada optou por uma vertente mais focada na ilusão e no bizarro. Nesta temporada decidiu apostar em explorar e descodificar o vai na cabeça da população afro-americana.

De todos, o episódio que se foca mais em explorar o indivíduo afro-americano é o 8º (Woods). Alfred sempre foi aquela personagem despreocupada, que encara com tranquilidade tudo o que o rodeia. Se na 1ª temporada já o era em demasia, aquando da procura pelo sucesso como Rapper, nesta 2ª temporada foi o descalabro. Alfred tornou-se despreocupado a um ponto extremo e no único episódio em que Glover não teve qualquer impacto presencial, têm-no através de uma chamada para Alfred que dá início a uma exploração extrema desta personagem.

Woods

Woods foi sem dúvida um dos melhores episódios da temporada, porque serviu para nos explicar o que realmente se passava com Alfred. Toda esta leviandade perante a sua vida não se devia à sua forma de ser (que em muitos momentos chegava a ser cómica), devia-se sim ao estado de depressão que Alfred está a atravessar.

Este episódio faz-me lembrar uma passagem do filme Shrek, em que Shrek explica ao burro o porque de não se importar com nada, comparando os Ogres a cebolas.

As cebolas têm camadas, os Ogres têm camadas.” – Shrek

Alfred também tem as suas camadas e Glover tenta extender esta abordagem à cultura afro-americana no geral sob a forma a alerta. Aos olhos da pessoa comum, parece estar sempre tudo bem e que assim vai continuar, mas nós não conseguimos realmente compreender se tudo está bem ou não, não temos essa capacidade.
Tanto é, que não vi esta depressão do Alfred a chegar antes do início do episódio Woods. Alfred é acordado pela sua mãe (segundo foi revelado na 1ª temporada, faleceu 2 anos antes) a ralhar-lhe pelo desleixo e desorganização em que este deixou cair a sua vida, enquanto ao mesmo tempo aspirava a sua casa. Poucos segundos depois Alfred recebe uma chamada de Earn, que o questiona se está tudo bem com ele e insiste em saber isso.

Mais à frente no episódio 10 “FUBU” voltamos a deparar-nos com a mesma temática.

FUBU

Após um episódio carregado de confusão e loucura que foi “North of the Border“, onde Alfred acaba por revelar a Earn que não o quer mais como seu manager, chega-nos “FUBU“. Um enorme flashback numa série que não faz flashbacks.

Este episódio tem como foco o passado de Earn, nos seus tempos de escola e a relação que tinha com o seu primo, Alfred.
Depois de Alfred ter “despedido” Earn de forma inesperada, mas não injustificada, Glover e Murai entregam-nos um episódio tão brilhante que o que conseguimos pensar do início ao fim e o que nos atormenta, não é o que aconteceu no episódio anterior e sim se a camisola de Earn é a verdadeira ou a falsa.

Pelo meio, é nos exposta uma realidade de adolescência dos jovens afro-americanos muito diferente da que nos é apresentada no geral em formato televisivo. Sem censuras, sem estereótipos e com precisão.
No fim dum episódio inteiro com o jovem Earn na linha ténue entre o sofrer bullying e o regozijo por causa de uma t-shirt, é Alfred que salva Earn, esclarecendo que a FUBU de Earn é a verdadeira.
Regozijo desconfortável para Earn que apesar de não saber, sente que a FUBU dele é a falsa, o que resulta num bullying extremo para Devin.
No dia seguinte o director da escola anuncia à turma que Devin estava a atravessar uma situação complicada em casa, com a separação dos pais e o bullying que sofreu por a FUBU dele ser alegadamente a falsa (quando ele sabia que não era), fez com que cedesse à pressão emocional e social e se suicidasse.

Mais uma vez, à semelhança da depressão de Alfred, não tive a capacidade de ver isto a chegar.
Deixo assim um excerto da música “Alright” do Kendrick Lamar, que vem reforçar a ideia errada que há, que apesar de tudo o que acontece o cidadão afro-americano, este tem de reagir positivamente a todas as adversidades da vida, porque é isso que a sociedade espera deles.

When you know, we been hurt, been down before, n***a
When my pride was low, lookin’ at the world like, where do we go, n***a?
And we hate Popo, wanna kill us dead in the street for sure, n***a
I’m at the preacher’s door
My knees gettin’ weak and my gun might blow but we gon’ be alright

E pior do que isso, é o cidadão afro-americano sentir a necessidade de transparecer que está tudo bem e tentar adaptar-se aos usos e costumes dos brancos, para se sentir aceite. O que está errado, mas é a realidade!

Aconteceu com a necessidade em provar que a t-shirt da FUBU era a verdadeira (em contra-partida o amigo branco de Earn lhe disse que já tinha usado a mesma t-shirt duas vezes na mesma semana e ninguém queria saber), voltou a acontecer no final do episódio quando a mãe de Earn revelou que este ia começar com aulas de piano em breve e tinha de ir bem vestido, porque como é afro-americano, a roupa tem de o ajudar a causar uma boa primeira impressão. E pior! Acontece quando essa necessidade de se integrar e ser aceite pelos brancos é tanta que chega a níveis extremos, como o episódio 6, “Teddy Perkins”.

Teddy Perkins

Este é daquele episódios que têm o poder de mexer com a mente de uma pessoa. Durante o episódio, entre inúmeras coisas que senti, as que saliento são: desconforto; espanto; receio; curiosidade. O resultado foi ter ficado uns 5 minutos a olhar para o ecrã do pc, escuro, pós-créditos a pensar no que tinha acabado de ver.

Teddy Perkins retrata uma história que não nos é estranha. Já aconteceu inúmeras vezes com artistas afro-americanos bem sucedidos (por imposição e exigência dos pais), o problema? Nunca tínhamos visto um retrato tão realista de como as coisas se desenrolam na realidade.

Teddy Perkins é o retrato de Michael Jackson, Marvin Gaye, entre muitos outros astros da música afro-americanos que chegaram onde chegaram graças a um regime de treino exigente, duro e exaustivo imposto pelos seus pais. O que têm em comum, é que após esse sucesso extremo a queda foi ainda maior.

Esse regime de treino vai de encontro com o que falei antes, de que a população afro-americana sente-se obrigada a adaptar-se de tal modo à sociedade, que acaba por chegar a extremos para atingir esse fim.
De extremos que se algo não for de marca, é-se motivo de gozo. A extremos em que se não nos esforçarmos o dobro, não conseguimos metade do sucesso.

Tal não é verdade, até porque Michael Jackson não conseguiu metade do sucesso (longe disso) e vai ser sempre lembrado como uma dos maiores astros da música a nível mundial.

O problema da forma como atingem o sucesso? É que é impossível abdicar forçosamente de uma infância saudável e de um crescimento minimamente normal (por etapas), quando há um regime de treino exaustivo com violência como punição para qualquer falha.

Michael Jackson passou por isso. Teddy Perkins mostrou-nos como isso acontece.
Há uma exigência tão grande em ser o melhor, que é difícil não acabar por desenvolver perturbações psicológicas, perturbações essas ao ponto de perder conexão com a realidade que o rodeia, perturbações ao ponto de fazer plásticas para se parecer mais com os membros da sociedade a que se está adaptar. E o pior dentro dessa perturbação é a forma como Teddy idolatrava o seu pai, revelando que foi graças a ele que chegou onde chegou, sem perceber que o seu pai foi a causa da sua perturbação psicológica.

Donald Glover levou isto a sério. Tão a sério, que quando o episódio Teddy Perkins foi gravado, este andou com a caracterização da personagem e agiu conforme a personagem que estava a protagonizar durante todo o tempo que esteve em set. Para receio de muita gente, incluindo Hiro Murai, que revelou que apesar de isso o ter perturbado ao ponto de lhe roubar horas de sono, essa entrega ao papel, ajudou em muito no magnífico resultado final que teve o episódio 6.

Sinto uma certa dificuldade em expressar-me em relação a este episódio, mas quero salientar o papel de Lakeith Stanfield no papel de Darius.

Lakeith Stanfield e outras honras

Lakeith Stanfield é desde o início de Atlanta o responsável pela maior parte das cenas que trazem humor à série por via de Darius. Esta temporada ganhou muito protagonismo pelo seu papel no episódio “Teddy Perkins“. Se havia personagem mais indicada para manter a interação com Teddy, e levar a aventura na casa do mesmo até ao fim com tanta tranquilidade? Não! Acho que qualquer uma das outras personagens se metia a correr passados uns minutos dentro da casa de Teddy. Darius foi perfeito e a culpa do episódio ter sido tão magnífico foi em parte do actor por detrás dele.

Tal como Lakeith Stanfield, também foi dada a Brian Tyree Henry a oportunidade para brilhar solo no episódio “Woods” como Alfred, coisa que fez com mestria.

Entre tudo o que falei a nível de simbolismos e ideias que Donald Glover quer passar, muito se adequa à sociedade em geral.
Bons exemplos são a necessidade em estar sempre a publicar nas redes sociais para não ser esquecido (início do episódio Woods), ou a necessidade em ter uma recordação de um vislumbre de interação com alguém famoso, nem que o famoso não esteja em condições para tal, ou predisposto (final de woods), nem que seja falsa essa interação (como em todo o episódio Champagne Papi).

Depois de uma 1ª temporada que veio reinventar o movimento indie e a forma como se pode dar uso à TV para passar uma mensagem, Donald Glover tinha a missão mais difícil, que era reinventar Atlanta. Algo que fez com sucesso, trazendo-nos assim uma das melhores coisas que já se produziram sob o formato televisivo. Com conteúdo e significado, com arte e técnica, com humor e seriedade, com entretenimento e informação, trouxe-nos a Robbin’ Season*.

*Robbin’ Season

A temporada onde em cada episódio houve um roubo, tenha sido ele de tempo, de paciência, de dinheiro, de bens materiais, de sanidade mental, de uma infância, de uma vida.

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