Cinema Críticas

Crítica: Into the Wild (2007)

Into the Wild

Título original: Into the Wild

Título: O Lado Selvagem

Realizado por: Sean Penn

Elenco: Emile Hirsch, Vince Vaughn, Catherine Keener, Marcia Gay Harden, Jena Malone, William Hurt, Kristen Stewart, Hal Holbrook 

Duração: 148 min.

A partir do momento em que fui desafiado a fazer a crítica de um filme à minha escolha, não foi de todo difícil escolher aquele sobre o qual queria escrever. Into the Wild é o meu filme favorito de todos os tempos. Era um miúdo quando o vi pela primeira vez, há quase 10 anos e lembro-me como se fosse hoje de todas as sensações que o mesmo me trouxe.

Uma das primeiras coisas que fiz foi chegar a casa e contar aos meus pais que não queria ir para a faculdade mas sim pegar na mochila às costas e partir em busca do meu “eu interior“. Eles riram-se. Felizmente a maturidade fez-me ver as coisas de uma outra maneira, mas esta longa-metragem despoletou algo ainda mais forte que estava escondido: a minha vontade de fazer filmes. Eu queria fazer os outros sentirem exatamente o que senti ao ver este filme. E começou aqui a minha jornada pessoal.

Baseado num livro de sucesso de Jon Krakauer com o mesmo nome e inspirado numa história verídica, ao longo de cerca de 2 horas e meia, conhecemos Christopher McCandless (Emile Hirsch), um jovem que depois de terminar a faculdade e com uma vida com tudo aquilo que a maioria dos seres ambiciona, larga tudo, doa todo o seu dinheiro à caridade e parte pela América do Norte em direção ao Alasca.

Para ele nada fazia sentido. A sua história até ali não importava. O seu núcleo familiar estava cheio de mentiras e hipocrisias. A sociedade estava contaminada e não podia ser consertada. Ele queria mais que tudo isto. O dinheiro, a fama e o poder que a maioria das pessoas deseja, a ele davam-lhe repulsa e nada melhor do que se meter no meio do nada, apenas com a sua própria companhia e aquilo que a Natureza lhe dava para perceber quem era e o que queria para si mesmo. Como o próprio disse:

“Mais do que amor, dinheiro, fé, fama, justiça, dêem-me a verdade”

Ao longo de todo o seu percurso, McCandless, que entretanto tinha adotado o nome de Alexander Supertramp, conheceu várias pessoas, com quem travou bonitas amizades: desde o casal hippie Jan (Catherine Keener) e Rainey (Brian H. Dierker), a “amada” Tracy (Kristen Stewart), Wayne (Vince Vaughn), um homem que lhe deu trabalho e estadia durante uns dias na Dakota do Norte até Ron Franz (Hal Holbrook), um velho solitário que o quis adotar. Todas estas pessoas mudaram Chris e ele mudou-as a elas.

Ainda que o enredo se passe durante um período de dois anos, andamos num vai e vem entre o passado e o presente, recorrendo ao uso de flashbacks que nos mostram como começou esta “viagem” espiritual e todo o percurso até chegar ao tão aguardado destino, onde viveu durante 4 meses, num autocarro abandonado. O rapaz acabou por ser traído pelo próprio destino e morreu ali, sozinho, ainda que a causa da sua morte não seja certa. Uns afirmam que foi por fraqueza e falta de nutrientes, o filme e o livro dizem-nos que foi graças a ter comido uma planta envenenada.

Sean Penn, que tão bem conhecemos em frente às câmaras, assume aqui não só a realização, como também o argumento e a nota não poderia ter sido mais positiva. Penn sabia exatamente o que queria filmar, não só as paisagens como caminhando bem fundo dentro do protagonista, trazendo-nos tudo que precisava passar para o público sem serem precisas muitas falas. A fotografia é de uma beleza tal que ainda tenho várias imagens na minha cabeça. O realizador conseguiu trazer o melhor que o livro tinha num trabalho, a meu ver, perfeito e acima de tudo, sem nunca ser parcial sobre o que pensava sobre a história.

Outro dos pontos mais fortes, aliás, talvez o mais forte, é a interpretação de Hirsch. Ainda que esteja rodeado de outros grandes atores, que vão tendo o seu tempo de antena e o fazem de forma exímia como Vaughn, Gay Harden e Stewart, é o protagonista quem tem de levar todos os aplausos. A performance é dura, intensa, emocionante, (sem falar da entrega física) digna de todos os prémios e mais alguns. Aliada a uma das bandas sonoras mais bonitas que já encontrei no grande ecrã, não viesse ela do maravilhoso Eddie Vedder, é impossível ficar indiferente a todos os locais por onde o filme vai passando. Que imagem minha gente! Só dá vontade de saltar para lá!

McCandless não conseguiu trazer um consenso acerca daquilo que foi e daquilo que fez. Enquanto alguns o apontam como um louco e um mimado, que pouco se preparou para aquilo que iria passar, outros vêem-no como um corajoso, alguém que quis tomar as rédeas da sua vida sem medo. Eu faço parte destes últimos. Invejo aquilo que ele quis fazer, invejo o quão fundo foi à essência da vida.

Poderia ficar aqui horas e horas a refletir sobre o que é Into the Wild. A beleza do que vemos, a beleza do que é dito mas acima de tudo a beleza das entrelinhas. Qualquer pessoa devia ver este filme pelo menos uma vez na vida. Se se vai emocionar ou não, já vai de cada um, mas o certo é que ninguém vai ficar indiferente. E agora que acabei de escrever sobre ele, já só me apetece voltar a vê-lo pela milésima vez em loop… e que privilégio!

P.s: Deixo-vos um pequeno verso que Christopher deixou junto a si quando foi encontrado morto. De um lado o bocado do poema, do outro uma pequena mensagem que dizia: “Tive uma vida feliz e agradeço ao Senhor. Adeus e que Deus vos abençoe“.

A morte é uma cotovia destemida: mas morrer tendo realizado

Algo mais semelhante aos séculos

Do que o músculo e o osso, serve sobretudo para disfarçar a fraqueza.

As montanhas são pedra morta, as pessoas

Admiras ou odeias a sua estatura, a sua quietude insolente, 

As montanhas não são amansadas nem perturbadas

E alguns pensamentos dos mortos têm a mesma têmpera. 

TRAILER – INTO THE WILD

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