Dos Quadradinhos à Grande Tela Rubricas

A proeza emocional de Seven Deadly Sins

Quem me conhece bem, sabe que não sou muito de demonstrar sentimentos. Normalmente, nunca os exibo, mesmo num contexto doméstico ou social. O mesmo se aplica quando estou a ver um filme ou uma série que “obriga” a puxar pelo feeling (estou a olhar para ti, This Is Us). No entanto, de vez em quando, encontro aquele filme ou episódio em que me é impossível verter uma lágrima. E neste caso em concreto, falo do episódio What We Lacked, da série de anime Nanatzu no Taisai (também conhecido como The Seven Deadly Sins).

Antes de abordar esse episódio, vou oferecer-vos um pequeno contexto da série (para aqueles que nunca ouviram falar deste anime) e um pouco do personagem-chave do episódio em questão. Portanto, é caso para dizer que ESTE ARTIGO IRÁ CONTER SPOILERS!

O CONTEXTO

The Seven Deadly Sins decorre no reino de Midland (que toma uma forma semelhante ao formato semelhante do atual Reino Unidos e países adjacentes), numa altura em que os humanos viviam em “harmonia” com criaturas mitológicas como fadas, gigantes ou demónios.

A série ganha o seu título por ter no seu foco os Sete Pecados Mortais, um grupo de sete guerreiros que, numa dada altura, foram condenados pelo reino de Liones por cometerem atos de Pecado. Estes sete guerreiros também são considerados como os mais poderosos do reino, com acesso a habilidades e capacidades físicas fora do normal de um ser humano. Cada Pecado Mortal é-lhes atribuído face às suas personalidades distintas.

No entanto, o grupo foi banido e separado quando foram acusados de tentarem derrubar o reino através de um golpe, um crime pelo qual os sete guerreiros foram injustamente acusados de cometer. O anime começa 10 anos após esses eventos, em que o reino de Liones é alvo de um golpe, desta vez por parte das suas próprias forças militares. Isto leva a que a princesa Elizabeth parta numa jornada para reunir os Pecados Mortais para poder reaver o seu reino.

Isto é da primeira temporada, já que na segunda temporada (que ainda está a decorrer), os Pecados Mortais voltam a unir-se para confrontar os Dez Mandamentos, um grupo dos 10 melhores guerreiros do Clã dos Demónios. Mas isso fica para a Mini-Review.

O PERSONAGEM-CHAVE

Como já poderão ter compreendido pelo título do animeThe Seven Deadly Sins foca-se num grupo de sete guerreiros, cada um deles com a sua capacidade especial. No entanto, para  este artigo, irei focar-me no Pecado Mortal da Ganância, Ban.

Ban

Ban é o Pecado Mortal da Ganância (tal como Greed de Fullmetal Alchemist: Brotherhood) e possui uma tatuagem de uma raposa. Se os Sete Pecados Mortais podem ser considerados como “heróis”, Ban é um caso aparte. Antes de se tornar num dos sete cavaleiros do reino, Ban era um ladrão de uma destreza lendária. E tudo isto em seu próprio proveito. Ban também não tem receio de sujar as suas próprias mãos para atingir os seus fins, não tendo qualquer receio de matar as suas próprias vítimas ou mesmo de se virar contra os seus compatriotas.

Em termos de habilidades especiais, Ban possui a magia Snatch que, tal como a própria natureza egoísta de Ban sugere, rouba tudo o que está à sua volta. No entanto, esta habilidade revela-se preciosa em combate, uma vez que também consegue roubar a força e velocidade dos seus inimigos, amigos e tudo à sua volta, somando à sua própria. Ou seja, as suas capacidades não possuem quaisquer limites.

No entanto, Ban possui uma das habilidades mais sinistra dos Sete Pecados Mortais, e que está diretamente ligada a um evento trágico do seu passado. Quando era mais novo, Ban procurou desalmadamente pela mítica Fonte da Juventude, uma fonte que, segundo reza a lenda, tornaria qualquer um que bebesse dela imortal. Dado a sua natureza como ladrão, Ban conseguiu encontrar essa fonte no coração do Reino das Fadas, sendo constantemente ripostado pela sua guardiã, Elaine. Com o passar do tempo, os dois começaram a entender-se, até mesmo desenvolvendo sentimentos amorosos. No entanto, quando menos esperavam, Ban e Elaine são atacados e mortalmente feridos por um demónio. É aqui que Elaine decide fazer o sacrifício final: de conceder a água a Ban!

E é assim que nasce a imortalidade de Ban. Para todos os efeitos e circunstâncias, o personagem não consegue morrer, recuperando imediatamente de todos os seus ferimentos ou golpes sofridos como se nada fosse. Não é à toa que, graças a isto, Ban seja conhecido como Undead Ban.

O EPISÓDIO EM QUESTÃO:

Durante uma fase da segunda temporada da série, Ban, acompanhado de uma guerreira denominada Jericho, faz a sua própria jornada pelo reino em busca de uma maneira de ressuscitar Elaine. Rumores da existência de uma maneira de trazer os mortos de volta à vida levam-se à aldeia de Ravens, a aldeia em que Ban passou grande parte da sua infância.

Quando instalados numa pensão, os dois testemunham um grupo de homens a agredir uma pessoa no meio da rua. Após isto, Ban e Jericho acolhem esse homem, revelado como um Beastman, uma criatura que consegue mudar entre a sua forma humana e a forma animal. Estando no seu leito de morte, a criatura lamenta ter desiludido os seus dois filhos, acreditando estarem mortes. E aqui, Ban recorda a sua infância.

Porque é que este episódio me surpreendeu de forma emocional? Porque estas memórias de Ban esclareceram a sua própria história de vida. Por vezes, não podemos escolher a família que temos. E isto pode levar a duas situações distintas: por um lado, podemos ter uma famíia que nos respeita, que nos ama. Mas por outras, também podemos encontrar tudo menos amor, menos aceitação. E o jovem Ban passou por muito na sua infância: abusado verbal e fisicamente por um pai constantemente embriagado e ignorado pela sua própria mãe, além de ter sido completamente renegado pela própria povoação, Ban recorre a pequenos roubos, não só para chamar a atenção do povo a ele mesmo, mas também para poder sobreviver num ambiente hostil.

E é aqui que, aquando da sua prisão, Ban conhece Zhivago, também ele um ladrão. É de louvar de como estes dois renegados se ligaram de forma praticamente instantânea, com Zhivago a dar o braço a torcer e a ensinar-lhe os truques do ofício ao jovem Ban. No entanto, ao contrário dos seus próprios pais – ou da sociedade em si – Zhivago acolheu Ban na sua vida com um sorriso na cara, demonstrando uma outra verdade inegável: podemos não escolher a nossa família de sangue, mas mesmo um mero desconhecido pode se revelar como um melhor membro da família. O que so torna este seguinte momento mais poderoso, um momento em que Ban em adulto se reúne com o seu pai “perdido”:

Não costumo verter lágrimas em séries de anime (fora algumas exceções, claro), mas o momento em que ambos os homens se reúnem após tantos anos separados, foi aquele golpe que me fez acreditar que estamos perante a era dourada da indústria do anime, em que mesmo as séries que se focam em cenas de ação e personagens coloridas possuem tempo de antena suficiente para atacar os feels.

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