A 7ª Camada da Arte Rubricas

Avengers: Infinity War: O titã da Marvel!!!

ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS!!!

Esta semana estreou o mais recente e mais antecipado filme da MCU, Avengers: Infinity War, e este não desiludiu.

Após os eventos de Thor: Ragnarok, Thanos, um titã, procura as Pedras do Infinito, artefactos que contém imenso poder e que poderão colocar em perigo todo o universo. Os Vingadores precisam de por de lado as suas diferenças e unirem-se para combater esta nova ameaça.

Nesta nova entrada d’A 7ª Camada da Arte vamos abordar o porquê de Avengers: Infinity War ser um épico de referência da Marvel (talvez o melhor até agora feito). Ao contrário da maioria dos filmes deste universo, Avengers: Infinity War é um filme que se destaca dos demais pela maneira como coloca a narrativa acima dos personagens e ainda tira proveito de conseguir conjugar os efeitos visuais sem que estes se sobreponham à própria história.

Podemos ter a certeza que este épico espacial vai beber de muitas influências de grandes clássicos como Star Wars, ao mesmo tempo que procura integrar elementos do género cinematográfico épico com várias batalhas que decerto fazem inveja aos fãs da DC. Há outra questão que distingue este filme dos restantes dos Avengers porque, finalmente, encontramos um vilão que possuí todas as camadas dramáticas que os anteriores não tinham. Ao contrário de Loki e Ultron, Thanos é um vilão que se distingue pela complexidade de saber que é “mau” mas, ao mesmo tempo, tem uma visão que nos poderá deixar a pensar se realmente é tão mal intencionado como aparenta. O personagem de Josh Brolin é provavelmente um dos melhores vilões, não só dos filmes de super-heróis, mas também de quase todo o cinema como arte. [Poderá ser uma afirmação um pouco agressiva, mas, no entanto, depois de muita reflexão, cheguei à conclusão que, de facto, Thanos é invulgar e único à sua maneira.]

Loki, interpretado por Tom Hiddleston, meio-irmão do Deus do Trovão, é o vilão da primeira entrada na trilogia de Thor. Mais tarde veio também a assumir o trono de vilão no primeiro filme The Avengers. O que tornou Loki um “falhanço” como vilão de ambos os filmes?

Em Thor, Loki é-nos apresentado como um personagem ambíguo: tanto poderia ser reconhecido como um vilão destemido, ao mesmo tempo que possuía um caráter mais leve como sidekick do nosso herói. O Deus da Mentira foi inicialmente tido como um personagem com senso comum que era constantemente arrastado para problemas pelo seu irmão e não por vontade própria. Já não é novidade que os filhos bastardos acabam sempre por sofrer, de alguma forma ou de outra, de desprezo, desconsideração ou culpa por parte da família. Loki não fugia a este cliché: Odin sempre teve preferência por Thor e até esse contraste é visto pela própria fisicalidade dos personagens, em que Thor é loiro, de aparência forte, sorridente e imponente, enquanto que Loki possuí cabelos negros, pele pálida e expressão entristecida (algo que ambos os atores souberam transpor para a tela da melhor forma). Depois de bastantes desilusões, Loki torna-se um personagem que é sedento por poder e assume um caráter mais duro.

O problema com Loki foi precisamente a mudança brusca do conceito de vilão para sidekick de forma muito repentina. Enquanto que em Thor o personagem era claramente um vilão, nos filmes seguintes, em que a sua presença era maior (Avengers e sequelas de Thor), Loki perdeu o seu carisma. Em Thor: The Dark World e Thor: Ragnarok, Loki torna-se claramente um comic relief que, embora mantenha uma postura manhosa, astuta e susceptível a várias interpretações, deixou o carácter de vilão para trás. Isto é um erro quando o público se tenta habituar ao personagem por ser um antagonista e, no entanto, é forçado a ter que o aceitar como um sidekick que se limita a mandar umas piadas e a auxiliar o seu irmão nas suas aventuras, perdendo a sua própria autonomia enquanto personagem.

Ultron, em Avengers: Age of Ultron, é um vilão que é fruto da ambição humana. Tony Stark e Bruce Banner foram os responsáveis pela sua criação: como um vírus inteligente, dotado de uma capacidade de aprendizagem rápida, este torna-se um vilão quando se apercebe que a humanidade é inimiga de si própria. Ou seja, Ultron é uma inteligência artificial que não se preocupa em aniquilar o ser humano para provar que ele não é digno de habitar qualquer planeta. Ao contrário de Loki e Thanos, a motivação de Ultron é básica e já cansada, na medida em que não é atribuído ao vilão uma camada humana como os restantes. Encarnado por James Spader, Ultron é provavelmente um dos vilões menos relevantes de todo o MCU.

Por fim, Thanos chega e arrasa. Todas as características dos vilões referidos anteriormente convergem em algo que, não só é surpreendente, como também se assume como um gigante do cinema em geral. Thanos é tão rico e dramaticamente denso que é impossível ficar-se indiferente à sua conduta e à sua essência. Josh Brolin conseguiu criar um vilão que, para além de toda a componente dita maligna do personagem, ainda nos consegue fazer refletir se as suas intenções serão tão más quanto podemos observar. Thanos é um vilão com uma presença invulgar em ecrã porque, independentemente de reconhecermos o seu caráter de tirano, uma parte de nós não consegue ficar indiferente às suas intenções que se revelam – por favor não me interpretem mal – plausíveis. Thanos incentiva o genocídio, crendo que para um planeta conseguir sobreviver, metade da população necessita de morrer. A fome e a escassez de recursos, da mesma forma que é importante para a sobrevivência de uma espécie, também podem levá-la à ruína. Isto porque, com a sobrepopulação, um planeta não consegue ser auto-suficiente para suportar os excessos das espécies que o habitam.

Em Avengers: Infinity War, ficamos a saber que a “casa” de Thanos sofreu deste preciso problema. Poderemos condená-lo pela sua atitude? É o genocídio a resposta mais prática ou mais correta para conseguir atingir este fim? A atitude de Thanos é facilmente condenável mas, no entanto, no contexto do filme faz todo o sentido para criar uma linha de história forte e com pujança para nos deixar emocionalmente mais próximos do personagem.

Comparando com a nossa própria História, podemos aproximar Thanos com uma figura icónica e, no entanto, condenável que é Adolf Hitler. Tanto um líder como o outro são personalidades sem qualquer tipo de defesa, uma vez que utilizaram a “paz” como pretexto para justificar as mortes que ocorreram pelas suas mãos. Comparar um ditador fictício com um real é a génese de todo o percurso de um vilão com várias camadas. Se tivermos em conta que Adolf Hitler chacinou milhões de judeus por os considerar uma “raça inferior”, o que dá direito a Thanos de decidir quem vive e quem morre? Apesar de motivações diferentes, há algo que une estes dois tiranos: existe claramente um “complexo de Deus” que ambos querem alcançar. No entanto, este complexo não é tão linear para Thanos quanto o filme tenta vender. Afastando-nos das vertentes da nossa própria História, o personagem de Thanos não é tão prático e fácil de entender como inicialmente poderá parecer.

Numa fase inicial, somos confrontados com Thanos em pequenas cenas pós-créditos (The Avengers, Avengers: Age of Ultron, entre outros) o que, por si só, não nos dá qualquer ideia da sua dimensão como personagem, e apenas vende o seu lado mais misterioso. Através deste método o espectador não consegue criar outra imagem de Thanos na sua própria consciência, pintando-o apenas como uma ameaça ao planeta Terra, e manipula-nos a concluir que este será apenas mais um vilão, e nada mais do que isso.

O primeiro contacto com Thanos em Avengers: Infinity War é violento, drástico e que continua a alimentar este conceito referido anteriormente. É precisamente isto que torna o filme tão especial: o conceito-base de Thanos como vilão vai sendo gradualmente desmembrado à medida que o enredo avança. Thanos não é apenas um vilão; apesar de considerarmos as suas atitudes erradas, a justificação que o próprio utiliza para as suas ações não deixa de ter a sua lógica: em termos práticos, a sua atitude é credível e concretizável (numa linguagem informal: “se há demasiadas bocas e os recursos são escassos, segue-se pela via mais fácil e elimina-se metade das bocas”); no entanto, em termos morais, é condenável, porque não cabe a Thanos agir como uma força divina, decidindo quem vive ou quem morre.

Ao contrário de quase todos os filmes de super-heróis, Avengers: Infinity War tem um dos vilões mais ricos do cinema. Para justificar isto basta termos em conta que um vilão, por norma, é construído com base numa vingança ou na procura por algo que lhe foi forçosamente retirado. Thanos rompe com este cliché. Vemos um vilão a ter que sacrificar a única coisa que o puxava para um lado minimamente humano em prol de ver a sua missão ser realizada com sucesso. Thanos é apanhado desprevenido e confrontado com a sua própria fraqueza (Gamora), vendo-se obrigado a escolher entre sacrificar a sua filha adoptiva ou adquirir a Pedra da Alma (“alma por alma”). O gigante, ao reconhecer a sua própria fraqueza, cai em desespero, não escondendo as lágrimas a partir do momento em que descobre que precisa de tomar uma atitude para a superar. É nesta ideia de vermos o intocável titã a ser vencido pelas suas próprias emoções que faz com que o personagem seja o mais complexo em dimensão dramática de todo o MCU.

Thanos é um vilão que se rege pela necessidade e não pelo prazer. Podemos ver em várias cenas ao longo do filme que Thanos teria oportunidade de aniquilar os heróis e, no entanto, não o faz. Apesar de ter o poder para o fazer, não acredita que tenha o direito de tirar (ou julgar) uma vida. As únicas vidas que tomou durante o filme foram apenas por pura necessidade: Gamora para obter a Pedra da Alma, e Vision para obter a Pedra da Mente. O caso da morte de Loki, como apresentado no início do filme, age como um aviso para quem se intrometer no seu caminho. Podemos pensar que o caso de Loki não é uma necessidade, mas é o caminho que Thanos precisa de tomar para criar a sua própria reputação e não ser desafiado.

A imagem do vilão que é transmitida ao público é que este é o único que é capaz de levar a cabo algo que transcende a capacidade de qualquer outro ser (ou, pelo menos, isto é o que este acredita). Há claramente uma ideologia divina na figura de Thanos: não só existe uma complexidade de se tentar tornar num Deus, como também há a profecia (criada pelo próprio) de que apenas ele é o responsável e capacitado para conseguir alcançar o seu objetivo final.

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Outra questão importante em Thanos é a rivalidade com Tony Stark. Estes dois são os líderes das suas próprias fações, e isto torna-os, automaticamente, inimigos e rivais. Há algo que os une e que faz com que o seu confronto seja não só inevitável, como também intenso: a ambição. Tanto Thanos como Tony Stark são indivíduos que não gostam de ser contestados, têm uma presença autoritária, recorrem à ironia com frequência para mostrar o seu ponto de vista, e são guiados pela sua ambição em serem os melhores naquilo que fazem. Outra característica é que ambos se esforçam até ao seu limite máximo para conseguir atingir as suas metas. Existe um respeito por parte de Thanos para com Tony Stark: este revê em Tony a mesma dedicação que existe em si próprio. Após desferir um golpe mortal em Tony, o gigante diz “I hope they remember you.“, referindo-se ao esforço e à força de vontade por que Tony merece ser reconhecido pelos habitantes da Terra, a quem jurou proteger.

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Avengers: Infinity War é mais uma proeza dos talentosos irmãos Anthony e Joe Russo no Universo Cinematográfico da Marvel. Estes dois foram também os responsáveis pelos restantes filmes mais celebrados pelos fãs, Captain America: The Winter Soldier e Captain America: Civil War. Estes irmãos são pioneiros em provar que a Marvel não é apenas explosões e sequências de ação mas sim algo muito mais profundo e interessante.

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Em The Winter Soldier, os Russos conseguiram provar que Steve Rogers não é apenas uma máquina militar feita apenas para cumprir ordens, mas sim um herói astuto que sabe contrariar as regras que lhe foram impingidas desde o início, especialmente quando se vê confrontado pelo antagonista do filme, o seu melhor amigo Bucky Barnes, que combate forçosamente pelo lado inimigo.

Em Civil War, o conflito entre o moralmente correto de Steve Rogers e o prático circunstancial de Tony Stark é o que conduz o filme a tornar-se memorável e original, criando um conflito entre os dois líderes do grupo dos mightiest heroes of Earth.

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O que torna Infinity War superior aos anteriormente referidos é precisamente a inversão dos papéis de protagonista e de secundário: se repararmos, os heróis passam para segundo plano num filme completamente dominado pelo antagonista. Thanos é, de facto, a grande essência do filme. O personagem é despido moralmente perante os nossos olhos e ficamos com a percepção de que todos os heróis são apenas adornos que embelezam a sua história. Numa opinião pessoal, Avengers: Infinity War poderia ser um caso de fracasso, muito porque o seu elenco está repleto de celebridades que são protagonistas dos seus próprios stand alones; todavia, os Russos conseguiram reduzir o tempo de antena de cada um para um nível apoximado, fazendo com que Thanos sobressaísse dentro de uma narrativa que, supostamente, teria o foco principal em todos os heróis que a compõem. É neste filme que a “maldição” da Marvel é finalmente quebrada: consegue um vilão com valores morais fortes, escondidos dentro de uma aparência intimidante e imponente, dando propósito aos seus objetivos e explorando as variadas dimensões dramáticas do mesmo. Passar os protagonistas para segundo plano torna-se uma estratégia original e interessante, que nos força a criar empatia com o vilão, desviando a nossa atenção do já cansado método de colocar os heróis no centro da história. Os realizadores tomaram a iniciativa de colocar Thanos em destaque, precisamente porque o público já está mais que familiarizado com todos os heróis que combatem em defesa da Terra.

Infinity War é um filme icónico e importante dentro do universo, não só porque foge aos cânones do género como também nos dá a conhecer um personagem que foi construido vagarosamente em filmes anteriores que, finalmente, foi dado a conhecer e se tornou emblemático por se distanciar dos restantes antagonistas da Marvel e por a narrativa ser desenvolvida em torno dele. Infinity War é um festim visual que não só nos deixa de olhos a brilhar, como também é o culminar de 10 anos de esforço e dedicação por parte de uma equipa que teve a audácia de trazer a matéria de sonhos de muitos jovens como eu.

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