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Os nossos eternos Capitães de Abril…

Capitães de Abril

13 Anos. Foi este o tempo de que Maria de Medeiros precisou para realizar a longa-metragem “Capitães de Abril”, filme no qual participa também como actriz. E a verdade é que merece todo o mérito por ter tido na altura a ousadia de pegar num tema que precisava de ser glorificado nas grandes telas: a Revolução dos Cravos, que pôs fim a anos de ditadura em Portugal. Mesmo que na altura fosse uma mera aspirante a cineasta, com fraca experiência.

Terá dito que não foi fácil concretizar o projecto. “É um filme caro para os padrões portugueses, porque em Hollywood o seu orçamento seria considerado irrisório”. O certo é que Medeiros não desistiu da ideia e deu forma cinematográfica àquele que terá sido um dos episódios fulcrais da história portuguesa em pleno séc. XXI. 25 de Abril de 1974, quando um grupo de jovens militares de baixa patente se insurgem contra a Guerra Colonial e a ditadura de Salazar, pressionados pela intelectualidade local e insatisfeitos com a condição de soldados colonialistas, obrigados a lutar por um império morto e uma ditadura ultrapassada.

O interesse de Maria terá surgido porque os pais eram eles próprios opositores do Regime, e já uma Maria muito jovem começara a ter contacto com as figuras e os líderes emblemáticos da Revolução que se vinha a construir. “Era muito jovem quando conheci o Capitão Maia (…) Tive acesso aos seus textos (textos nos quais estavam presentes experiências nas Colónias ou nos quais constavam ideias revolucionárias) e são textos bonitos, cinematográficos e cheios de humor”.

De facto, para todos nós que vimos o filme, é possível reparar como os capitães, na pele dos atores Steffano Arcosi e Manuel João Vieira são representados como personagens idealistas, cativantes e sonhadoras. É incrível como os “desordeiros”, os “opositores”, acabam por cair em graças do público porque, na verdade, se afiguram como a melhor (ou única) opção possível para um país à beira da ruína governativa.

E de facto esta, que se segue, é uma das passagens mais emblemáticas do filme:

Todos nós sabemos que existem vários tipos de Estado: os Estados liberais, os Estados social-democratas, os socialistas etc. Mas nenhum deles é pior do que o estado a que aqui se chegou. Acho que é preciso acabar com ele. Quem vem comigo?”.

De facto, a única opção possível afigurava-se em desobedecer ao sistema. Maria de Medeiros também acredita nisso, e isso moveu-a ainda mais na concretização do seu objetivo cinematográfico. “Há toda uma máquina preparada para nos fazer acreditar que existimos para consumir, quando na realidade não é nada disso.” Talvez por isso considere que tenha sido tão fantástico encenar os momentos de euforia do povo, quando as pessoas saíram à rua para apoiar os militares. A florista distribui cravos aos revolucionários, como ocorreu na realidade, e o movimento ficou conhecido como Revolução dos Cravos. “Era maravilhoso ver as pessoas recriarem a história diante da câmara. Elas estavam tão entusiasmadas que não paravam quando eu mandava parar a cena. Esta euforia deixava toda a equipa em êxtase, porque sabíamos que estávamos a captar algo forte e verdadeiro.

Maria explica-nos o que quis passar “cá para fora” com este filme. “A revolução é um movimento interior; se não conseguirmos mudar interiormente, não poderemos abrir-nos para pensar em formas mais justas e humanas.

É um filme que qualquer Português deve ver, dada a sua herança de sangue. Uns, certamente, o sentirão mais na pele do que outros. Quem lá esteve, quem gostaria de lá ter estado. Mas acredito que as gerações se encarreguem de ir transmitindo a importância de valorizar a história de uma pátria através da perpetuação das memórias.

Por enquanto, já nos dava jeito um novo 25 de abril.

Trailer – Capitães de Abril

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