A 7ª Camada da Arte Rubricas

The Grey: Uma jornada pela vida num cenário de sobrevivência.

ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS!!!

The Grey é um filme que se foca na sobrevivência impiedosa no meio selvagem e fá-lo de forma humana e realista. Nesta nova entrada d’A 7ª Camada da Arte iremos falar sobre o aspeto de como o ser humano se comporta fora do seu meio-ambiente, bem como iremos explorar o aspeto psicológico que afeta, quer o protagonista do filme, quer outros que irão ser mencionados ao longo do texto.

The Grey conta a história de Ottway, um caçador contratado por uma empresa petrolífera para proteger os trabalhadores de ameaças da vida selvagem. Durante o voo de regresso a casa o avião despenha-se e Ottway vê-se forçado a liderar um grupo de sobreviventes pela região gelada do Alasca. Não só têm que enfrentar as condições agrestes da natureza como também uma alcateia de lobos. Para além disto, este grupo de desconhecidos precisa de se enfrentar a si próprio, na medida em que nunca conhecemos quem está ao nosso lado numa situação de desespero como esta.

Apesar da premissa parecer cliché e já bastante comum, o filme não é, de todo, sobre ser perseguido por lobos, mas sim sobre encontrar força numa situação de desespero. Qual será o significado deste sofrimento?

The Grey é um caso que, à primeira vista, poderíamos achar muito semelhante a filmes mais recentes ou até alguns clássicos. No entanto, possui o seu próprio carisma e distancia-se dos restantes do género, como, por exemplo, Cast Away ou The Revenant.

Cast Away conta a história de um funcionário da FedEx que, após um acidente de avião, naufraga numa ilha deserta, cuja única companhia é uma bola de volleyball chamada Wilson. Chuck Noland, interpretado por Tom Hanks, anseia poder ver a sua família uma última vez e vai até aos seus limites para concretizar este desejo.

The Revenant acompanha a procura de vingança de Hugh Glass, um homem que, após ser atacado por um urso, é deixado para trás pelo resto da sua Companhia, juntamente com o seu filho, que é brutalmente assassinado. O personagem de Leonardo DiCaprio atravessa toda uma inóspita e impiedosa tundra gelada, passando por uma série de desafios físicos e psicológicos, que testam a sua capacidade de sobrevivência.

À semelhança de ambos, The Grey transporta os personagens para um meio difícil e isolado da civilização, testando frequentemente os limites de cada um. Há elementos que unem estes três filmes: não só há traços de Cast Away em The Grey, especialmente o acontecimento trágico do despenhar do avião, como também The Revenant partilha do mesmo ambiente gelado e mote de seguimento. Sendo que todas estas películas se focam em histórias de sobrevivência, é importante que o protagonista se encontre em situações drasticamente preocupantes que colocam em causa o seu bem-estar físico e psicológico. Em cada um dos casos está patente que o elemento mais importante deste género cinematográfico é apelar a empatia do público perante as condições em que eles se encontram.

No entanto, The Grey desvia-se neste aspeto dos exemplos acima referidos: em Cast Away, a motivação principal do protagonista é voltar para a sua família; em The Revenant, Hugh Glass é guiado por uma sede de vingança contra aqueles que o atraiçoaram; enquanto que em The Grey a sobrevivência não conta apenas com um indivíduo, mas sim com um grupo de sobreviventes desesperados, assustados e inexperientes no meio selvagem. Todavia, todos estes personagens secundários têm uma razão pela qual lutam pela vida, enquanto que Ottway se desvia do protagonista comum de filmes do género.

Em The Grey os personagens secundários, como Talget, Burke ou Henrick, possuem motivos fortes para se quererem manter vivos e regressar às suas famílias. Vamos conhecendo-os gradualmente, percebendo quais são os aspetos que os prendem à realidade, ao mesmo tempo que vamos seguindo o próprio protagonista durante o seu percurso. Esta é uma característica que The Grey explora da melhor forma, deixando-nos a conhecer estes indivíduos ao nosso próprio ritmo, sem pressas e a acompanhar o próprio meio que os envolve, conseguindo captar com realismo o fator que nos une enquanto membros da espécie humana. Mas o que nos torna tão fortes para lutarmos pela nossa própria vida num meio em que nos sentimos completamente sós e desamparados? O que nos agarra à força de viver? Em The Grey apercebemo-nos que, de facto, o ser humano apega-se ao amor para conseguir arranjar forças para sobreviver mais um dia. O amor incondicional pela família é o que nos torna emocionalmente mais resistentes e poderosos para enfrentar os desafios mais hostis dos nossos quotidianos.

A fé é uma das questões que é abordada de forma subtil e, no entanto, importantíssima para percebermos mais sobre a condição humana. Num momento de proximidade entre os personagens, Talget (Dermot Mulroney) acredita que o destino tem uma enorme influência na sobrevivência do grupo: ele afirma que Deus tem planos mais sorridentes para eles após terem escapados ilesos da queda do avião. No entanto o grupo discorda, e Talget questiona a fé de cada um, incluindo a de Ottway. O seu passado acaba por ser uma determinante que o levou a não ter crenças que o façam agarrar-se à vida.

Este aspeto da fé é contrariado por Diaz (Frank Grillo), que após tudo o que passou para sobreviver, acaba por desistir. A cena pode ser traduzida por um simples diálogo entre Henrick e o próprio: “HenrickIs that it? You’re just gonna sit there? Is that what you want? Diaz: Yeah. Henrick: After what we survived? Diaz: That’s exactly why.” O que podemos tirar como conclusão deste momento é que a motivação de Diaz para sobreviver é sobreposta pelo seu próprio sofrimento. Diaz teve sempre uma vida monótona, repetitiva, rotineira e aborrecida, pelo que nunca conseguiu atingir um estado de felicidade que o fizesse valorizar a vida pelo lado positivo. Há algo neste momento que o torna tão poderoso, chocante e especial; tal como num poema de Alberto Caeiro em que a natureza influencia o estado de espírito do poeta, também em The Grey sentimos que os personagens partilham o mesmo silêncio, a mesma solidão e a mesma dor da própria natureza que os rodeia. A imagem em baixo representa toda a jornada espiritual de Diaz ao longo do filme. Ilustra um ambiente hostil e frio, da mesma forma que Diaz nos é apresentado (como um ser humano frio e despreocupado) e, no entanto, calmo e belo, espelhando a simplicidade e o culminar da condição que este aceita para si mesmo.

Mas falar em The Grey não pode acontecer sem dissecarmos o protagonista Ottway, interpretado magistralmente por Liam Neeson (o qual a Academia se esqueceu de, pelo menos, nomear). No início, Ottway é um personagem tão quebrado psicológica e emocionalmente que pensamentos de suicídio lhe assombram a mente. Uma maldição que o acompanha é a morte da sua esposa (que vamos vendo com frequência em momentos de sonho). Mas então o que torna Ottway um protagonista tão diferente de todos os outros? Enquanto que todos os seus companheiros se agarram a algo para enfrentar os desafios que se avizinham ao longo do filme, Ottway acaba por estar desprovido de uma motivação palpável que o leve a lutar pela sua.

Ao contrário de outros filme de sobrevivência este em particular é um que explora a vontade de sobreviver dum homem que não tem nada pelo que viver.

O instinto é algo que está marcado em The Grey. No sentido literal, o instinto é ilustrado pelos lobos que atacam ferozmente porque o seu território está a ser invadido; enquanto que, no sentido metafórico, Ottway é a personificação do instinto humano. Este instinto é traduzido pela atitude altruísta do protagonista que, embora não possua uma motivação pessoal, encontra forças para ajudar os outros ao seu redor. Como seres humanos, o nosso impulso de querer ajudar o próximo pode ser um dos motivos mais estranhos num meio em que nós próprios estamos a lutar pela nossa própria existência; no entanto, é precisamente esta força de vontade que guia Ottway a, pelo menos, fazer dos motivos dos outros o seu motivo principal para lutar pela vida.

O que nos torna sobreviventes? O que nos guia para encontrarmos uma saída de algo que não tem escapatória? O que faz da vida um adversário a temer? Podemos pensar que nunca nos iríamos rever em situações semelhantes, mas The Grey, de facto, mostra-se um exemplo interessante e que nos leva a refletir sobre como nós lidamos com as adversidades da vida. A vida é uma luta no frio, no desconhecido, contra uma alcateia de lobos ferozes, mas também podemos ainda encontrar uma paisagem bela e calma, como a bonança depois da tempestade (referindo novamente o caso de Diaz). Há algo que nos afasta do medo e nos faz ter coragem para alcançarmos aquilo que sempre sonhamos. A própria vida faz-nos lutar pela sobrevivência contra ela própria. Quando nos sentimos encurralados ou desamparados, o nosso instinto principal é tentarmos escapar destas situações e, por norma, somos egoístas, individualistas e egocêntricos. Nunca colocamos o outro acima de nós, mas a lição que The Grey nos dá é precisamente a de que, mesmo não tendo força de vontade para viver, podemos sempre encontrar uma réstia de esperança ao ajudar os outros.

Quando não conseguimos mudar uma situação somos obrigados a mudarmo-nos a nós próprios. Esta ideologia em The Grey é explorada pela jornada de Ottway que, inicialmente, não tem esperança para si mesmo, mas vê-se forçado a ter que mudar a sua conduta. A vida é um caminho ardiloso que nos faz constantemente alterar quem somos para ficarmos satisfeitos ou para resolvermos algum problema. Um dos aspetos que leva The Grey a ser um filme importante e com uma mensagem bastante forte e pertinente é precisamente esta. A capacidade do ser humano de se moldar às situações e às adversidades é o que o torna a única espécie capaz de sobreviver, não só fisicamente, como também psicologicamente.

Mas o que acontece quando perdemos a pouca esperança que temos e quando o desespero e o medo se instalam? É nesta situação que Ottway se encontra após a morte do seu último companheiro, Henrick (Dallas Roberts). Quando Ottway se vê sozinho num local inóspito e sem forças roga a Deus, pedindo uma justificação por todos os acontecimentos da sua vida passada e presente. Num ato final de desespero, grita “Jesus. Please, don’t do this. Do something. You phony, prick, fraudulent motherfucker. Do something! Come on! Prove it! Fuck faith, earn it! Show me something real. l need it now. Not later, now. Show me, and l’ll believe in you till the day l die. l swear. l’m calling on you. l’m calling on you!“.

A sensação que este momento em particular do filme nos transmite é que Ottway se vê forçado a enfrentar um último desafio: o escolher entre voltar a encontrar valor na vida que o faça agarrar novamente a ela, ou o de ficar encurralado pela morte. A sobrevivência no Alasca é um teste à vontade dele, e uma jornada emocional nunca antes vista. Como é óbvio, Ottway não obtém resposta dos céus e é neste preciso momento que se apercebe que ninguém o vai tirar daquela situação, e que tem que agir por conta própria para se livrar dela.

No final, Ottway encontra-se no covil dos lobos, o último local onde deseja estar e que simboliza o aperto final em que se encontra emocionalmente. Esta última cena tem um significado muito forte para o contexto do filme: na situação de maior desespero, onde já não há qualquer esperança para si, Ottway encontra uma maneira de tornar uma tragédia pessoal num momento de triunfo, enfrentando a situação em que se encontra com coragem. Este é o seu último ato de bravura, citando o poema escrito pelo seu pai: “Once more into the fray…; Into the last good fight I’ll ever know.; Live and die on this day…; Live and die on this day…”. Este poema espelha toda a viagem de Ottway no filme, desde os seus pensamentos suicidas inicialmente até ao grande ato triunfante e corajoso do final. O poema é recitado precisamente três vezes no filme, uma vez em cada ato. É recitado quando Ottway está prestes a cometer o suicídio – quando os sobreviventes estão a partilhar as suas histórias e a razão de lutarem para sobreviver – e, por fim, quando Ottway encontra coragem numa situação sem escapatória.

Podemos questionar-nos vezes e vezes sem conta o que faríamos nas situações que os personagens do filme enfrentam. Nunca podemos assumir exatamente como será a nossa reação, muito porque todos nós somos diferentes uns dos outros. A sobrevivência não é algo linear. O que eu faço poderá não ser o que o outro faz. Sobreviver implica uma crescente vontade de nos agarrarmos a algo que é mais forte do que o desejo de morrer. Talvez possamos encontrar esse esforço no amor incondicional da família, talvez no nosso próprio ego, ou até mesmo no ato altruísta de ajudar o próximo. The Grey poderia ser um filme simples e humilde mas, de facto, tem muito mais para mostrar do que a ideia prática de ver um grupo de sobreviventes a fugir de uma ameaça. Conseguimos rever-nos no personagem de Ottway porque todos nós tivemos momentos na nossa vida em que estivemos literalmente “no fundo do poço” e que procurámos ajuda espiritual para nos voltarmos a erguer, seja na esperança de que nós próprios nos mudemos, ou então que as próprias situações se alterem conforme o tempo, quer para o lado bom, quer para o mau.

The Grey é um filme especial e que a indústria do cinema resolveu fechar os olhos, não lhe deu o devido mérito e que, muito provavelmente, irá suscitar as mesmas emoções em vocês que me provocaram a mim.

“Reality will break your heart
Survival will not be the hardest part
It’s keeping all your hopes alive
When all the rest of you has died
26, Paramore

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