A 7ª Camada da Arte Rubricas

Warrior: Um conto de sangue!

ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS!!!

Warrior, um filme realizado por Gavin O’Connor, toca em temáticas profundas e não é um filme feito para massas. Podemos dizer que este é um filme que vai buscar algo de especial e emocional ao narrar uma história familiar com contornos de sangue. O sangue é um dos atributos especiais de Warrior, isto porque o sangue assume aqui duas conotações: temos os laços de sangue entre família e a violência gráfica que conduz a maior parte do filme. Nesta nova entrada d’A 7ª Camada da Arte vamos mergulhar nas profundezas do que é o sentimento familiar e da maneira como nós próprios lidamos com situações semelhantes.

Warrior conta a história de Brendan e Tommy Conlon, dois irmãos que se separaram em idade jovem um do outro. O motivo que despoletou esta situação consiste no problema de alcoolémia do pai, que o levava a agredir violenta e repetidamente a sua esposa, mãe de ambos os irmãos. Tommy, o irmão mais novo, fugiu com a mãe, enquanto que Brendan ficou para trás com o seu pai. Independentemente das escolhas de cada um, ou dos motivos que os fizeram ficar com um dos seus progenitores, estes irmãos não tiveram uma vida fácil. Brendan decidiu ficar com o pai por causa da sua namorada, e Tommy tomou a liberdade de seguir com a mãe para se afastar de um quadro familiar instável e violento.

O destino decidiu unir estes dois irmãos, que apesar de partilharem o mesmo sangue, cresceram em ambientes completamente diferentes. Tommy, interpretado por Tom Hardy, é, de todos os personagens, o mais complexo. Ao longo de Warrior vamos conhecendo este personagem que se revela um autêntico mártir da sua própria vida: para além de ter sido separado do pai e irmão, assistiu à morte da mãe, o que o levou a alistar-se no exército; acabou por ser extraditado e, durante uma missão, viu o seu “irmão” (melhor amigo) perecer diante dos seus olhos. Todos estes fatores contribuem para um personagem deprimido e traumatizado. Este canaliza os seus problemas e culpabiliza a sua família, em específico aqueles que ele considera que o abandonaram. Apesar de todas estas mágoas, Tommy continua a sacrificar-se para o bem de determinadas pessoas que considera especiais na sua vida.

Por outro lado, Brendan, interpretado por Joel Edgerton, aparenta levar uma vida estável e bem sucedida após deixar os seus dias no ringue como lutador profissional: é professor de Física numa escola secundária e é um marido e pai devoto. Não se deixem enganar por esta ilusão de vida idílica, porque Brendan não é tão feliz como parece: tem problemas financeiros, a sua casa está em risco de ser hipotecada e a sua filha mais nova tem um problema cardíaco, o que ainda contribui mais para a instabilidade económica. Como um ato de desespero, Brendan ingressa em combates ilegais para conseguir algum retorno monetário. O resultado destas práticas leva Brendan a ser suspenso do seu emprego. Como tudo na vida, este tipo de problemas, com base em bens materiais, não significa que não possamos ser felizes no conforto da nossa família. Isto é o que acontece com Brendan. Apesar de não estar estável financeiramente, encontra o seu cantinho de felicidade ao lado da sua família.

No entanto, nenhuma desta felicidade advém do relacionamento com o seu pai. Após Tommy ter partido com a mãe, Brendan pensou que teria finalmente toda a atenção e carinho da figura paternal para si mesmo; isto não aconteceu porque Pops (alcunha de Paddy Conlon, seu pai, interpretado por Nick Nolte) demonstrava uma profunda preferência pelo seu irmão mais novo. É através disto que Brendan se sente inferior, incapacitado e inseguro. Todos nós temos momentos no passado que nos marcaram, eles infiltram-se na nossa memória como um demónio que toma conta de um corpo. A vida é sempre injusta quando se trata de querer a atenção de alguém que não nos consegue retribuir. Tal como Brendan muitos de nós passaram ou passam por situações semelhantes. É dificil conseguir conjugar uma vida feliz quando ficamos com a sensação que nunca fomos os favoritos em nada. Favoritismos à parte, é na nossa força interior que continuamos a lutar por aquilo que ambicionamos e que, mais tarde, nos fazem verdadeiramente felizes. Há uma parte de nós que se identifica com Brendan, seja pela situação presente por que está a passar ou pelos problemas do passado. Mas algo que podemos tirar como conclusão é que nunca é tarde para resolvermos as questões mais difíceis que assombram as nossas vidas.

Apesar de separados, há algo que partilham em comum: o ódio pelo seu pai. Pops, um veterano de guerra que se refugia no álcool, nem sempre foi uma pessoa amargurada. Era a treinar Tommy nas artes marciais que encontrava alguma felicidade, até que o seu vício o dominou por completo. Foi este que contribuiu para a morte da sua ex-mulher e para o afastamento de ambos os seus filhos. Apesar de ser a causa da ruína da família, o veterano conseguiu “endireitar-se”: procurou ajuda, curando o vício da bebida, e após 1000 dias sóbrio decidiu dar a notícia pessoalmente ao seu filho mais velho. Brendan reage com indiferença a este feito, o que entristece Pops, que esperava por uma possível reconciliação.

Podemos culpar Pops? Estará esta questão intimamente ligada com a dor e sofrimento daqueles que lhe eram mais próximos? Pops é uma figura que retrata um problema bastante grave na sociedade. O alcoolismo e os vícios mundanos são causadores da destruição de muitos lares. Pops sempre tentou fazer de Tommy o seu elo mais forte, enquanto que a sua fraqueza o dominava por completo. Não é apenas o álcool que faz de Pops uma imagem a temer: é também a preferência. Qual é o pai que tem preferência por um dos filhos? Infelizmente isto é algo muito comum na nossa sociedade. Ao longo da nossa vida, nós projetamos os nossos problemas em pessoas que assumimos como culpados de algo que nos marcou. É mais fácil culparmos alguém do que a nós próprios. Pops, apesar de ter sido o catalizador dos problemas da família Conlon, reconhece os seus erros. Mesmo sendo o causador, haverá possibilidade de Pops se redimir?

Há muito em que podemos condenar em Pops, mas é Tommy e Brendan que possuem os motivos mais fortes para o fazer. Ainda que com ideais e experiências de vida diferentes, ambos os irmãos não conseguem superar a mágoa e a dor que o seu pai lhes causou, mesmo que este esteja a tentar reaproximar-se dos dois. Tal como referido anteriormente, é mais fácil culpar os outros do que a nós próprios. Projetar o nosso rancor e ódio é algo que aparentemente é mais fácil do que perdoar e avançar com a vida. Será tarde para reconciliações? Devemos nós deixar de parte a nossa dor, os nossos problemas passados e procurar aceitar que errar é humano?

Há algo que nós, enquanto indivíduos racionais, não conseguimos distanciar porque a nossa mente entra em conflito com o nosso coração. Os problemas de Brendan e Tommy com o seu pai são o reflexo de como a vida, embora com os seus momentos amargos, tristes e dolorosos, encontra sempre uma pequena réstia de esperança para nos recompormos. Em Warrior, Brendan despreza o pai porque este nunca lhe deu atenção, ao passo que Tommy o odeia pela influência do mesmo na morte da sua mãe. O presente é espelhado pelo passado da família Conlon, com Pops a ser a “vítima” das suas próprias ações. Ao longo do filme os personagens, ao contrário do que é habitual, acabam por não conseguirem desprender-se daquilo que os definiu: Brendan nunca deixou de sentir a necessidade de atenção, aprovação, valorização e carinho do pai, enquanto que Tommy sempre manteve a sua postura fria, distante, desprezadora e rancorosa perante tudo aquilo que Pops contribuiu para a sua vida.

Este último acaba por tomar uma atitude manipuladora, aproveitando-se de um momento vulnerável de Pops para um interesse próprio. O seu objetivo final é ganhar o torneio de artes marciais Sparta, cuja recompensa é um montante de 5 milhões de dólares. Apesar de odiar o pai com todas as suas forças, Tommy precisa que Pops o treine para este evento. Ao longo dos meses de treino, o que poderia ser uma oportunidade de reconciliação e criação de laços, acabou por afastar ainda mais pai e filho. No entanto, isto viria a mudar numa cena em particular durante o filme: após o primeiro dia de torneio, Pops encontra-se com Tommy num casino, onde são trocadas algumas palavras atenciosas que Tommy rejeita e, inclusive, reage mal. Como resultado, Pops tem uma recaída e encontra-se num estado lastimável. E o que poderia ser um momento para Tommy virar as costas e nunca mais voltar a vê-lo, revela ser exatamente o oposto, reaproximando-os num gesto de ternura e cumplicidade que nunca pensaríamos ver acontecer.

O destino iria novamente juntar os irmãos naquele que poderia ser o “combate do século”. Tommy e Brendan defrontam-se na grande final e o resultado não poderia ser mais sangrento e, ao mesmo tempo, tão emocional que é capaz de nos levar às lágrimas. É aqui que entra a metáfora da importância do sangue: partilhar o sangue com alguém e vê-lo a sangrar é um contraste simples, poderoso e chocante. É precisamente no momento final em que a persistência de Tommy e a força de vontade em não desistir levam Brendan a ter uma recaída emocional ao ver uma pessoa que lhe é importante sofrer pela sua mão. Tal como Pops os magoou, Brendan sentiu que estava a fazer exatamente o mesmo ao seu little brother. É este ato que torna Warrior um dos filmes mais poderosos do século. O que realmente derrota Tommy, no fim, não é o cansaço físico, mas sim as palavras do seu próprio irmão. A capacidade de nos redimirmos e de procurarmos a reconciliação tornam a vida um pouco mais sorridente e recompensadora. É quando Brendan cede e diz ao seu irmão que o ama que o filme atinge o seu auge: a união familiar é o sentimento mais poderoso que existe neste planeta.

Warrior é um filme que se tornou pessoal pela sua simplicidade e pela forma como apresenta o conceito de família. Há um turbilhão de emoções e de memórias que nos passam como flashes enquanto o acompanhamos. É através da sua mensagem perturbadoramente tocante que nos conseguimos ver nas situações das personagens. Mas é precisamente por isto que o filme se torna tão icónico e tão maravilhoso. Também eu partilhei da dor de Tommy, também vivi o dilema interno de Brendan, mas no fim também consegui superar da mesma forma que os protagonistas do filme. É precisamente quando um filme consegue espelhar um pouco da nossa realidade que ele se torna tão especial e, independentemente de tudo o que a vida faz para nos afastar de quem nos é próximo, cabe a nós próprios encontrar uma maneira de nos reconciliarmos. As lágrimas derramadas, sejam elas por tristeza ou por felicidade, são necessárias para o nosso crescimento. E, por fim, é neste filme que revejo uma parte importante da minha vida: a parte em que eu tenho um little warrior. E vocês, também têm?” – Jorge Lestre

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