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Tom Hardy e a valorização performativa!

Tom Hardy

Tom Hardy é um londrino com um talento peculiar para a performance. Não é propriamente um ator versátil, mas em tudo o que toca brilha como ninguém. Porquê? Porque Hardy mantém uma postura consistente nos seus papéis. Estamos habituados a vê-lo com uma postura autoritária, ouvir uns quantos dos seus muitos grunhidos (é um grunt fest, na verdade) e incute uma fisicalidade possante nos papéis em que se alista.

Pode ainda não ter muito reportório de carreira, mas nem por isso deixa de ser um dos atores mais carismáticos da sua geração. Hardy, com 41 anos, é um dos rostos mais prolíficos do cinema e da televisão da atualidade. Conhecemos o implacável Bane, o sedutor Eames, o divertido Tuck, o peculiar Ivan Locke, o durão Forrest, o indestrutível Max, os gémeos mafiosos Reggie e Ron Kray, o vilão John Fitzgerald (que concedeu a Hardy a sua única nomeação aos Óscares da Academia), o selvagem James Delaney, o matreiro Alfie Solomons e o sonhador Bronson, entre outros.

Tom Hardy

Todos eles possuem diferenças, mas sabemos de antemão que são papéis que só poderiam ser interpretados por Tom Hardy. Personagens com personalidades fortes, cuja alma foi estilhaçada por um evento trágico e que as forçam a ter uma posição fria em relação à vida e às situações que vão surgindo no seu caminho. Hardy poderia ser facilmente um guilty pleasure performativo, mas há algo que realmente o torna único nos seus retratos.

Tom Hardy

É na dificuldade de encontrar personagens onde se sente confortável que Hardy acaba por ter uma base de fãs tão dedicada. O ator não se envolve em conversas jornalísticas fúteis e reage mal a certas perguntas mais sensíveis. É reservado e gosta que se foquem no seu trabalho. A vida pessoal é algo que está ligado à sua privacidade e Hardy preza imenso que deixem esse aspeto da sua vida oculto da restante sociedade.

Tom Hardy

No entanto, a nível profissional podemos ver uma sensibilidade muito peculiar na forma como Tom Hardy traz as suas personagens à vida. Claro que por questões monetárias, há certos filmes que não fazem jus aos seus dotes performativos, como é o caso de This Means War ou Child 44. Mas Hollywood é uma indústria e um ator precisa um pouco de pensar também em encontrar sustento mais fácil para sobreviver. Mas tirando um ou outro trabalho que se insere neste aspeto em específico, Tom Hardy é um ator que construiu uma reputação por si próprio.

É um ator flexível nas diferentes formas de arte visual. Tal como Viola Davis prova que se sente confortável a fazer cinema e televisão ao mesmo tempo, também Hardy conseguiu projetar o seu carisma para ambos os meios. Mesmo que a crítica se possa dividir na avaliação dos seus trabalhos, ninguém pode negar que Hardy é sempre o aspeto mais positivo deles. Começou a cair nas boas graças de cineastas proeminentes e bastante profissionais como Christopher Nolan, Nicolas Winding Refn ou até mesmo Steven Knight (com quem trabalha em Peaky Blinders, Taboo e Locke). Entender como Hardy se manobra com as personagens e ter a precisão de lhe atribuir um papel que o force a fazer uma introspeção dura e crua à realidade em que se insere acaba por fazê-lo crescer a um ritmo maravilhoso.

Tom Hardy

É em Bronson e Locke que Tom Hardy revela ser um ator de si próprio. Tudo o resto é assombrado pelo seu à vontade na câmera e pela sua magistral tendência de individualizar as suas cenas. Ele transpôs esta característica para Taboo, a mais recente aposta televisiva em que Hardy domina por completo a narrativa e a mensagem social que ela pretende transmitir (podem ler tudo sobre isso com a rubrica escrita por Pedro Silva sobre a sociedade em Taboo aqui), até que esteve envolvido no argumento da mesma. Podemos dizer que quase todos os filmes/ séries em que o ator está presente que se resumem a um “The Tom Hardy Show” e, de facto, isto não é nenhuma mentira. Mas será isto totalmente pejorativo para o filme/série? Estará o filme/ série comprometido em termos apreciativos porque apenas nos importamos com Tom Hardy?

Podemos dizer que sim, mas a questão não é tão linear como pensamos. O ator pode ser a alma, mas o que se constrói em torno dele é o que o faz brilhar. Sem um bom argumento, Hardy não consegue mostrar o seu potencial, sem um bom realizador Hardy não consegue dar o melhor de si, sem uma personagem quebrada e com fortes problemas psicológicos Hardy não consegue mostrar o que realmente vale. Pode estar confinado a um leque reduzido de personagens, mas é precisamente por escolher algo em que se sente confortável que Tom Hardy é bom no que faz.

Tom Hardy

Em Bronson, Tom Hardy é tão alucinante (e alucinado) que nos deixa boquiabertos, em Taboo, a sua postura é tão poderosa que só o seu andar nos deixa intimidados. Até mesmo em Peaky Blinders, no qual tem tempo de antena reduzido, ficamos sempre com um sorriso no rosto quando este enche o ecrã com as suas curtas aparições. É um ator que nos puxa verdadeiramente para o que “já sabemos e estamos fartinhos de conhecer” mas que o faz com um talento próprio e sabe utilizar isso a seu favor.

Há um cliché tendencioso em apreciar Tom Hardy como ator, mas o certo é que nem tudo o que é cliché tem necessariamente que ser mau e versatilidade não é uma característica que dita a qualidade de um ator. Leonardo DiCaprio é versátil e ponderado na escolha dos seus filmes, já Johnny Depp, que sempre foi apelidado de “camaleão” de Hollywood, tem vivido tempos difíceis com personagens que não conseguem acompanhar o seu carisma. Hardy é facilmente comparável a Benedict Cumberbatch que está sempre associado a personagens-génio e que, apesar das suas diferenças, revelam que é onde este ator consegue tirar maior proveito do seu talento.

Será isto mau? Não necessariamente, basta termos consciência que termos atores prediletos não dita a qualidade do filme por todo e que, no caso de Tom Hardy, não ser propriamente versátil não implica que não consiga brilhar em papéis que são semelhantes e que não fogem da sua zona de conforto.

Tom Hardy

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