Prova dos 9 Rubricas

The Room – O elefante na sala

Prova dos nove: The Room – O elefante na sala

Com o final do ano de 2017, chegou The Disaster Artist, um filme, no mínimo, peculiar. Trata-se da recriação verídica da realização do considerado pior filme de sempre. Não só reencarna famosas cenas do infortuno The Room, o original, como também acompanha a sua estranha génese a partir da, também, estranha mente de Tommy Wiseau, o seu criador.

Foi, sem dúvida alguma, uma lufada de ar fresco na comédia de Hollywood. Inovador e divertido, os irmãos Franco recriaram de maneira poética, um autêntico desastre de filme. O mais interessante de tudo é que, The Room, também beneficiou desta popularidade. The Room é um filme surreal. É sem dúvida alguma péssimo. Terrível. Mas não deixa de ser terrivelmente sedutor.

Admito ter sido apanhado nesta corrente da viralidade que girou em torno The Disaster Artist e The Room, e, movido pela minha curiosidade inerentemente humana, decidi começar por ver a obra-prima (questiono-me seriamente se é assim que a devo de a vincular) de Tommy Wiseau. Foi uma experiência perturbante mas simultaneamente única.

O enrendo, no fundo, é simples, um drama em volta de um trio amoroso. Johny é a personificação do American Dream, é bem sucedido no seu emprego, é dono da sua própria casa e ajuda as pessoas que mais que precisam. Como tal, é recompensado todos os dias ao voltar para uma casa aonde é recebido muito apaixonadamente pela sua futura esposa, Lisa. Subitamente, isto muda, quando Lisa decide que já não está apaixonada por Johny, e começa a sentir uma atração pelo seu melhor amigo, Mark.

Até aqui, tudo bem. É uma história vulgar que fácilmente passaria despercebida. Mas, e há sempre um mas em The Room, a absurdidade passa tudo menos despercebida durante a hora e meia que se segue.

Primeiramente, as personagens comportam-se, constantemente, de um modo que não é de todo habitual numa pessoa. Ouvimos desde pessoas a cacarejar (de um modo insultuoso até para o mundo galináceo) a diálogos exdrúxulos.

Mark: How was work today?

Johnny: Oh, pretty good. We got a new client and the bank will make a lot of money.

Mark: What client?

Johnny: I cannot tell you; it’s confidential.

Mark: Aw, come on. Why not?

Johnny: No, I can’t. Anyway, how is your sex life?

Não só os diálogos são completamente distorcidos como também as reações das pessoas são tudo menos humanas. Refiro-me, com isto, principalmente, a um momento do filme em que Lisa conversa com a mãe e, subitamente, a mãe de Lisa revela ter “definitivamente” cancro da mama. Qualquer ser humano dotado de vá, do mínimo de humanidade, iria ficar completamente destroçado e demonstraria compaixão para com o seu ente querido vida. Mas, sendo The Room a deformidade que é, o que nos resta é estranheza em como rapidamente esta conversa segue o rumo do estado da relação entre Johnny e Lisa. Aqui também se verifica um dos maiores problemas deste filme, a quantidade absurda de sub-enredos que se vão gerando e que nunca, na verdade, concluem.

Poderia se escrever uma tese sobre tudo o que está de errado em The Room, contudo, o certo é que, o pior filme do mundo foi lançado em 2003, há 15 anos atrás, e ainda hoje é falado e comentado. Se por outro lado fosse perguntar, seja a quem for, qual foi o vencedor do oscar de melhor filme em 2003, praticamente ninguém me saberia responder. The Room é mau, mas o facto de ser tão alienado torna-o um filme que atrai milhões de espetadores, e inclusivê, eleva-o ao estatuto de cinema de culto.

Como Tom Bissell, co-autor do The Disaster Artist, escreveu, [the room] é como se fosse um filme feito por um alien, que nunca viu um filme, mas a quem lhe explicaram cuidadosamente o que estes são. E não seria possível descrever de melhor forma a epopeia de Wiseau. No fundo, o que falta a The Room, e aliás, o torna tão absurdo, é a parte mais importante da produção e realização de qualquer forma de arte, tal como a conhecemos: humanidade. O núcleo de tudo o que somos e criamos.

(Já agora, foi Chicago (em 2003), mal por mal, prefiro continuar a tentar perceber como é que é possível existir um The Room.)

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