A 7ª Camada da Arte Rubricas

Taboo: Uma civilização selvagem!

ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS!!!

Taboo é uma aposta da BBC e da FX que conta a história de James Keziah Delaney, um renegado que regressa à sua terra natal após 10 anos em África, para vingar o negócio do seu pai. O pai de James era um magnata que controlava um forte império de rotas comerciais marítimas de especiarias provenientes do oriente. Após a sua morte, James é o legítimo herdeiro da fortuna e do negócio que o seu pai lhe deixou, mas na sua ausência quem ficou a tomar conta deste império foi a Companhia das Índias Orientais. Esta Companhia era liderada por Sir Stuart Strange, que se recusa a devolver o que pertence a James, visto que este negócio é bastante lucrativo para a sua organização.

Taboo é interpretada pelo gigantesco colosso Tom Hardy que é o rosto, o charme e o centro da série. Hardy domina todas as cenas em que surge e conduz a história que possui várias camadas, tornando-a cada vez mais empolgante e abordando questões que são relevantes, não só no tempo em que se insere a série, como também na atualidade.

Há muito em Taboo que não está à vista. Podemos partir do princípio que o foco principal da série é contar uma história simples, mas na verdade explora afincadamente características sociais que podem muito bem refletir os tempos sociais em que vivemos hoje em dia.

A nossa sociedade considerada “moderna” ainda está longe da perfeição. Se tivermos em conta que ainda hoje existem manifestações de discriminação e racismo, então Taboo surge aqui como uma metáfora de que o passado continua muito presente no nosso presente. Existem duas definições importantes que Taboo aborda, o conceito de “selvagem” e do que supostamente é definido pela sociedade como o “correto”, o “aceitável” e o “civilizado”.

Definirmos o conceito de “selvagem” não é uma tarefa fácil. Entenda-se que “selvagem” no contexto da série refere ao “diferente”, ao “invulgar” e ao “forasteiro”. James passou vários anos em África, país considerado na altura como “a terra dos selvagens”; tendo em conta que a escravatura era um dos maiores negócios no século XIX. O avançar dos anos fez com que James ganhasse uma mentalidade mais liberal, absorvendo alguma da cultura do povo que, durante 10 anos, foi a sua casa. Para os que não conhecem Taboo, certamente que este termo não vos é desconhecido como mostrado no filme Pocahontas da Disney. “Selvagem” é associado neste filme aos nativos americanos que vivem da agricultura, da pecuária e que partilham uma cultura e religião que valoriza a terra e tudo aquilo que ela lhes pode fornecer. Em Taboo esta realidade não é diferente, ainda que mais crua e dura, sendo que James era apelidado de “sujo” e de “infiel” precisamente por ter regressado à sua terra natal após todo este tempo a conviver com “selvagens”.

Na sociedade contemporânea ainda se manifesta muito este conceito de selvagem, ainda que os termos tenham sofrido alterações. Se tivermos em conta o estado político atual do mundo, podemos ver ainda que a comunidade árabe e afro-americana continua a ser vítima constante da sociedade considerada moderna. Uma vez que os seus costumes e tradições são completamente distintos da nova sociedade em que se inserem, são muitas vezes vítimas de bullying, racismo, discriminação e ódio. Imaginarmos o que será para estas pessoas adaptarem-se a uma nova cultura é mais complicado do que julgar. Em Taboo, apesar de se inserir numa época considerada “antiga”, este problema social tem o mesmo relevo. Costumamos dizer que o passado é passado, mas a realidade é que o passado continua muito presente nos tempos que correm e que a sociedade não está tão evoluida como deveria estar.

James Keziah Delaney é considerado um homem que se distancia dos padrões que a sua sociedade assume como normais e dignos. Voltou com uma cultura diferente, valores distintos e mente aberta e liberal. Apesar da sua aparência autoritária, James é a personificação de que o que vem de fora é ainda visto com “mau olhado”. Podemos ver que o seu regresso a Londres foi mal recebido, não só porque ameaça o império da Companhia das Índias Orientais, como também era considerado um atentado aos valores de uma sociedade restrita em si mesma.

Ao longo da série vemos James a interagir com personagens de diversos escalões sociais. É precisamente naqueles que são considerados a “escória” ou “escumalha” que James deposita a sua confiança, independentemente de lhes pagar uma quantia simbólica. Se James está inserido na alta sociedade, o que o torna tão próximo do “lixo” social?

James, como qualquer pessoa, tem uma agenda a cumprir. No entanto o seu maior inimigo pertence à alta sociedade, forçando-o a recorrer a certos indivíduos que, de uma maneira ou outra, conseguem infiltrar-se nesta mesma. Qual é o nobre rico que não procura o conforto de uma prostituta? O que seria do nobre rico sem o ferreiro que lhe forja a fortuna? Talvez se pensarmos de uma forma mais prática podemos dizer que as distinções sociais revelam muito de nós; mas a verdade é que independentemente do quanto temos no bolso, isso não nos define como pessoas.

É aqui que fazemos comparação das duas pontas do espetro: o povo apelidado de “civilizado” e que se rege por padrões de conformidade social, tem aqui agora uma contradição. O que torna uma sociedade civilizada? Será que uma sociedade “civilizada” é aquela que aceita ou não aceita o que lhe é diferente? A verdade é que estas questões nunca encontram uma resposta que nos deixe verdadeiramente satisfeitos. Taboo explora esta problemática da forma mais violenta e significativa possível.

Se uma pessoa “selvagem” é o estrangeiro que regressa a casa, isto faz com que o “civilizado” seja precisamente o inimigo que o confronta. Sir Stuart Strange e restante trupe poderiam ser a personificação do que é considerado “civilizado”, mas será esta mesmo a realidade? Há várias situações em que Sir Stuart Strange (Jonathan Pryce), um dos homens mais poderosos de Inglaterra, tenta derrubar James para mostrar o seu poder e a sua influência neste mundo, recorrendo muitas vezes a estratégias que muitos poderiam considerar como cobardes, de baixo nível e selvagens.

Outra figura que também representa esta alta sociedade é o Príncipe Regente, interpretado por Mark Gatiss, titular da hierarquia máxima do poder. No entanto, este é-nos apresentado como um homem ignorante e fisicamente asqueroso, contrastando com o conceito que normalmente é associado à realeza. Para uma pessoa da alta sociedade estas são características que fogem um pouco ao “normal”; se a estética e a educação sempre foram ideais que fundaram a sociedade considerada “culta”, onde se insere o Príncipe Regente? Não é atribuido aos selvagens as conotações de feito e de ignorante? Não são os selvagens supostamente os portadores de tudo o que é considerado asqueroso? Isto deixa-nos verdadeiramente a pensar…

É engraçado vermos os contrastes entre estes dois termos, “civilizado” e “selvagem” uma vez que a série o explora de forma literal mas também os inverte. Quem age como “selvagem” acaba por ser aquela porção de sociedade considerada erudita, culta e poderosa, enquanto que a “civilizada” encaixa na porção trabalhadora, prestadora de serviços e humilde nas suas atitudes. Reforçando a ideia de que James possui valores distintos da sociedade em que agora se insere, a sua nova conduta espiritual foge também aos cânones da religião católica.

Ter uma religião diferente é também uma questão intimamente ligada a este problema. Visto que James encontrou conforto na espiritualidade do povo que o acolheu, também isto se tornou um entrave para a sua aceitação. No século XIX, tudo o que não seguia a doutrina da religião católica era considerado bruxaria ou feitiçaria, inclusive era considerada uma prática punível com a pena de morte. O facto de James ter aceite uma religião ou ideais espirituais de outro povo tornou-o um indivíduo mais humilde em ações e menos interessado em bens materiais. Há vários exemplos ao longo da série que retratam este caso:

1. No funeral do seu pai, James recita cânticos alusivos à sua nova religião, de forma a que a alma do falecido pai encontre a sua paz.

Mesmo que o pai de James não fosse visto com bons olhos por aquela sociedade, o resultado acabou por ser alvo de chacota de todos os que compareceram ao funeral. Estes refastelaram-se de bebida e comida, contando piadas e histórias caricatas, enquanto o protagonista se isolou num canto, fazendo o seu luto e refletindo sobre o peso da vida.

2. A certo momento do enredo, James encontra um navio de escravos no porto de Londres que reconhece do seu tempo em África. Após se infiltrar no navio, James despe-se e inicia um ritual para apaziguar as almas daqueles que perderam a vida em viagem para a civilização. James escava pedras preciosas que se encontram no porão do navio e atira-as para o mar.

O ato de se despir não é só físico, mas também figurativo. James, ao fazê-lo, limpa a sua própria alma de impurezas e inseguranças e ainda tenta conduzir estas almas penadas para que estas encontrem o seu caminho. Isto mostra que o materialismo não existe na personalidade nem na conduta moral do protagonista. Estes atos revelam que James está mais preocupado com a sua própria humanidade do que qualquer riqueza material.

Taboo é o reflexo de como a sociedade moderna não se alterou muito em relação à antiga. Podemos dizer que a humanidade está sempre a evoluir. No entanto, o que Taboo pretende ilustrar é que, de facto, ela está ainda muito estagnada e intolerante. Este contraste que foi feito ao longo do texto entre “selvagem” e “civilizado” prova que há produtos nas artes visuais que conseguem ainda romper isto. A sociedade moderna, à imagem de Taboo, não está ainda preparada para aceitar o que é diferente, o que é humilde e o que é feito com compaixão. Quem é rico continua rico, e a máscara do poder esconde apenas uma atitude de violência e ganância, desprovida de humanidade. Afinal, quem é o “selvagem” e o “civilizado”?

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