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Erased: A vida e os contornos do tempo…

A animação japonesa é tão rica que é capaz de nos transportar para diversos mundos desconhecidos e complexos. O mais recente que vi foi Erased, criado por Taku Kishimoto.

Erased conta a história de Satoru Fujinuma, rapaz que vive com a sua mãe e que leva uma vida aparentemente normal e feliz. Aconteceram alguns eventos na infância de Satoru que o levaram a ter uma postura mais séria perante a vida e com os que o rodeiam e, assim que vê a sua mãe deitada no chão sem vida e mergulhada numa poça de sangue, é forçado a esconder-se da polícia que o acusa de homicídio. Satoru tem um dom; um dom que lhe permite viajar no tempo em momentos de grande ansiedade ou angústia. Após presenciar este acontecimento, o jovem é transportado para 1988 onde três meninas da sua escola foram raptadas e assassinadas e que, por conseguinte, estão relacionadas com a morte da sua própria mãe.

Erased

Erased é um tesouro capaz de mexer com as nossas emoções mais puras. Vai apresentando as suas personagens calmamente, explorando certas características sociais que serpenteiam ainda nos tempos que correm. Satoru conhece Hinazuki Kayo, uma menina adorável com problemas de integração e com uma postura entristecida e amargurada. É vítima de violência doméstica por uma mãe instável e foi a primeira vítima dos supostos desaparecimentos. Satoru está numa corrida contra o tempo para proteger esta sua nova amiga e para desvendar o mistério que rodeia todos estes acontecimentos.

Erased

Por muito que haja um elemento fantasioso que traz carisma a Erased, o anime tem uma mensagem clara: nunca é tarde para corrigirmos erros do passado em prol de criar um futuro mais sorridente. Existe uma humildade nesta história simples e curta que a torna tão bonita e especial. As metáforas são abundantes e leva-nos a refletir sobre o nosso próprio passado. Costumamos dizer ao longo da nossa vida que “o passado é passado e devemos seguir em frente”; mas até que ponto seremos totalmente felizes se sentirmos que há assuntos pendentes e inacabados no nosso próprio passado? A felicidade está dependente da maneira com que solucionamos os obstáculos que a vida nos entrega. É aquele sentimento que todos procuramos, independentemente da fase da vida em que nos encontramos. É uma emoção que dá luta, que parece distante muitas vezes e que nem o Tom Cruise numa missão impossível é capaz de conseguir atingir. Talvez se tivéssemos uma atitude diferente no passado não perderíamos pessoas que nos são importantes ou especiais no presente e que posteriormente acabariam por permanecer no futuro das nossas vidas. Faltou-nos coragem? Faltou-nos ousadia?

Erased

A questão mais importante é que, independentemente do destino que traçamos com base nas nossas atitudes, este é sempre possível de mudar. Nunca é tarde para resolvermos um problema com um amigo próximo, ou de dizer a um familiar especial o quanto gostamos dele. O tempo e a vida não são mais do que meros cenários que acompanham as nossas decisões. Erased é um retrato de esperança que apela ao mais puro do sentimento humano de que, com força de vontade, nada é impossível de reverter. Não se trata de tentar ser rico sem trabalhar, ou de arranjar emprego sem procurar; trata-se precisamente de corrigir um erro (porque errar é humano) e encontrar mais um espacinho de felicidade por percebermos que a vida não é composta apenas pelo nosso próprio ego.

Quer queiramos aceitar ou não, o ser humano não consegue viver em plenitude sem companhia ou sentido de justiça. Fazer amizades e ter o impulso de ajudar alguém numa situação delicada são necessidades que estão enraizadas no nosso ADN. Sermos heróis na vida de alguém é algo sentimos indiretamente quando o espírito de entreajuda emerge nas nossas atitudes.

A vida de Satoru pode ter contornos especiais que o permite viajar no tempo e ajudar aqueles que mais precisam. Nós podemos não ter o mesmo dom, mas temos uma consciência do presente que pode contribuir para decidirmos corrigir algo do passado. Erased é bonito; tão bonito que é impossível não deixar uma lágrima a escorrer do rosto. Aquela lágrima que, ao mesmo tempo engloba toda a tristeza por que passamos, mas também daquela felicidade de sentirmos o nosso dever cumprido e de atingirmos, nem que seja por breves momentos, um estado de plenitude.

E porque Kayo Hinazuki é uma poeta ainda que em tenra idade, fica aqui o seu lindo poema em relação à vida, é triste, mas bonito:

“A Cidade Onde Apenas Eu Não Existo.

Quando crescer e for grande o bastante para ir a algum lugar sozinha, quero ir para um país bem distante.
Para alguma ilha bem longe. Quero ir para uma ilha sem pessoas. Quero ir para uma ilha sem dor ou tristeza.
Nessa ilha, posso subir numa árvore quando quiser. Nadar no mar quando quiser. Dormir quando quiser.
Quando penso sobre a cidade onde só eu não existo, sinto um alívio. Quero ir para longe, bem longe.”

Erased

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