Dos Quadradinhos à Grande Tela Rubricas

A originalidade sem limites de Supernatural

Supernatural

Se andam a acompanhar a expansão do meio televisivo, existem fortes possibilidades de terem acompanhado uma certa série chamada Supernatural. Também existe uma forte possibilidade de já terem desistido da série há já algum tempo. Ou então têm permanecido completamente leais, ao ponto de terem visto o mais recente episódio da série, ScoobyNatural, também conhecido como “o crossover animado entre Supernatural Scooby-Doo“. Apesar de não acompanhar a série de forma tão afincada, confesso ter dado uma valente olhada a este crossover bizarro, acabando por ficar agradavelmente surpreendido.

ScoobyNatural

O que me fez perguntar a mim mesmo: “como, após tantos anos, é que a série consegue ter ainda criatividade para criar episódios assim?”. Portanto, o “Dos Quadradinhos à Grande Tela” desta semana vai tentar, na melhor das suas capacidades, tentar explorar este fenómeno que é Supernatural!

Criada por Eric Kripke em 2005 (uma altura em que a The CW era conhecida anteriormente como The WB), Supernatural é uma série que é protagonizada por Jared Padalecki e Jensen Ackles, que interpretam os irmãos Sam e Dean Winchester, respetivamente. A bordo da sua baby, um Chevrolet Impala de 1967 artilhada, os irmãos viajam pelos Estados Unidos à caça de criaturas místicas. 

Supernatural

Supernatural tinha os ingredientes para uma série típica para teenagers: uma fórmula de “monstro da semana”, complementada com um antagonista diferente entre cada temporada; efeitos especiais convincentes para uma série televisiva; um par de atores que mostram talento que vai mais além do que “duas caras bonitas”, com um elenco secundário sólido como backup. Também são elementos que podem acabar por prejudicar a longo prazo, com uma boa probabilidade de se tornarem repetitivas. No entanto, Supernatural conseguiu um feito surpreendente ao durar mais tempo do que o devido (para quem não sabe, Kripke tinha concebido a série com um limite de cinco temporadas) e mesmo assim consegue manter a fandom viva e ativa. A pergunta continua a ser a mesma, após tantos anos: “como?”

A resposta é mais que óbvia, não é? Grande parte do apelo da série reside no ponto mais óbvio: os seus protagonistas. PadaleckiAckles conseguem trazer personalidades diferentes dos Winchester: Sam é o “bom da fita”, um homem que é capaz de seguir as regras, mas que tenta reter a sua própria humanidade mesmo quando o mundo possui o lado negro; já Dean é considerado por muitos como a “alma” da série. Quase sempre com uma piada na ponta da língua, Dean é o “músculo” dos dois, além de ser também o mais ambíguo moralmente falando, já que está disposto a quaisquer meios para atingir os seus fins, muitos deles com a vida dos outros em mente. Dean também aprecia as “pequenas coisas” da vida, com cada episódio a encerrar com Dean com uma garrafa de cerveja na mão e a clamar por uma fatia da sua verdadeira amada, a apple pie americana.

Como podem ver, estes dois irmãos não podiam ser tão diferentes um do outro em termos de personalidade. No entanto, estes conseguem permanecer bastante unidos, para o que der e vier. E é aqui que reside o grande apelo da série: mais do que o “monstro da semana”, mais do que o “vilão da temporada”, Supernatural sempre se definiu como uma série com um grande fator de irmandade entre os dois Winchester. Temporada após temporada, temos visto estes dois a salvarem-se um ao outro, não deixando nada nem ninguém, nem mesmo a própria Morte, de se meter no meio de ambos. Não é isso que vimos nos nossos próprios irmãos e irmãs? No final do dia, por mais nos zanguemos uns com os outros, não deixamos as nossas diferenças de lado quando é a hora de partir o pão durante as refeições?

Supernatural também define a ideia de “familía” relembrando-nos que temos laços familiares sem estarmos ligados necessariamente a sangue. E de facto, ao longo dos anos, os manos Winchester foram encontrando toda uma panóplia de personagens que foram influenciando as suas vidas:

Bobby Singer

Bobby Singer (Jim Beaver) é o mais próximo que os irmãos têm de um “pai” quando mesmo o seu próprio pai se ausenta. Um velho amigo de família, Bobby apresenta-se como um valioso aliado para os Winchester, não só devido à sua extensa experiência como caçador ou para ser mais um reforço para uma tarefa difícil, mas também para os motivar a serem melhores do que eles mesmos, mesmo que, para tal, lhes tenha de colocar algum bom senso da maneira mais difícil. Mas apesar de uma personalidade difícil e com um passado trágico, Bobby preocupa-se de verdade com os Winchesters, e nem mesmo o Pós-Vida lhe dá sossego quando os seus “filhos” estão perante um grande desafio;

Jody Mills

Jody Mills (Kim Rhodes) pode não ter a mesma experiência do que os Winchesters no que se toca a caçar monstros. No entanto, fica a ganhar no que se toca a uma figura feminina que atraca os manos na realidade. Por vezes pode ser dura, mas isso não signific que não os aceite ou respeite. Aliás, sempre que se cruza com algo sobrenatural, Mills tem sempre os Winchester em speed dial. E também ajuda quando, no final do dia, ainda recompensa a ajuda deles com uma quente refeição. 

Castiel

Se os Winchesters são irmãos, então Castiel pode ser considerado como “aquele irmão adotivo estranho”. Apresentado na quarta season premiere, Castiel é o anjo da guarda do duo. Um soldado do Céu, Cas viria a trocar as vestes – ou, neste caso, a gabardine – para se revelar como um aliado de destaque de Sam e Dean. Além de ser uma fonte de conhecimento bíblico que já salvou os manos em mais do que uma ocasião, é a sua ingenuidade para com a vida terrestre que arranca sempre as maiores gargalhadas.

 

 

 

Mesmo com estes elementos familiares, existem sempre riscos com Supernatural acabar por se estagnar, por mais tocantes que sejam as relações dos Winchesters com as restantes personagens. Por isso, é da minha opinião pessoal que grande parte do brilhantismo da série recai nos episódios em que os guionistas, produtores, realizadores e os atores se divertem a tomar liberdades e fazerem episódios que “fogem à norma”. Ou seja, apesar de contarem com os mesmos elementos de sempre, trazem sempre alguma variedade à série e, desta forma, permitir que esta não fique tão estagnada. Alguns dos meus exemplos favoritos (até à data):

Mystery Spot

  1. Mystery Spot (3×11)

É quase mais que obrigatório vermos uma série a ter um episódio que nos relembra Groundhog Day. E este Mystery Spot partilha desse mesmo conceito, mas com o twist de Supernatural. Neste caso, Sam vive o mesmo dia vezes e vezes sem conta, a ver sempre Dean a morrer. Não das maneiras mais trágicas, mas pelas mais maneiras mais ridículas ou mundanas que se possam imaginar. Esmagado por um piano, degolado por um cachorro, electrocutado, intoxicação alimentar… a mensagem pode ser bastante deprimente, vero; no entanto, e nem acredito estar a dizer isto, existe algo de humorístico a ver Dean a morrer das formas mais estranhas que possam aparecer.

Changing Channels

2. Changing Channels (5×08)

Supernatural a gozar com os vários sub-géneros da televisão mundial? É uma ideia maluca, decerto, mas uma que também só poderia vir de uma mente brilhante. E, por acaso, Changing Channels funciona! Neste caso, Sam e Dean são novamente atormentados pelo misterioso semi-deus Trickster (Richard Speight Jr.), que os prende num mundo televisivo como incentivo para estes aceitarem os seus papéis na guerra entre o Céu e o Inferno. Mais do que avançar no enredo, Changing Channels permitiu-nos ver algumas paródias às séries da época, desde Grey’s Anatomy até Knight Rider, passando ainda por CSI: Crime Scene Investigation

The French Mistake

3. The French Mistake (6×15)

E se Supernatural fizesse um episódio mais meta? É essa a premissa do episódio The French Mistake. Neste, o anjo Balthazar (Sebastian Roché), para proteger os Winchesters, envia-os para um universo pararelo. Ironicamente, esse universo trata os eventos de Supernatural como uma série de televisão. Não se pode tornar mais meta do que isto, não acham? Vermos Padalecki e Ackles como Sam e Dean a interpretarem Padalecki e Ackles? Palavras para quê, mesmo?

Fan Fiction

4. Fan Fiction (10×05)

É sempre um feito impressionante quando uma série chega a um certo patamar. Em 2014, Supernatural atingiu o patamar impressionante de 200 episódios lançados até à data. Portanto, e em jeito de homenagem, nasceu Fan Fiction. Neste episódio, Sam e Dean investigam uma peça de teatro. No entanto, essa peça de teatro retrata as primeiras temporadas da série! Portanto, apesar da ameaça em si, é sempre engraçado vermos os Winchesters a tentarem ser os críticos da zona. Mas ao fim e ao cabo, é um belo tributo ao legado da série, complementada com uma cover arrepiante da música de marca da série, Carry On My Wayward Son, dos Kansas.

Baby

5. Baby (11×04)

E quando se pensava que Supernatural não podia ser mais arrojado no que se toca às suas formas diferentes de como contar uma história, eis que Baby veio mudar o seu panorama todo. Sim, o enredo do episódio pode ter parecido familiar para quem acompanha fielmente a série durante estes anos todos. Mesmo assim, mostrar o episódio à volta do Chevrolet Impala foi um golpe de génio, uma vez que, não só vimos Sam e Dean em cenas mais íntimas dentro do carro, mas também nos relembra que a sua Baby também é uma peça fulcral na sua cruzada.

ScoobyNatural

6. ScoobyNatural (13×16)

Verdade seja dita, juntar SupernaturalScooby-Doo tinha tudo – mas mesmo, absolutamente TUDO! – para dar errado. Afinal, estamos a falar de duas propriedades que não podia ser mais diferentes uma da outra. E, mesmo assim, é um casamento que, contra tudo e todos, RESULTOU! O bom humor de Scooby-Doo, mais a ridicularidade de Supernatural, enalteceu o melhor dos dois mundos, para um crossover que se revelou bem melhor do que deveria ter sido!

Rematando isto tudo: será justo prolongar Supernatural? De facto, existe uma mina de ouro por explorar, mas mesmo tudo tem os seus limites. Tal como o próprio Kripke, partilho da opinião de que a série teria terminado numa nota alta com a sua quinta season finale. Ainda que seja fantástico vermos Sam e Dean numa base semanal regular, nem mesmo o seu charme pode salvar uma série cuja história está quase esgotada. O mesmo aconteceu com Smallville: embora esta tenha o seu apelo inicial, acabou por ficar a perder quando alargou a sua trama. Claro que acabou como se estava à espera, mas, 10 temporadas depois, o dano estava feito. Por isso, convém que Supernatural não sofra do mesmo destino, ainda que os fãs possam sentir saudades de Sam e Dean enquanto conduzem face ao pôr-do-sol.

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